• Soterorock Sessions 2017

    Muitas experiências foram adquiridas nas sessões feitas pelo soterorock em 2016, quando lançamos o Soterorock Sessions. em 2017 prometemos continuar promovendo esse encontro de bandas. Aguardem!

  • Programa Rota Alternativa na Mutante

    Promover debates e entrevistas sempre com um convidado da cena de rock da Bahia. Uma mesa redonda democrática onde se pode falar dos rumos do rock baiano. Agora na Mutante radio aos domingos.

  • Web Rádio ao Vivo!

    Sob o comando de Kall Moraes com mais de 20 anos de experiência em rádios da Bahia. Os programas voltam com força em 2017.

  • 10 anos de Soterorock!

    Foram mais de 50 programas gravados e mais de 300 resenhas realizadas por nossa equipe. Hoje depois de muitos colaboradores que fizeram parte deste projeto, completamos dez anos nesta jornada Rocker. Léo Cima, Kall Moraes e Sérgio Moraes voltam com o programa Rota Alternativa em 2017 trazendo novidades.

  • Programa GOROCK na Mutante Radio

    O que você gosta de ouvir? Léo cima apresenta o GOROCK aos domingos as 13hs na Mutante Radio sempre trazendo um garimpo do rock mundial.

Entrevista com Far From Alaska. Por Leo Cima.

      Foto: Rafael Passos.

Durante a terceira edição do Festial Radioca, batemos um papo descontraído com o simpaticíssimo quinteto Far From Alaska (RN). Nele, a banda falou sobre o seu novo disco, Unlikely, sobre como foi trabalhar com a produtora Sylvia Massy, sobre a cena de Natal, sua carreira internacional, sobre quantas vezes teve que responder do porque de cantar em inglês e um pouco mais! Se ajeite onde estiver, dê um play no Unlikely e aproveite a conversa.

Soterorockpolitano - Gostei muito do Unlikely, o achei muito bacana e gostaria começar o papo por ele. Ele é um disco mais descontraído, mais solto, mais harmonioso em relação ao modeHuman. Inclusive, eu vi vocês falando que ficaram um pouco menos presos em relação aquela coisa do riff. Eu gostaria de saber como foi o processo de criação do Unlikely, quais foram as influencias que vocês tiveram para poder criar as canções desse disco?

Rafael Brasil: Eu acho que esse disco ele veio com a missão de mudar um pouquinho como as pessoas viam a gente. Às vezes a gente via nos lugares “ah, a banda de stoner rock de Natal” e as fotos da gente todas sérias, e não é tanto assim. E aí, ele veio com essa missão de exaltar mais o que a gente viveu, sei lá, em cinco anos, cada um viu o que gosta mais de fazer, o que gosta mais de ouvir e aí foi natural esse lance. A gente viu que não era tão sisudo assim quanto o que a galera botou lá para a gente. Aí ele veio mais colorido, ele veio propositalmente assim. A gente quis fazer músicas mais legais de cantar, se preocupou muito com melodia, mudar mais a harmonia, né? Não ser aquele riff encorpado o tempo inteiro. Adoramos o modeHuman, mais aí o Unlikely veio com essa outra característica.

Cris Botarelli: Esse outro humor!

SRP - Achei vocês bem humorados nessa investida, realmente. Inclusive, lá no Kickante eu vi que tinha uma solicitação para quem quisesse contribuir com R$1.000.000 para vocês não gravarem o disco...

Cris Botarelli: Aaah (risos)

Lauro Kirsch: Teve uma hora que kickaram, tá ligado? Pensei: “Caralho, velho, a gente deveria ter pedido mais, um milhão é pouco!” (risos)

SRP - Ainda em relação ao disco, vocês produziram ele com a Sylvia Massy, que tem no currículo trabalhos com o Tool, Jhonny Cash, Prince, Red Hot Chilli Peppers, mas o que achei  mais interessante é que ela tem uma metodologia bem peculiar de gravar disco, de tirar som, de criar sons dentro do estúdio. Eu quero saber como foi a experiência de ter gravado com ela, eu sei que vocês fizeram alguns experimentos, falem um pouco sobre isso!

Cris Botarelli: Foi massa, esse lance todo a gente estava procurando alguém e tal, e a gente quando encontrou ela, que deu macth no Tinder com ela, e aí foi ver os seus vídeos da internet, a gente ficou muito apaixonado. Porque ela curte muito experimentação, mesmo, na hora de gravar e a gente curte muito essas coisas, essas doideiras! Era exatamente o que a gente estava procurando e aí rolou. Era tudo muito diferente, assim: o jeito de gravar, não tinha aquário de gravação, era todo mundo gravando ali no sofá, ela fez uns experimentos com synth, passou o synth passando por uma salsicha, passando por um picles, furadeira, começou a botar um bocado de coisa. E era massa porque era uma vibe assim de tipo, vamos tentar, vamos experimentar, vamos fazer coisas e se não ficar bom, não usa, se ficar bom, usa.

Lauro Kirsch: Ela não tinha tempo ruim, hora nenhuma! O que você pensava em fazer, ou, brincando, você falava uma coisa, ela: “Vamos!”. Ou ela mesma vinha com a ideia doida e a gente aceitava: “Vamos fazer!”.

SRP - Ela fala que “mesmo que a experiência não dê certo, vai ficar para sempre na memória e o artista nunca vai esquecer”, achei isso muito bacana. Vi até um vídeo que ela fez com a captação da bateria...

Emmily Barreto: O Dick Mic!

SRP - O Dick Mic, que achei super bacana e a achei bem humorada, também acreditei que isso tenha contribuído com a atmosfera do disco...

Rafael Brasil: Ela nunca chegava no estúdio pra baixo, ela nunca falava que o tempo estava ruim. Era sempre “ahh, vamo nessa!”. Aí ela entrou na onda de a gente, de que cada um é um bicho, né? Aí a gente perguntou pra ela qual bicho ela era. Ela pensou, chegou no outro dia e falou que ela era um corvo! E aí ela já chegava “aaaahhhh”, gritando (risos), era massa, era sempre pra cima!

