• Soterorock Sessions 2017

    Muitas experiências foram adquiridas nas sessões feitas pelo soterorock em 2016, quando lançamos o Soterorock Sessions. em 2017 prometemos continuar promovendo esse encontro de bandas. Aguardem!

  • Programa Rota Alternativa na Mutante

    Promover debates e entrevistas sempre com um convidado da cena de rock da Bahia. Uma mesa redonda democrática onde se pode falar dos rumos do rock baiano. Agora na Mutante radio aos domingos.

  • Web Rádio ao Vivo!

    Sob o comando de Kall Moraes com mais de 20 anos de experiência em rádios da Bahia. Os programas voltam com força em 2017.

  • 10 anos de Soterorock!

    Foram mais de 50 programas gravados e mais de 300 resenhas realizadas por nossa equipe. Hoje depois de muitos colaboradores que fizeram parte deste projeto, completamos dez anos nesta jornada Rocker. Léo Cima, Kall Moraes e Sérgio Moraes voltam com o programa Rota Alternativa em 2017 trazendo novidades.

  • Programa GOROCK na Mutante Radio

    O que você gosta de ouvir? Léo cima apresenta o GOROCK aos domingos as 13hs na Mutante Radio sempre trazendo um garimpo do rock mundial.

Na veia pop rock da Invena. Por Leo Cima.


Um momento de virada e transição para uma banda pode ocorrer durante muito tempo. Em alguns casos isso acontece rápido, porém, na maioria das vezes, é longo o caminho para que se passe esse período. É até necessário! Se adaptar e amadurecer novas ideias e som demandam uma certa atenção e dedicação, e toda e qualquer contribuição para tal pode agregar mais valor a esse esforço.

Assim aconteceu com a Invena, banda soteropolitana na ativa desde a primeira década dos anos 2000 e que caminhou pela trilha da adaptação para chegar até a sua sonoridade pop rock atual. A sua recente e mais drástica mudança foi a reposição de um vocal feminino no lugar de um vocal masculino à frente da banda, antes, o giro constante de integrantes que passaram pelo grupo também deixou a sua marca. Da formação original apenas o guitarrista, guru e mago das composições pegajosas do rock baiano, Pedro Jorge Oiticica, permanece no conjunto. Com ele, o baterista Adamis Ribeiro, o guitarrista Tom Souza, a vocalista Suzi Almeida e o baixista Cesar Lima formam o quinteto que faz em seu som um rock de alto potencial radiofônico e de diversas influências roqueiras.

Com composições que transitam entre o power pop bubble gun expressivo e o peso de guitarras de bandas independentes dos anos 1990, a Invena pode agradar os ouvidos daqueles que gostam de delicadeza e ataque. O hard rock também se faz presente em meio as suas referências musicais e bons solos de guitarra não ficam para trás. Para quem aprecia The Cardigans, The Cranberries, Mutantes, AC/DC, Nirvana e tudo o que segue esses nomes, a Invena pode chegar de maneira forte no gosto do ouvinte. Os shows demonstram bastante o caráter disciplinado dos componentes do conjunto quanto ao seu compromisso com a música, neles possuem um mistura de covers e sons autorais em seu repertório e cada vez mais essas últimas têm ganhado mais espaço no seu set list.

A banda se prepara para lançar o Dom Quixote Urbano na Contramão, seu novo disco, já no final desse mês de julho, no The Other Place, em Brotas, e conta com oito composições próprias. Duas delas são inéditas e as demais são releituras de faixas já investidas pela sua formação anterior. O disco levou um ano e meio entre o término de sua produção e o seu lançamento, mais um reflexo da transição vivida pelo grupo, e o resultado ficou acima da média. No início do ano, o conjunto disponibilizou na web a inédita A Lacuna, single cheio de punch, direto e reto, que aqueceu e anunciou a chegada desse seu mais recente trabalho.


Certamente, todo o esforço e energia voltados para lidar com mudanças se fazem bastante válidos e benéficos quando há uma intensão em comum em se divertir fazendo música. Pode não ser uma das coisas mais fáceis, mas vale a pena demais.
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Sunday Rock III. Por Artur W (vocalista e guitarrista da Organoclorados).