Lauro Kirsch: E às vezes a gente estava maio cansado, assim, de fazer os takes, sabe, “não acordamos ainda”, estávamos naquela assim, ela vinha e “vai, animação, aaaahhhh!!”, ficava gritando e trazia todo mundo para dentro do rolê!

SRP - A vibe era boa, então!?!?

Rafael Brasil: Total!!!

Edu Filgueira: Teve até um dia que ela estava doentaça, e mesmo assim, ela estava “morrendo”, mas estava pra cima, tá ligado? Muito bom!

SRP - Emmily, os microfones que ela tem lá você pôde usar o tanto quanto você quis?

Emmily Barreto: Cara, tinha milhares. Quando a gente chegou lá, o Ivan, o engenheiro assistente dela – na primeira semana ela não estava lá, então a gente ficou um pouquinho sem ela – ele levou a gente pra conhecer tudo e tal, e velho, tinha uma sala só de microfone, como tinha de tudo também, de amp. De tudo! Mas a quantidade de microfone era surreal, se eu fosse escolher era impossível. Então, graças a Deus, ela escolheu por mim e ela escolheu um microfone lá de ouro, que era bizarro. Só ele é, tipo, uns 100 mil dólares.

Cris Botarelli: Era tipo, 30 mil dólares.

Emmily Barreto: Não, era mais, era mais! Era muito caro! Era de ouro! Você escutava, se você estivesse usando um fone, você escutava coisa da rua melhor do que se você estivesse sem o fone, tá ligado? Bizarro, bizarro! Usei esse mic que eu esqueci o nome, mas eu tenho foto dele.

Lauro Kirsch: Soyous!

Emmily Barreto: É esse aí!

SRP - Mudando um pouquinho de assunto, mas ainda com um pé lá fora, quero falar um pouco sobre carreira internacional. Vocês estão dando os seus primeiros passos em relação a isso, vocês sentem alguma pressão desse aspecto sobre os ombros de vocês, como vocês têm lidado com isso por ser considerada uma banda promissora?

Rafael Brasil: Acho que a palavra que a gente sente não é pressão, não, é vontade mesmo!

Cris Botarelli: É vontade de ir logo! (risos)

Lauro Kirsch: A pressão é mais interna, entre a gente de querer fazer a coisa acontecer do que do público, que já conhece a gente, esperar isso da gente. Pô, se a gente for, o público vai achar bacana, mas pra gente é muito mais pressão, de a gente querer fazer a coisa acontecer lá fora. Porque sentir o gostinho indo para o South by Southwest, indo para o Download Festival, tipo, é muito massa! A vibe, a receptividade da galera foi bem tranquila. Antes a gente ficava apreensivo, tipo, “como é que eles vão receber a gente?”, uma banda brasileira fazendo rock e isso ser “esquisito”, mas a galera foi muito amor e até hoje mandam mensagem para a gente.

Emmily Barreto: É, acho que no momento é mais planejamento, a gente tá com a cabeça nisso mesmo. O nosso objetivo no momento é esse, a gente quer botar o pé lá fora mais vezes. No começo do ano que vem a gente quer começar já com turnê lá fora e vamos ver o que rola! A gente tá ansioso!

SRP - Sobre a cena de Natal, Natal tem uns dez anos que vem se destacando no cenário brasileiro, apresentando boas bandas com projeção nacional significativa, um festival expressivo. Para vocês, o que faz da cena de Natal ser tão destacada e bem sucedida?

Lauro Kirsch: A água!!! (risos)

Rafael Brasil: Esse lance de ter um festival, de ter uma pessoa trampando para isso, ter um bar, ter um lugar para as bandas tocarem, isso tudo acaba movimentando a cena inteira e a gente é fruto disso, inclusive. A gente cresceu lá tocando em outras bandas e isso é muito importante. Todo lugar que a gente vai, todo lugar que tem festival a gente fala o quanto isso é importante para cidade, para movimentar a parada e fazer acontecer. Tanto que eu senti uma vibe dessa também em Goiânia, por exemplo, que tem o Bananada, que tem a galera lá que trampa nisso. Então, acho que esse é o diferencial da cidade, que faz Natal ser especial por ter esse circuito para as bandas tocarem lá no ano todo e ter os festivais MADA e DoSol.

Lauro Kirsch: E o público corresponde também!

Emmily Barreto: É, a galera pira! Tipo, a banda favorita da galera é a banda de lá de Natal e se tem show eles lotam o show, não tem isso de tem que ter banda de fora para ir.

Cris Botarelli: Foi um processo isso lá, né? Porque as coisas do DoSol tem dez anos agora e aí foi um processo da galera se acostumar a consumir as coisas de lá mesmo, não ter vergoinha, né? Que às vezes a galera tem esse velho complexo de vira-lata que a galera fica com vergonha de gostar. Em Natal, não, a galera curte mesmo, sabe cantar, chega no show, se tiver fã compra o merchan , tipo, vai no show e paga o ingresso e tudo o mais, é massa! É acima da média de público também! A galera é bem massa!

SRP - E das demais cenas, o que vocês têm observado de bandas e de artistas, o que tem chamado a atenção de vocês no território nacional?

Rafael Brasil: A gente está vivendo um momento muito, muito, muito foda da música no Brasil. Em toda viagem que a gente vai, para todo canto, a gente encontra uma banda e fala “caralho, isso aqui era para o Brasil inteiro conhecer, muito foda”. E a gente pode citar algumas bandas que a gente está em contato direto lá em São Paulo, que a gente já virou amigo, como Francisco El Hombre, Scalene, Supercombo, Ego Kill Talent, a lista é gigantesca, não dá nem para falar todo mundo. Todas bandas fodas com competência para assumir esse mainstream do Brasil!

Lauro Kirsch: Foi um momento meio que único, porque todo mundo resolveu sair das cidades que se originaram para ir para São Paulo e tipo, todo mundo começou a se encontrar em São Paulo pelo polo de logística, de ser mais fácil para as bandas circularem lá, então muitos artistas como Selvagens a Procura de Lei, lá do Ceará, eles se mudaram para São Paulo também, o Plutão já foi Planeta se mudou para São Paulo e fica nessa de ida e volta. E acaba que todo mundo se encontra nos shows dos amigos por lá, trocando informações, trocando figurinha, o que tem que fazer, o que não deve fazer e como fazer!

Rafael Brasil: A gente está doido para que todo mundo estoure, porque o Brasil precisa conhecer essas bandas, de verdade. Fica meio que só na internet, a gente vive nesse mundo e vê que tem um público gigantesco de uma galera que consome, é só as grandes mídias também chegarem junto! Mais, né? Acho que já estão dando um pequeno espaço, mas tem que ir mais ainda, porque o Brasil merece conhecer essas bandas boas que estão sendo produzidas aqui.

SRP - A pergunta agora é uma pergunta sobre uma pergunta: Vocês já contabilizaram quantas vezes já tiveram que responder do “porque de cânter em inglês”?

Todos: Aaaahhh!!! (risos)

Emmily Barreto: Primeiramente, a gente está muito feliz que você não fez essa pergunta. E foi a melhor pergunta sobre essa pergunta! (risos)

Cris Botarelli: Teve várias fases, já. No começo, a gente não tinha uma resposta e a gente inventava. Aí cada vez inventava um negócio. Depois a gente formulou uma resposta, depois a gente começou a ficar com preguiça de dar a resposta e respondia qualquer coisa tipo, “porque sim!”. E aí agora é um misto, hoje em dia quando perguntam é um misto, assim de “a gente fala, mas não fala”, é que não tem mais o que falar!

Edu Filgueira: Tem a versão curta, a versão média e a versão longa, depende do bom humor do dia.

Emmily Barreto: Mas, é chato!

Rafael Brasil: Acho que essa pergunta se mistura um pouco com o lance lá de Natal, tipo, a gente tá lá em cima, na esquina, ali, saca? As bandas lá, elas tocam o que gosta! Claro que lá dentro pode ter o lance de “pô, eu queria que as pessoas todas conhecessem a minha banda”, mas não, eles fazem do jeito que gosta. A galera de lá de Natal consome independente de ser em inglês ou ser em português, então é uma parada real mesmo! E se der certo, se chega em outros lugares, que irado! Mas o pensamento inicial não é de tipo “vamos cantar em português para fazer sucesso” ou “vamos cantar em inglês para dominar o mundo e conquistar noventa e quatro territórios!”.

Lauro Kirsch: Por ser o que a gente gosta e ser muito o que a gente escuta, também. Tipo, influencia de rock! O rock não é brasileiro, o rock é americano, o rock é britânico e a gente escuta isso. É tudo em inglês e é natural fazer aquilo o que você escuta. Soa natural!

SRP - Questionei também porque normalmente essas perguntas “do porque cantar em inglês” vêm sempre com uma crítica nas entrelinhas sobre isso. Tipo, “Vocês são brasileiros, nordestinos, de Natal e cantam em inglês? Como assim?”.

Edu Filgueira: Uma coisa não invalida a outra, né? A gente não está querendo que todas as bandas passem a cantar em inglês, sempre vai ter espaço para todo mundo! Aí tipo, muita gente que critica isso nem para pra pensar e consome, sei lá, o Scorpions, que é uma banda gigantesca, mas é da Alemanha, só que canta em inglês.

Lauro Kirsch: Nossa, você foi longe, heim?

Edu Filgueira: Não, saca, tipo, a galera não para pra pensar nisso, né?

Rafael Brasil: E a gente é geração da internet, é da geração que escolhe o que quer ouvir e que escutou banda em inglês mesmo. Acho que antes era mais difícil, alguém tinha que vir de fora com o disco para te apresentar e você conhecer aquela banda, né? Hoje em dia não, cara. Hoje em dia todo mundo vai, sei lá, no Spotify ou no Youtube e escuta o que quer e tal. E a maioria das pessoas consomem coisas em inglês, é um preconceito besta e que seria legal se mudassem!

Cris Botarelli: Eu fiquei sabendo que rolou uma época, nos anos sessenta para os setenta, uma passeata contra a guitarra elétrica. Uma lance, tipo, “não vamos americanizar a nossa música”. Naquele momento poderia fazer algum sentido, se havia algum movimento rolando, só que eu acho que ficou esse ranço. Assim, porque quando a pessoa pergunta “porque vocês cantam em inglês se vocês são do Brasil?”, aí você fala “mas porque não, diga aí?”, a pessoa também não tem resposta, uma coisa que a pessoa reproduz às vezes sem nem pensar sobre, tá ligado? Vai ver que é uma herança aí, ó!

SRP - Para encerrar, vocês fizeram uma pequena maratona pelas cidades baianas, passaram por Vitória da Conquista e pela segunda vez em Feira de Santana e agora, finalmente, vocês estão em Salvador, depois de um bom tempo, já estávamos esperando por vocês há uma cara. O que vocês esperam de Salvador e o que Salvador pode esperar da Far From Alaska daqui a pouco?

Cris Botarelli: Rapaz, o que a gente escuta da galera daqui de Salvador é que a galera é roqueira doidona. Então, a gente está esperando o apocalipse, está esperando a galera quebrar tudo, porque a gente vai tentar quebrar tudo no palco também. Então, a gente está com a expectativa bem alta e o que a gente só escuta é bons comentários da galera daqui.

Rafael Brasil: E como é a nossa primeira vez aqui a gente vai tocar muita música do disco novo, mas vamos tocar umas três ou quatro do disco velho. É a primeira vez, então tem gente que gostaria de ver, né? Que a gente não teve a oportunidade, a gente não veio aqui antes. Vamos tocar umas velhas, tocar umas novas. Vamos quebrar tudo! A Bahia tem um lance que o Tiago, que é o primeiro cara que acho que acreditou na gente na internet, né?

Emmily Barreto: Ah, sim, sim! Do fã-clube da gente! Ele está aí!