"Sonho que se sonha junto é realidade" (Raul Seixas).

O Projeto Sunday Rock retornou ao Foyer do Centro de Cultura de Alagoinhas, no último domingo (06/08/2017) das 13h às 18h, depois de ter visitado o It’s Not Pub em Catu no mês de maio. Novamente, a produção ficou a cargo da banda Organoclorados, com o apoio de Daniel Barbosa (Universo Variante) e Marcílio Lucena (produtor da Eva Karize). Como de costume, cenário, estrutura de palco e som, cantina e bar, tudo montado e elaborado com recursos próprios (financeiros, materiais, logísticos, humanos, artísticos e intelectuais) e o auxílio de amigos.

Para esta terceira edição, o projeto foi selecionado entre vários postulantes na convocatória do Ocupe seu Espaço, oportunidade da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, o que trouxe algumas vantagens do ponto de vista organizacional. Além do espaço em si, o Centro de Cultura disponibilizou equipe de apoio (portaria, vigilância, limpeza), estacionamento e equipamentos de iluminação de palco. O Sunday Rock III demonstrou que músicos independentes reunidos e organizados podem acessar espaços e realizar eventos por conta própria de forma profissional e com alto nível de qualidade.

E para nossa satisfação, o que vimos neste domingo foi um Sunday Rock III firme em sua proposta franca de ocupação de um espaço-tempo alternativo para combater a monotonia das tardes de domingo.

Diferente de uma mera mistura de ritmos e tribos, o evento proporciona um verdadeiro congraçamento entre música, expressões artísticas diversas e atividades lúdicas. Nada melhor do que esse ambiente ao mesmo tempo divertido e criativo para o encontro de amigos, artistas, mobilizadores culturais independentes e o público em geral.

A presença marcante de crianças, famílias e diferentes gerações deu um toque especial a esta tarde de domingo. Afinal, o dia e o horário favorecem, sem mencionar o fato da cama elástica montada na área externa, numa tarde ensolarada e de temperatura amena, além das pipocas, doces e lanches deliciosos disponíveis na cantina.

O evento apresentou pinturas expostas à visitação e como grande atração a exposição de fotografias “O Jardim que Abriga o Mundo”, de Jamille Almeida. A cerveja artesanal produzida na cidade foi novamente um grande sucesso, desta vez com uma choperia montada na cantina.

Essa diversidade pareceu transformar o Sunday Rock III numa teia conectora de estímulos visuais, sabores, memórias que afloram, contato entre pessoas, entretenimento, dentre outros elementos, que surfam em todas as direções sobre ondas sonoras produzidas em tempo real.

Inteiramente divulgado apenas por redes sociais e na base do boca-a-boca, sem patrocínio ou divulgação em mídia convencional, o Sunday Rock III teve um público 50% superior à primeira edição realizada no mesmo local em março deste ano. As fotos disponíveis na página do evento demonstram a intensa movimentação: (www.facebook.com/events/292945927840034/).
E por falar em som, o show de abertura da Eva Karize (www.facebook.com/evakarize.mirandaevangelista) encantou o público que começou a se aglomerar no salão em frente ao palco logo cedo, com seu reggae roots de qualidade. Uma intervenção especial do rapper MC Léo sobre a sonoridade jamaicana foi um dos pontos altos da apresentação.
A Organoclorados (www.facebook.com/organorocks/) desfilou um repertório enérgico e carregado de guitarras, pitadas de psicodelia e emoções à flor da pele. Destaque para as músicas autorais Segunda-feira ressaqueada 2015 e O Zênite e o Nadir, o retorno de Outono Eterno ao repertório, com a participação especial de Gené (Eva Karize) no saxofone, além é claro da queridinha do público Até o Sol. Terreno mais do que preparado para a banda convidada, Os Jonsóns (www.facebook.com/osjonsons), apresentar ao público de Alagoinhas sua performance de palco especial e suas músicas temperadas de ska e surf rock, em arranjos criativos e dançantes.
Para          fechar           a          programação,           a           Universo         Variante (www.facebook.com/UniversoVariante/) soltou sua Super-mulher, música das mais conhecidas na cena local e seguiu nessa esteira dançante, a exemplo de Um prego na parede e outras autorais. Ainda teve a participação da percussionista Suzanna (Eva Karize) na interpretação de Sympathy for the Devil (Rolling Stones) e a reunião com Os Jonsóns para cantar Psycho Killer (Talking Heads), todos no mesmo palco.