Rafael Brasil: Ele é daqui da Bahia, o presidente do nosso fã-clube, ele vai vir hoje, vai ser massa!

Lauro Kirsch: O fã-clube oficial baiano!
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Festival Radioca III: duas noites de pluralidade musical. Por Leo Cima.

     Foto: Rafael Passos.

Aconteceu neste último final de semana a terceira edição do Festival Radioca. Festival esse que traz em seu lineup novos e veteranos nomes da mpb, artistas consagrados e outros mais significativamente promissores da nossa cena musical. Sejam daqui da Bahia, ou de outros estados, as atrações refletem bastante a proposta do evento, que se origina de um programa de rádio local de mesmo nome.

A diversidade das atrações, algo a se levar muito em consideração quando se fala em Radioca, foi um aspecto que chamou a atenção na grade de 2017. A curadoria feita para o festival foi mais além nisso em relação aos anos anteriores, o que acabou por oferecer um prato cheio para aqueles que gostam de apreciar uma boa música, ou descobrir novos sons. A infraestrutura do festival se expandiu bastante em relação à primeira edição (em 2016 não pude comparecer ao evento) tomando todo o espaço do Trapiche Barnabé, proporcionando uma melhor circulação das pessoas na área dos shows e reservando o trecho lateral do lugar para as feiras de artesanato, vinil, moda, uma praça com a instalação de um restaurante (desta vez não havia food trucks) e vários pontos de caixa para compra de bebidas, eliminando longas filas para adquirir fichas. A altura do palco é algo a se frisar também, ele não estava muito alto, ao mesmo tempo em que a visão da plateia para ele era confortável e não estando em momento algum comprometida, aproximando mais os artistas do público junto a uma sonoridade impecável.

Sobre os shows, abrindo o primeiro dia, a baiana Lívia Nery apresentou a sua música fincada no cool jazz, com influência de ambient rock e uma ótima performance. Com boa presença de palco, ela utilizou muito bem recursos de efeitos de voz em momentos pontuais, assim como a banda que a acompanhava a seguiu de maneira impecável. Vale ressaltar a presença do Emanuel Venâncio, na bateria, ótimo músico que estava em “não-sei-por-onde” e que reapareceu aqui. Foi um ótimo começo e deixou a audiência, que ia se acomodando aos poucos, aquecida para a sequência que estava por vir. Do Pará, Pio Lobato, tendo o Lucas Estrela como músico convidado, apresentou um repertório instrumental com bastante guitarrada. O ritmo alegre e leve do seu som acabou por esfriar um pouco os ânimos do ambiente e foi um momento no qual as pessoas se dispersaram pelo lugar e não se prenderam a sua apresentação. Já o Raimundo Sodré, de cima do palco, injetou mais empolgação na plateia com uma banda competente e com uma presença de placo cheia de carisma, trazendo consigo um repertório mais dançante e completo de história musical.

Como penúltima atração da noite, e talvez a mais esperada da grade do sábado, a Far From Alaska, de Natal, fez a sua primeira apresentação na capital baiana e não decepcionou. A performance explosiva e impactante do quinteto literalmente engoliu as demais apresentações de tão boa que foi. A entrega dos integrantes no palco foi absurda, com um expressivo desempenho que atesta o ótimo momento vivido pelo FFA. Os sons encorpados e bem preenchidos das suas composições ganharam vida com fidelidade em cima do palco, com uma cozinha extremamente segura, ótimas distorções, efeitos e texturas da guitarra, presença certeira dos synths e o vocal poderoso da Emmily Barreto. Empolgou muito a quem os assistia, e ainda foi aberta uma “roda de rock”, puxada por uma moça empolgadíssima que estava no meio do povo, na qual a Cris Botarelli desceu do palco para participar. Foi um show avassalador! Merecia durar um pouco mais! Encerrando a primeira maratona, Rincon Sapiência (SP) apresentou seu rap com muita vontade e sem deixar dar fôlego para quem o esperava. Muita gente o acompanhou letra por letra e a própria música que ele apresentava atendia bem as expectativas de quem acompanhava os seus versos. Fugindo bastante do lugar comum de quem mistura mpb e rap, o bom uso da guitarra, com percussão e pick-ups foi o grande diferencial do seu show.

O segundo dia, igualmente pontual como anterior, reservava uma sequência aguardada de shows. Quem iniciou os trabalhos foi a Jadsa Castro (BA). Com uma bela voz firme e de personalidade forte, ela apresentou canções que remetem bastante a musica popular brasileira contemporânea, destacando o trabalho de percussão de seu grupo, dando ênfase a cada instrumento no momento certo. Depois dela, a banda alagoana Mopho, que completou agora em 2017 vinte e um anos de carreira, tocou pela primeira vez em terras baianas com o repertório do seu mais recente disco, Brejo. Muito aguardado, o quarteto não decepcionou e fez uma apresentação segura e atmosférica, dentro da proposta do seu som, que vai do psicodelismo à jovem guarda. O tempo de estrada do conjunto garantiu que as canções surgissem mais encorpadas em cima do palco, e com o brilho idêntico ao dos seus registros em disco, com arranjos que remetem às coisas boas que o George Harrisson produziu nos seus primeiros trabalhos solo. Além das novas composições, a Mopho passeou pela sua discografia tocando canções de trabalhos mais antigos. Na sequência, o também quarteto Quartabê, de São Paulo, criou um clima mais jazzístico no festival executado um setlist completamente instrumental em homenagem ao músico Moacir Santos. Instrumentos de sopro, piano e bateria conduziram a performance do conjunto de maneira suave e interessante, abrindo espaço para bons improvisos e contemplação da plateia.

A penúltima atração da noite foi o paulistano Curumin. Confesso que estava curioso para assistir ao seu show, pois havia quase nove anos que não o via em ação e na primeira ocasião a sua apresentação não me agradou. Tanto tempo depois e o som dele continua não chegando a mim. Seus discos são ótimos, porém ao vivo sempre se tem aquela sensação de que falta algo, mesmo acompanhado por ótimos músicos como ele, possuindo viradas sutis de bateria nas passagens de uma canção para outra e com a participação especial do Russo Passapusso em um trecho significativo de seu show. Mesmo assim, agradou muita gente que dançou e cantou junto! Encerrando o Radioca, a banda Metá Metá fez justiça a sua fama de ser excelente em cima do palco. O som do quinteto pode ser definido como uma linguagem que segue um caminho entre o rock e o jazz moderno, feito com uma liberdade experimental que beira o pop sem que estes dois lados não se desgrudem um do outro em momento algum. Tudo isso feito com uma musicalidade forte, com a voz mais forte ainda e super presente da Juçara Marçal, timbragens sonicyouthianas da guitarra, cozinha desconcertante de viradas certeiras na bateria do Sérgio Machado e a suavidade do saxofone. Foi de encher os olhos e os ouvidos de uma maneira, que o grupo teve que voltar para mais uma música no bis.


A terceira edição do Festival Radioca manteve, de fato, o ótimo nível de shows em decorrência da boa curadoria realizada e, com isso, a diversidade musical se fortalece como uma marca consolidada do evento. Como nos anos anteriores, o público compareceu em uma quantidade considerável nos dois dias e ganhou tudo isso e um pouco mais, dentro do Trapiche Barnabé, que foi a morada temporária dos bons sons. E a cobertura do Radioca não para por aqui, em breve, entrevistas inéditas com a Far From Alaska e com a Mopho.

Fotos:

     Lívia Nery/Foto: Rafael Passos.
      Pio Lobato/Foto: Rafael Passos.
      Raimundo Sodré/Foto: Rafael Passos.
      Far From Alaska/Foto: Rafael Passos.
      Rincon Sapiência/Foto: Rafael Passos.
      Jadsa Castro/Foto: Rafael Passos.
      Mopho/Foto: Rafael Passos.
      Quartabê/Foto: Rafael Passos.
      Curumin/Foto: Rafael Passos.
      Metá Metá/Foto: Rafael Passos.
      Foto: Rafael Passos.
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Série “Mais uma Cara do Rock Baiano”: Wilson PDM, baterista da Pastel de Miolos.


A nossa série de entrevistas está de volta com uma das pessoas mais atuantes do cenário rocker baiano. Wilson PDM, baterista à frente da Pastel de Miolos e gestor da Brechó Discos há mais de duas décadas, fala aqui sobre o novo disco da banda, sobre a condição dela ser agora um duo, como é empreender na cena, sobre a nova turnê e também a respeito da campanha do Reação! no Catarse (https://www.catarse.me/pasteldemiolos). Se ajeite onde estiver e se jogue nessa entrevista!

SOTEROROCKPOLITANO - Wilson, gostaria de começar o papo falando sobre o novo disco que a Pastel de Miolos está preparando. Com o formato atual da banda como um duo vocês têm mostrado uma ótima desenvoltura ao vivo, mas como tem sido a experiência de ser uma dupla dentro do estúdio, nesse formato de bateria, baixo e vocal?

WILSON PDM - Olá, sobre o disco novo, será nosso 5º disco e um lance interessante: estamos gravando o 1º disco de punk rock brasileiro de uma dupla com formação baixo e bateria. A experiência de gravar nesse formato foi quase o mesmo de tocarmos ao vivo em um show, captamos a parte instrumental tocando como se fosse show e depois gravamos as vozes, basicamente o que ouvirem no disco, ouvirão tudo no show, quando começamos o processo de composição, pensamos nisso, não podíamos gravar coisas que não teríamos condições de executar ao vivo, então, todos os arranjos que estão no disco, as pessoas ouvirão nos shows, por isso o disco é bem direto, bem algo tipo “chegando de voadora com os 2 pés”, saca? Tivemos também a colaboração de Irmão Carlos na produção e de Pekka Laine na mixagem e masterização do disco, tanto pra gente, quanto pra eles, foi e tá sendo uma experiência nova, todos somos calouros nesse tipo de formatação “duo punk bass & drum”.

SRP - Quais as possibilidades sonoras que a banda tem explorado nas sessões de gravação? E quais as novas referências musicais que a banda tem buscado para deixar o som mais conciso?

WPDM - Acho que respondi boa parte na questão anterior, mas vamos lá: pra gente tem sido uma coisa única, acredito que crescemos de forma absurda, falo musicalmente, somos dois, que temos que fazer papel de quatro caras, basicamente isso, desde o primeiro momento, desde o primeiro ensaio, sabíamos que seria um grande desafio pra gente, e também, quando decidimos seguir nesse formato, conversamos e fizemos um pacto: que faríamos bem feito, não seria nada nas cochas, armengado, saca? Muitos pensam que é apenas um baixo com pedal distortion, mas não é tão simples assim não, tem distortion, mas tem outros pedais e elementos, que sem eles, não conseguiríamos ter a sonoridade que temos, mas acima de tudo, tem a forma que André toca, ele está se reinventando e eu (bateria) tenho também que ser mais preciso, estou buscando formas para o som ficar mais coeso, mais colado, tornando o som mais encorpado e pesado. Quanto as referências, acredito que continuam as mesmas, o punk rock, o hardcore, o metal, o rock de uma forma geral, acho q novas referências partem mais pelo lance da parte técnica, de equipamentos, pesquisamos muitas bandas nesse formato, buscamos referências de set de pedais, essas coisas.

SRP - O nosso país vive um momento político muito conturbado e negativo, com uma evidente apatia da população brasileira sobre esse fato, e é neste contexto que surgirá o quinto disco da PDM, Reação! Como isso tem incidido no processo criativo da banda e do novo disco em si?