O Sunday Rock III terminou em clima de confraternização também entre os músicos e o público, que foram chamados por Artur W (Organoclorados) para subir ao palco e registrar o momento nas fotos que certamente já estão circulando na internet. Sensação de missão cumprida, o que vimos ao final foram rostos satisfeitos com o resultado, abraços, apertos de mão e público que ainda permaneceu por algum tempo no Centro de Cultura, curtindo o ambiente. Enquanto isso, desmontagem de palco, cenário, som, iluminação e cantina, fechamento e prestação de contas, transporte... mas aí já é outra história. Um dia eu conto 
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In the flesh. Por Leo Cima.


Sábado passado foi mais um dia para acontecer inúmeros eventos de rock na capital baiana e no interior, e o Portal Soterorock foi até a rua para conferir o show de lançamento do novo disco da banda Invena, o Dom Quixote Urbano na Contramão. A expectativa era grande para a noite, onde o pop rock e o noise grungenesco se encontrariam no mesmo palco para atender os anseios do bom público que compareceu ao The Other Place, em Brotas.

Mais uma vez, o tempo estava irregular e a chuva ameaçava cair forte antes do evento se iniciar. Porém, só o vento frio se fez presente e as pessoas chegavam com descontração, instalando um bom clima de festa no lugar. E era uma noite de comemoração e novidades, de fato! Além da banda anfitriã lançar seu novíssimo trabalho, a Game Over Riverside, embalada com a proximidade do seu novo EP, aproveitou a ocasião e inseriu música nova no repertório. Quem estava lá para ver as duas bandas foi presenteado com boas novas em um momento do cenário local no qual os grupos daqui têm disponibilizado ótimas composições para ouvintes interessados. Cerveja gelada, rockão no bar, banquinha de livros, cds e material das bandas, conversas das mais diversas, risadas e mais cervejas geladas preencheram o ambiente de maneira especial.

Quem primeiro subiu ao palco para abrir as atividades foi o quinteto G.O.R., que fez uma discreta mudança no seu repertório minutos antes de começar a tocar. Why We Don’t Kill Our Pets caiu como uma luva para começar a noite, e para a própria banda, que vinha de um período longo de gravação do seu novo disco e retorna às atividades ao vivo aos poucos com mais frequência. O clima mais psicodélico da abertura aqueceu os rapazes para a sequencia mais direta, como a rápida Radio No Jinkan e a nova Me and My Band, um punk shoegazer gaulês que versa sobre como é ser latino americano e ter uma banda de rock, e que será o novo single do grupo. A performance foi ficando mais agitada ainda ao longo do seu andamento, com o conjunto mostrando bom entrosamento, e o ótimo uso das suas três guitarras, uma marca forte em sua música. Ao fim, o grupo atendeu aos pedidos da audiência e encerrou a apresentação com Little Marchioness, sempre veloz e carregada com um bom punch. A coisa foi quente!

Depois, foi a vez da Invena ir ao tablado e mostrar o seu repertório fincado no seu novo trabalho. Tendo passado por um processo de mudanças em sua formação, esse disco e esse show, especificamente, definem de uma vez por todas a identidade musical do grupo, atestando também sua qualidade decorrente de um pouco mais de um ano e meio de trabalho com os atuais integrantes. O resultado é notado no seu repertório, possuindo mais músicas autorais do que covers, se tornando mais interessante e utilizando as suas próprias versões de músicas de outros artistas ao seu favor. Foi assim em Ando Meio Desligado, mas os momentos mais notórios ficaram por conta de A Lacuna, single lançado pelo grupo no início do ano e que funcionou muito bem ao vivo, Outono, composição repaginada que entrou exclusivamente para o repertório deste show e Um Instante no Paraíso, música inclusa no Dom Quixote Urbano na Contramão que surgiu empolgada em meio as demais. A apresentação ainda contou com a participação especial do Eduardo Scott, ex vocalista das bandas Gonorreia e Camisa de Vênus, cantando duas canções desta última. Foi diversão de primeira!


Ao final, a chuva já castigava a cidade de Salvador e o frio estava mais congelante do que antes. As bandas tiveram uma boa resposta calorosa do público, que voltou para casa cheio de boa música. Ainda houve espaço para mais brejas geladas e papos sobre bons causos musicais, que se estenderam até a cozinha de minha casa.







































































































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Entrevista com Irmão Carlos e Wado. Por Leandro Pessoa.*


No próximo sábado, 29, os cantores e compositores Wado e Irmão Carlos se apresentam juntos em Salvador, no Irish Pub, pelo projeto NHL Apresenta. Este encontro musical, em sua terceira ocorrência, consolida a parceria entre dois artistas que guardam identificações e admirações mútuas. Celebrando 16 anos de carreira, o alagoano Wado apresenta pela primeira vez na cidade o show do disco Ivete – indicado como melhor álbum de 2016 pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Já o baiano Irmão Carlos pisa firme no salão com o show do seu primeiro trabalho solo que vem movimentando a cena musical da capital baiana através do projeto Incubadora Sonora. Um pouco mais sobre o que eles prepararam para esta noite você confere no papo que tiveram com o Leandro Pessoa, em entrevista originalmente publicada no site Som do Som:

Leandro Pessoa - Wado e Irmão Carlos juntos pela terceira vez em Salvador. Como foi que surgiu essa parceria?

Irmão Carlos - Acompanho o trabalho de Wado há tempos. Acho sensacional a forma como ele compõe. Nosso primeiro show juntos foi nesse mesmo Pub. Daí no ano passado convidei ele pra Salvador pra dividir o palco comigo no projeto “Lá em Dona Neza” - ele topou e celebramos. A banda de apoio dele nesse dia foi a minha própria banda que tirou o repertório e tudo aconteceu. Foi uma noite massa, até cantamos juntos “Têta”.

Wado - O Carlos me deu essa oportunidade de tocar lá no Dona Neuza. Foi uma experiência linda ver a cidade a partir da comunidade. Carlos é velho parceiro, guerreiro de muito talento e carisma - temos uma admiração mútua. Sábado vamos celebrar essa amizade e vou levar meu disco novo, Ivete, a Salvador. Esse disco é uma declaração de amor a música da Bahia. Vamos fazer um show bem sacudido.

LP - Wado, qual a primeira recordação que tu tem da sua relação com a música baiana? Como que é pra você compor dentro dessa linguagem?

W - Eu ouvia muita música baiana, pois tocava direto no rádio aqui em Maceió. Curti muito os axés dos primórdios, os de oitenta que eram políticos, de afirmação negra, de celebração e também de denúncia. Meu primeiro sarro com uma mulher foi dançando Axé. Tenho uma memória afetiva grande com ele. Aprecio as temáticas do nordeste da África, do Egito e cercanias. Essa memória passei a expressar nas canções, começou lá no Atlântico Negro e cristalizou agora com o Ivete. Não tinha como não levar esse show pra Salvador.

LP - E tu Irmão? Tu viveu esse período de formação da indústria musical baiana. Onde que você estava?