WPDM - A escolha do nome do disco “REAÇÃO!” vem disso também, da atual situação que se encontra nosso país, tínhamos outros nomes, mas esse foi o que mais bateu com o momento que vivemos, falo também do momento que a banda passa, nossa REAÇÃO diante do fato de seguirmos no formato “duo” também contou muito para a escolha do nome REAÇÃO. Quanto ao processo de composição das músicas ocorreram de forma natural, André mandava as ideias, sempre construídas no violão e marcávamos ensaio, ele fazia a transposição para o baixo, tocávamos e daí íamos mudando e acrescentando algo na ideia original, a maioria já tinha a letra, outras, apenas instrumental e escolhíamos uma letra que melhor combinava. Teve umas 2 músicas que mostrei a levada de bateria e André fazia a base, o riff baseado no que eu construí. Todo processo de criação do disco foi feito por nós. Pedimos algumas letras a uns amigos, queríamos algo de alguém de fora da banda desde parte gráfica até mesmo letras e assim Edu Revolback, Bruno Aziz, Ilsom assinam a essa parte gráfica e Lima Trindade, Sandro Ornellas, Tony Lopes e Bidido mandaram algumas letras e musicamos, das 16 faixas do disco, 2 são de Tony, 1 de Lima, 1 de Sandro e outra de Bidido com algumas intervenções que fiz, as demais são de André e umas poucas feitas por nós 2.

SRP - Vocês estão prestes a começar uma nova turnê, quais são as expectativas da Pastel De Miolos sobre essa tour?

WPDM - Estamos na maior instiga pra pegar a estrada com músicas do novo disco, já temos alguns shows agendados na Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte, ainda não saímos da Bahia com essa formatação duo, já temos um público bem legal em alguns lugares que a turnê vai passar, muitos tem nos mandado mensagens sobre o quanto estão ansiosos pra ver nosso show, e isso nos deixa bastante felizes.

SRP - Para além de músico, você também mantem na ativa há muito tempo o selo Brechó Discos, lançando muita banda/artista ao longo desses anos, o que prova que estar no rock também é empreender. Atuando em diversas pontas na cena, quais as dificuldades que você acredita ser mais presente no meio e o que te faz seguir adiante nesta labuta?

WPDM - Sou gestor do Selo Brechó Discos, desde 1989 venho apostando em bandas sem futuro e vou continuar até quando puder, pra mim é muito prazeroso manter o selo, é algo que sinto que estou contribuindo pra cena, já fizemos mais de 170 lançamentos, de todos os formatos que existem ou até mesmo existiram, atuamos tanto no meio musical, quanto também na literatura, sobre as dificuldades, as mesmas de sempre, a “fela da putagem” da monocultura do axé, a falta de lugares para as bandas se apresentarem, a ausência de um público que gere um consumo do que é produzido, acredito que se conseguirmos ter algo girando forte, com certeza chamaríamos a atenção de gente com interesse para se juntar a música independente que está sendo feita na Bahia, temos boas bandas, temos gente fazendo e lutando para um cenário melhor, a Bahia tem um lastro de bandas fantásticas, mas falta apoio, respeito, e grana!!!

SRP - Estando a frente do selo, como você enxerga a coexistência dos novos e velhos formatos de música? Streaming, cd, k7 e vinil se complementam, ou um ou outro é dispensável?

WPDM - Parece um ciclo, cada época, surge um formato ou algo parecido para fazer com que prevaleça a vontade da indústria, penso que, esses serviços de streaming de hoje em dia, fazem o papel das grandes gravadoras do passado, isso é fato, vejam, ultimamente grandes bandas soltam o novo álbum por algum desses serviços, está sendo raro, sair por todos de uma vez só, então, isso né a monopolização da obra? Né contrato? Né o que as gravadoras faziam e fazem? Acho importante e valido esses serviços, pois, hoje, qualquer banda pode ter acesso a isso, claro que não terá a máquina pra empurrar, mas tem acesso e pode, de forma criativa divulgar seus trabalhos, fazer com que possa chegar em todos os lugares inimagináveis, mas também acho importante q a banda continue produzindo CDs, LPs, Cassetes, DVDs e qualquer outro formato “físico”, acho papo furado esse lance que o Vinil morreu, o CD morreu, a puta que o pariu morreu!! Foda-se, sempre existirão consumidores para todos os tipos e formas de distribuição da música.

SRP - A banda está com uma campanha no Catarse para financiar o projeto do seu novo disco. Nos fale sobre as recompensas que terá aquele, ou aquela, que vai contribuir com a realização do Reação!

WPDM - Decidimos lançar a campanha “crowndfunding” após pensarmos muito muito sobre, mas foi a única forma que encontramos para gravarmos e prensarmos o novo disco, na real, é uma pré venda do disco, atrelados a outros produtos da banda, alguns desenvolvidos exclusivamente para a campanha como é o caso das camisetas, ensaio com as músicas do novo álbum, palhetas e cervejas, tem várias recompensas, com certeza existirá uma que caberá no orçamento de quem se interessar, esperamos atingir o maior número possível, isso nos ajudaria muito.

SRP - Para finalizar, deixo sempre essa espaço para um recado final do nosso entrevistado, fique à vontade para deixar o seu!

WPDM - Gostaria de dizer que: nunca desistam, insistam, façam bem feito, falta de grana não é justificativa para fazer um trampo malfeito, planejem e sejam sinceros no que se propuserem a fazer, atitude é tudo!


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RESENHA: PRIMEIRO DIA DO SOTEROROCK 2017. Por Paula Holanda.