IC - Lembro que quando era pivete eu e minha turma fazíamos batuque no fundo do buzu. Assim eram as crianças da periferia nessa época: cantávamos Muzenza, Olodum, Edson Gomes, Gerônimo, Lazzo e, no meu caso, já misturava com umas dos Titãs, Cólera e Garotos Podres na batida do samba reggae (risos). As letras tinham cunho histórico/político e muitas falavam de revolta e revolução. A identidade negra era muito bem afirmada nas canções. Paralelo a essa turma, a coisa ia aos poucos ficando mais pop, mas ainda sim, genuinamente baiana. As letras já não eram tão políticas, mas representavam a Bahia. Com a chegada das gravadoras gringas no Brasil, a coisa se fechou e foi ficando cada vez mais plastificada e descartável. Um jornalista, um tal de Hagamenom Brito, usou o termo Axé music, em tom de ironia, e pegou igual a apelido. Tem gente que diz que isso tem 30 anos. Eu digo que tem 25. Os 5 primeiros ainda eram genuínos e tinham essência.

LP - Irmão, em seu primeiro disco solo me chama atenção a presença de canções que tratam de questões pessoais. No palco você se vê nu, assim como na capa?

IC - Expor minha própria vivência foi o modo que encontrei para resolver meus problemas comigo mermo, ainda que de forma irônica. A música acaba funcionando como terapia também. Quando solto pro mundo minhas inquietações, me sinto mais tranquilo.  Na real acho que isso acontece em todo o disco. “Engrenagem da Ilusão” é uma que não falo diretamente de mim, embora use o “Eu”, mas no fim é uma visão geral, na qual eu também faço parte.No palco a sensação é sempre de desabafo.  É como a fé! Removendo a montanha que a gente carrega.


*Leandro Pessoa é compositor, cantor e jornalista. Além de ser o frontman da banda Callangazzo, também colabora para o Som do Som e escreve para o seu próprio site, o Single do Dia. Esta matéria foi originalmente publicada no site Som do Som.
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Lançamento duplo e um calcanhar dolorido. Por Leo Cima.


Como já é sabido de muita gente, a atividade do rock aqui na Bahia começa no início da semana, logo na terça feira, com o evento “Quanto Vale o Show?”. Se você gosta de rock e não sabia desse fato, provavelmente há algo de estranho em ti, ou precisa estar mais atento(a) a agenda local. Há quase três anos, o som periódico tem sido a morada de apresentações de artistas novos e veteranos, e também de ocasiões especiais, como a que aconteceu no último dia 18/07/2017. A Surrmenage e a Jato Invisível, duas das mais interessantíssimas bandas locais, lançaram seus novos trabalhos na praça.

O início da noite carregava o tempo irregular de Salvador por esses dias, com uma chuva que resolve cair do nada e que atrasa o lado de quem está para sair. Além disso, o meu calcanhar esquerdo machucado atrapalhava a caminhada apressada da minha casa até o ponto de ônibus, o aplicativo indicava que a condução estava a cinco minutos dali e o esforço extra fez aumentar a dor. Cheguei a pensar que era a idade pesando, não pelo incomodo, mas por não me lembrar de exatamente como me machuquei.

Enfim, sair e chegar até o local era preciso para ver os amigos, bater um bom papo e ver ótimas apresentações de rock. A tranquilidade do inicio de semana no Rio Vermelho é de um contraste imenso em relação ao seu final de semana, porém, a cada vez que ia chegando mais gente para prestigiar o som daquela noite, mais movimentada ficava a casa da festa. Deu um número bom de pessoas e uma verdadeira confraternização aconteceu antes e entre as performances dos grupos. Sempre há espaço para bons papos sobre livros, shows, ótimas lojas de discos que existiram e resistem, e de como o valor desse item tem estado caro demais em tempos de crise.

Antes das nove horas da noite, a primeira a se apresentar foi a Surrmenage lançando o seu disco, Headphoning Life. Mesmo com uma história no cenário e retornando depois de um hiato, ainda não tinha visto ao vivo o trio antes. Eles fizeram valer esse retorno, com composições de influência setentista e noventista, as mostrando de maneira segura e entrosada. O bom humor do vocalista Arthur Caria foi uma presença extra que marcou muito bem o desenvolvimento do repertório da banda, que possui a maioria de suas letras cantadas em inglês (o que, para mim, é bem interessante) e uma execução que a credenciaria facilmente a condição de rock de arena. Com um som bem preenchido, as bases impressionantes de baixo abraçaram bem as ótimas viradas de bateria e os marcantes riffs de guitarra, onde o destaque foi a canção Someday. Foi um lançamento de cd bastante marcante e de boa receptividade da audiência!

Depois, a Jato Invisível subiu ao palco para fechar a noite e lançar o seu mais novo EP, Veiculando Neuroses. Este disco é há muito tempo esperado pelos admiradores da banda, que cultivou uma expectativa grande pela sua chegada desde que a sua produção foi anunciada. Os próprios integrantes esperaram bastante por esse dia e isso trouxe uma excelente e diferenciada atmosfera para essa apresentação, que também foi marcada por participações especiais. A JI já vinha tocando este seu novo repertório em seus shows e isso amadureceu, e muito, as suas antigas e novas composições, que chegaram até aqui bem fixada na cabeça de que os acompanha. Já nas três primeiras canções do seu setlist o filho da Silvana Costa (vocal) e do Alex Costa (baixo), Mateus Costa, acompanhou o grupo na guitarra base, desempenhando muito bem a função e me levando a crer que o conjunto pode gerar novas possibilidades musicais com mais um integrante. O poeta Sandro Ornellas se juntou à banda para realizar ao vivo a sua contribuição na música Esperar Sentado (alguma coisa) e o cantor e compositor Álison Lima subiu ao tablado para dividir os vocais no cover de Me Perco Nesse Tempo, das Mercenárias. Remédio, como sempre, empolgou bastante. Foi uma apresentação de boas energias e daquela boa sensação (que vai ficar por um bom tempo na memória) de enfim ter lançado mais um trabalho.

No final de tudo, o meu calcanhar não estava mais tão dolorido, a chuva tinha voltado com mais força e o rapaz do UBER resolveu se perder no Rio Vermelho (acredite!), levando quase dez minutos para chegar. Mas quando a música alimenta os ânimos fica difícil algo se estragar!
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Salvador derrete quando chove! Por Leo Cima.


Neste primeiro sábado de maio, aqui em Salvador, choveu demais, fez um frio daqueles e faltou luz duas vezes no bairro onde moro, uma vez durante a tarde e outra pela noite. Energia elétrica zero em pelo menos metade da cidade baixa por um bom tempo. Isso me ocorreu em mente se era um empecilho para sair de casa, diante da possibilidade disso ocorrer novamente estando na rua, pois todo cuidado é pouco e essas coisas quando acontece quando se está por aí é uma dor de cabeça das boas. Das piores, digo!

Mas mesmo assim, peguei a minha camisa de flanela e saí. O destino foi o Portela Café para conferir a primeira noite de shows do projeto Incubadora Sonora, contendo as apresentações de duas das nove bandas selecionadas pela sua curadoria, e também do anfitrião Irmão Carlos. Havia algum tempo que eu não dava as caras para ver as bandas locais, mais de um mês, quase dois, acho, e essa seria uma boa oportunidade para não deixar passar. Para além de assistir os grupos, rever as pessoas, inclusive algumas que já não via ao menos há um ano e meio juntas no mesmo lugar, e trocar um bom papo com elas fez parte do todo. O público não compareceu em grande número, mesmo com uma forte divulgação do evento e com o valor do ingresso quase que “simbólico” (apenas R$5,00), porém, quem foi se mostrou curioso e atento ao que estava acontecendo no palco.

Eu ainda estava no bar comprando mais uma cerveja quando a Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes abriu os trabalhos. Eles começaram com um mantra antes do seu primeiro acorde e isso sinalizava algo diferente em seu show. Os acompanho há um bom tempo, conheço o seu repertório de trás para frente e é uma das melhores bandas locais, mas, sinceramente, já estava mais do que na hora deles inserirem novas canções em sua apresentação. Tudo foi executado de maneira mais madura pelo duo, desde as duas composições escolhidas para entrar na coletânea do projeto até Mulher Kriptonita, ponto forte do seu EP de estreia, mas as três inéditas chamaram bastante a atenção. Búfalo Soul é um épico fincado na identidade da banda e com influência forte de Black Sabbath, Levante, que foi a mais bem recepcionada, tem um perfil mais psicodélico e Madame Sophie mesclou o seu peso com momentos mais leves. Agradou muito a quem conhecia e a quem não conhecia o seu som.