O Buk Porão foi palco para o início do Festival Soterorock 2017, que acontecerá em outras duas cidades além de Salvador — o evento será sediado também no Let’s Go Pub, em Alagoinhas, e no It’s Not Pub, em Catu. O line-up do dia 02/09 incluiu as bandas Kalmia, Aborígines e Modus Operandi. A Pastel de Miolos também estava escalada para a noite de abertura do festival, mas o show infelizmente foi cancelado, pois André PDM (voz, baixo) estava doente (melhoras!).
A Kalmia, banda soteropolitana de crust, abriu o primeiro dia do Soterorock. Glauber Lubarino (bateria) tocou como um animal, com muita compenetração e sangue nos olhos. As performances de Pingo (voz, guitarra) e Doriva (baixo) não ficaram muito para trás. No entanto, inicialmente, o público (de aproximadamente 50 pessoas) estava bem comportado e contemplativo. Às vezes rolava um ou outro mosh entre amigos — daqueles carinhosos, que mais parecem abraços coreografados — ou algum indivíduo solitário fazendo mosh com ele mesmo, mas nada muito movimentado.
O setlist da Kalmia contou com mais de dez músicas autorais — entre elas, “Não Atrapalhe”, “Vivenciando Atrocidades” e “Jovens Negros Em Extinção”. O show terminou com uma versão de “Nazi Não”, da Fecal Feast — finada banda formada por Pingo e Galf Aspecto — com participação de Jamille Marques na guitarra e com um cover de “Desperate Hours”, da banda sueca Anti-Cimex. Ainda teve uma palhinha de Júnior Nascimento no meio disso tudo.
A banda Aborígines, de Alagoinhas, foi a segunda atração da noite. O show do power trio — que faz um som mais puxado para o rock ‘n’ roll, mas que também é fortemente influenciado pelos clássicos do punk — surgiu como um respiro para o soco na cara que foi o primeiro show, com ritmos mais lentos e timbres mais leves. Apesar de a Aborígines ter uma sonoridade menos agitada do que a da Kalmia, o público parecia mais animado, elétrico e dançante (talvez por conta da ebriedade) nesse segundo show.
Formada por Dando (voz, guitarra), André Fiscina (voz, baixo) e Anderson Leba (bateria), a Aborígines tocou seu álbum “Absurdos” praticamente na íntegra, com exceção de “A Espanhola” e “Alagoinhas Garden”, e finalizou seu show com três covers clássicos: “Ace Of Spades”, do Motörhead, “Police Truck”, dos Dead Kennedys e “Brand New Cadillac”, do Clash (com participação especial de Doriva nos vocais). Eles também dividiram uma banquinha comigo e venderam alguns CDs alagoinhenses — além de “Absurdos”, a banda trouxe cópias de “Mercadores da Dizimação”, da Ironbound, e de “Queimando o Asfalto”, da Nute.
A Modus Operandi foi a última atração da noite — como sempre, com um show enérgico do começo ao fim. As apresentações do grupo são impressionantes para quem nunca o viu tocar, talvez por ser muito dinâmico e promover uma esfera de esoterismo. Lembro das expressões de surpresa de Gigito, que não me parece ser muito ligado à onda do pós-punk e industrial, mas que presenciou seu primeiro show da Modus Operandi naquela noite e comentou comigo que achou a banda fantástica.
A estranheza perante a performance do quarteto pode ser compreensível, afinal, não é todo dia que se vê um vocalista frenético à margem de uma convulsão, ou um baixista inquieto perambulando pelo público. Muito menos um percussionista que usa uma furadeira como instrumento. O show da Modus Operandi — formada por David Vertigo (voz, sintetizador) Henrique Letárgico (voz, baixo), Marcos Tripha (percussão, furadeira) e
Eduardo dEUS (bateria, percussão) foi completamente autoral e durou quase uma hora. O público clamou por bis, mas este foi negado por Eduardo, que estava cansado demais para continuar tocando.
A discotecagem do início e dos intervalos do evento ficou por conta de Doriva e Thiago Berteli, que executaram uma digníssima playlist de punk e pós-punk que ia do mainstream (a exemplo de Ramones e Iggy Pop) às bandas mais obscuras, como Hutt, Lupercais e Paranoid — um grupo sueco de raw punk com influências do punk japonês (que tive que perguntar o nome a Doriva pois achei muito foda, depois pesquisem sobre). Acho importante pontuar que a maior parte do público acompanhou o festival do começo ao fim, as bandas assistiram umas às outras e não se via quase ninguém bebendo cerveja do lado de fora — atualmente, isso é tão raro em Salvador que eu até fiquei admirada. Povo educado, muito bem.

A próxima parada do Festival Soterorock 2017 é no Let’s Go Pub, em Alagoinhas, no dia 08/09. 32 Dentes, Universo Variante, Not Names e Gérbera são as bandas que integrarão o line-up do próximo sábado. Ao total, serão 17 bandas baianas — fora a Pastel de Miolos, que vale lembrar, teve o show cancelado — tocando nos cinco dias do festival, que está em sua segunda edição.
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Na veia pop rock da Invena. Por Leo Cima.


Um momento de virada e transição para uma banda pode ocorrer durante muito tempo. Em alguns casos isso acontece rápido, porém, na maioria das vezes, é longo o caminho para que se passe esse período. É até necessário! Se adaptar e amadurecer novas ideias e som demandam uma certa atenção e dedicação, e toda e qualquer contribuição para tal pode agregar mais valor a esse esforço.

Assim aconteceu com a Invena, banda soteropolitana na ativa desde a primeira década dos anos 2000 e que caminhou pela trilha da adaptação para chegar até a sua sonoridade pop rock atual. A sua recente e mais drástica mudança foi a reposição de um vocal feminino no lugar de um vocal masculino à frente da banda, antes, o giro constante de integrantes que passaram pelo grupo também deixou a sua marca. Da formação original apenas o guitarrista, guru e mago das composições pegajosas do rock baiano, Pedro Jorge Oiticica, permanece no conjunto. Com ele, o baterista Adamis Ribeiro, o guitarrista Tom Souza, a vocalista Suzi Almeida e o baixista Cesar Lima formam o quinteto que faz em seu som um rock de alto potencial radiofônico e de diversas influências roqueiras.

Com composições que transitam entre o power pop bubble gun expressivo e o peso de guitarras de bandas independentes dos anos 1990, a Invena pode agradar os ouvidos daqueles que gostam de delicadeza e ataque. O hard rock também se faz presente em meio as suas referências musicais e bons solos de guitarra não ficam para trás. Para quem aprecia The Cardigans, The Cranberries, Mutantes, AC/DC, Nirvana e tudo o que segue esses nomes, a Invena pode chegar de maneira forte no gosto do ouvinte. Os shows demonstram bastante o caráter disciplinado dos componentes do conjunto quanto ao seu compromisso com a música, neles possuem um mistura de covers e sons autorais em seu repertório e cada vez mais essas últimas têm ganhado mais espaço no seu set list.