Depois deles, o cantor e compositor Irmão Carlos subiu ao palco para tocar as canções do seu primeiro disco solo. Pelo fato dele estar desde o início do ano atuando de maneira efetiva com esse seu show, se percebe uma grande segurança nas músicas em ação e no domínio do palco por parte de todos da banda. A própria experiência musical de cada um deles na cena, ajuda a explicar esses fatos! Do início ao fim, o Irmão Carlos não perdeu a empolgação, se entregou totalmente ao feeling das suas composições em uma performance incansável, como se tivesse entrado em um ringue e lutado todos os rounds para os quais ele se preparou para lutar. Seu Lugar ao vivo parece ser bem mais forte do que é em cd, com seu groove na medida certa, e Um Microponto de Luz faz jus à sua mensagem. Encerrando a noite, o grupo de rap Fraternidade Maus Elementos fez o seu som direto e reto, com rimas que abordam o cotidiano da realidade da nossa cidade. Ficou evidente em sua performance que o conjunto estava se divertindo no palco, com os MCs se reversando nas suas rimas e com o DJ se concentrando e aproveitando o momento em cima do tablado. Um ou outro desencontro na sequência das músicas ocorreu, mas isso significou nada diante da sua mensagem e do seu desempenho em músicas como Babylon.


Na volta para casa, descendo para a cidade baixa e com o A-há no som, pensei comigo: “Salvador é Kingston”. Kingston com várias Trenchtowns, que derrete quando chove e ainda muito mal cuidada em vários dos seus cantos. De qualquer maneira, a essa altura já me esquecera da ameaça de falta de energia elétrica e pensar que iniciativas como a da Incubadora Sonora são importantes para o fomento do cenário independente ocupou mais a minha cabeça.
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Série “4 Discos de Rock Baiano”: Roll Up Your Sleeves and Help Us Reach Up This Honker World, Generation Dreams, h… stereo… e Aleluia.


Nesta quinta postagem da nossa série de discos feitos por artistas e bandas da Bahia, bastante obra importante chega para ganhar destaque aqui no Portal Soterorock. Nesse momento, as gerações diferentes dos grupos e a persistência louvável de ambos é a grande interseção entre eles. O rock de garagem, o britpop, o gótico/industrial tocado de maneira peculiar e a diversidade musical, marcam os sons da The Honkers, Teenage Buzz, Modus Operandi e Cascadura.

Roll Up Your Sleeves and Help Us Reach Up This Honker World – The Honkers

Esse terceiro trabalho da banda The Honkers é um verdadeiro registro fonográfico do ápice de um período da cena roqueira daqui da Bahia. Lançado em 2007, o disco traz canções que há tempos vinham sendo tocadas em seus inúmeros shows pela Bahia, restante do Brasil e em alguns países da América Latina de maneira empolgante, veloz e efervescente. E aqui, essa vibração que chega a beirar a pureza do rock’n roll, aproveitou o embalo de todos esses fatos e ganhou a sua gravação. Mantendo a linguagem do seu antecessor autoral, o disco traz temas do melhor do rock garageiro, mas flertando muito bem com o psicodelismo, um pouco mais com o punk rock e com o pop também. A diversão é garantida!  É difícil escolher somente duas, mas aqui vão: Devil Girl e Let me Feel the Sun.