A banda se prepara para lançar o Dom Quixote Urbano na Contramão, seu novo disco, já no final desse mês de julho, no The Other Place, em Brotas, e conta com oito composições próprias. Duas delas são inéditas e as demais são releituras de faixas já investidas pela sua formação anterior. O disco levou um ano e meio entre o término de sua produção e o seu lançamento, mais um reflexo da transição vivida pelo grupo, e o resultado ficou acima da média. No início do ano, o conjunto disponibilizou na web a inédita A Lacuna, single cheio de punch, direto e reto, que aqueceu e anunciou a chegada desse seu mais recente trabalho.


Certamente, todo o esforço e energia voltados para lidar com mudanças se fazem bastante válidos e benéficos quando há uma intensão em comum em se divertir fazendo música. Pode não ser uma das coisas mais fáceis, mas vale a pena demais.
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Sunday Rock III. Por Artur W (vocalista e guitarrista da Organoclorados).


"Sonho que se sonha junto é realidade" (Raul Seixas).

O Projeto Sunday Rock retornou ao Foyer do Centro de Cultura de Alagoinhas, no último domingo (06/08/2017) das 13h às 18h, depois de ter visitado o It’s Not Pub em Catu no mês de maio. Novamente, a produção ficou a cargo da banda Organoclorados, com o apoio de Daniel Barbosa (Universo Variante) e Marcílio Lucena (produtor da Eva Karize). Como de costume, cenário, estrutura de palco e som, cantina e bar, tudo montado e elaborado com recursos próprios (financeiros, materiais, logísticos, humanos, artísticos e intelectuais) e o auxílio de amigos.

Para esta terceira edição, o projeto foi selecionado entre vários postulantes na convocatória do Ocupe seu Espaço, oportunidade da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, o que trouxe algumas vantagens do ponto de vista organizacional. Além do espaço em si, o Centro de Cultura disponibilizou equipe de apoio (portaria, vigilância, limpeza), estacionamento e equipamentos de iluminação de palco. O Sunday Rock III demonstrou que músicos independentes reunidos e organizados podem acessar espaços e realizar eventos por conta própria de forma profissional e com alto nível de qualidade.

E para nossa satisfação, o que vimos neste domingo foi um Sunday Rock III firme em sua proposta franca de ocupação de um espaço-tempo alternativo para combater a monotonia das tardes de domingo.

Diferente de uma mera mistura de ritmos e tribos, o evento proporciona um verdadeiro congraçamento entre música, expressões artísticas diversas e atividades lúdicas. Nada melhor do que esse ambiente ao mesmo tempo divertido e criativo para o encontro de amigos, artistas, mobilizadores culturais independentes e o público em geral.

A presença marcante de crianças, famílias e diferentes gerações deu um toque especial a esta tarde de domingo. Afinal, o dia e o horário favorecem, sem mencionar o fato da cama elástica montada na área externa, numa tarde ensolarada e de temperatura amena, além das pipocas, doces e lanches deliciosos disponíveis na cantina.

O evento apresentou pinturas expostas à visitação e como grande atração a exposição de fotografias “O Jardim que Abriga o Mundo”, de Jamille Almeida. A cerveja artesanal produzida na cidade foi novamente um grande sucesso, desta vez com uma choperia montada na cantina.

Essa diversidade pareceu transformar o Sunday Rock III numa teia conectora de estímulos visuais, sabores, memórias que afloram, contato entre pessoas, entretenimento, dentre outros elementos, que surfam em todas as direções sobre ondas sonoras produzidas em tempo real.

Inteiramente divulgado apenas por redes sociais e na base do boca-a-boca, sem patrocínio ou divulgação em mídia convencional, o Sunday Rock III teve um público 50% superior à primeira edição realizada no mesmo local em março deste ano. As fotos disponíveis na página do evento demonstram a intensa movimentação: (www.facebook.com/events/292945927840034/).
E por falar em som, o show de abertura da Eva Karize (www.facebook.com/evakarize.mirandaevangelista) encantou o público que começou a se aglomerar no salão em frente ao palco logo cedo, com seu reggae roots de qualidade. Uma intervenção especial do rapper MC Léo sobre a sonoridade jamaicana foi um dos pontos altos da apresentação.
A Organoclorados (www.facebook.com/organorocks/) desfilou um repertório enérgico e carregado de guitarras, pitadas de psicodelia e emoções à flor da pele. Destaque para as músicas autorais Segunda-feira ressaqueada 2015 e O Zênite e o Nadir, o retorno de Outono Eterno ao repertório, com a participação especial de Gené (Eva Karize) no saxofone, além é claro da queridinha do público Até o Sol. Terreno mais do que preparado para a banda convidada, Os Jonsóns (www.facebook.com/osjonsons), apresentar ao público de Alagoinhas sua performance de palco especial e suas músicas temperadas de ska e surf rock, em arranjos criativos e dançantes.
Para          fechar           a          programação,           a           Universo         Variante (www.facebook.com/UniversoVariante/) soltou sua Super-mulher, música das mais conhecidas na cena local e seguiu nessa esteira dançante, a exemplo de Um prego na parede e outras autorais. Ainda teve a participação da percussionista Suzanna (Eva Karize) na interpretação de Sympathy for the Devil (Rolling Stones) e a reunião com Os Jonsóns para cantar Psycho Killer (Talking Heads), todos no mesmo palco.

O Sunday Rock III terminou em clima de confraternização também entre os músicos e o público, que foram chamados por Artur W (Organoclorados) para subir ao palco e registrar o momento nas fotos que certamente já estão circulando na internet. Sensação de missão cumprida, o que vimos ao final foram rostos satisfeitos com o resultado, abraços, apertos de mão e público que ainda permaneceu por algum tempo no Centro de Cultura, curtindo o ambiente. Enquanto isso, desmontagem de palco, cenário, som, iluminação e cantina, fechamento e prestação de contas, transporte... mas aí já é outra história. Um dia eu conto 
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