Generation Dreams – Teenage buzz

Em seu segundo disco, a Teenage Buzz mostrou um amadurecimento significativo em suas composições. Generation Dreams (2015) é um bom e agradável resultado de influências britpop noventista com o rock pop e de garagem dos anos sessenta. Com uma sonoridade moderna, o grupo não soa como um conjunto de new rock e ganha muito em personalidade, com o seu perfil acessível de suas músicas. Os bons timbres das guitarras, ótimas estruturas vocais, uso de instrumentos como acordeão, gaita e percussão dão mais brilho as faixas do seu disco. Uma boa linguagem britânica para o rock local. Escute Melancholic Drugs e Blinding Light.


h... estereo... – Modus Operandi

Na sua estréia em disco, o quarteto soteropolitano Modus Operandi, deu à luz a sua música singular feita de maneira incomum, desprendida dos formatos convencionais do rock. Todo o caos e o turbilhão musical do grupo, que expressa bem a espiral frenética da nossa capital e das demais metrópoles, foram gravados nesta obra celebrada dentro e fora do Brasil. Utilizando furadeira, pedaços de metais e materiais reciclados no lugar da guitarra, sintetizador, baixo e bateria, a banda processou ao seu jeito o som gótico, o sinth pop e o rock industrial, com um texto existencialista e em alguns momentos surreais. O h... estereo... (2008) é tão interessante e corajoso, que já existe um tributo a ele. Destaques para Vazios de Palavras e Instintos e Canção de ninar.


Aleluia – Cascadura

Em 2012, o Cascadura lançou o seu último trabalho, Aleluia, um épico duplo recheado de ótimas composições e de uma bagagem cheia de experiências musicais acumulada pelos seus integrantes. Em uma homenagem a cidade de Salvador, o disco traz uma grande diversidade de influências, como o passeio pelas linguagens do rock que o grupo experimentou em sua carreira (do clássico ao moderno), o samba reggae, o jazz, ritmos regionais baianos, o som da motown, percussões candomblecistas, sopros e tudo o mais o que um ouvido bem atento pode captar. O cd também tem diversas participações especiais interessantes, que surgem ao longo da obra e que a enriquece mais ainda. Um trabalho cuidadoso, que vai se manter relevante por longos anos! Destaques para Colombo e Cantem Aleluia.



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BVEAODE, Maus Elementos e Irmão Carlos se apresentam no primeiro show da 3ª edição do projeto Incubadora Sonora. Por Leo Cima.


A cena está em movimento! Neste próximo sábado, dia 27/05, os grupos e artistas, Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes, Maus Elementos e Irmão Carlos se apresentam no primeiro de uma série de shows proporcionado pelo projeto Incubadora Sonora e que mostra o seu perfil musicalmente diversificado. Será no Portela Café, Rio Vermelho, às 22:00 horas, com ingressos no valor de R$ 5,00.

Idealizado pelo compositor, cantor, produtor musical e agitador cultural Irmão Carlos e pelo coordenador do projeto, Lindomar Luís, a Incubadora Sonora surgiu do intuído de ambos de capacitar a cena musical independente daqui da capital e região metropolitana em suas investidas, fazendo grupos e artistas circularem de maneira mais notória possível pela cena. Em um estímulo ao empreendedorismo, criatividade e a profissionalização das nove bandas acolhidas pela curadoria do projeto, oficinas de cenografia, produção, gravação, fotografia, vídeo, comunicação e de redes colaborativas e o negócio da música foram realizadas ao longo de um mês e culminam na gravação de duas canções autorais de cada participante no Estúdio Caverna do Som a serem inseridas na coletânea Incubadora Sonora 2017, em um ensaio fotográfico e na apresentação do todos os artistas ao longo deste evento referido.

Para este início, os shows ficam por conta dos grupos selecionados do Território Cultural Cidade Baixa e Ilhas. Presença constante aqui no Portal Soterorock, o duo Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes faz um som com forte influência de rock clássico setentista e de stoner, trazendo riffs poderosos e viradas seguras de bateria, e versando o seu cotidiano cantado pela voz peculiar do seu baterista. A Maus Elementos levará ao palco do Portela Café o seu RAP de personalidade, com elementos do samba ao jazz, trazendo à tona o que acontece no dia a dia em nossa sociedade de maneira clara e direta. Também na festa, o Irmão Carlos apresenta o show cheio de balanço do seu recém lançado trabalho solo, que leva o seu próprio nome e que engloba em uma mesma esfera musical o soul, o punk, a black music e o rock.

Em tempo, estas são as demais bandas/artistas contempladas pelo projeto: Ojá, Coquetel Banda Larga, ExoEsqueleto, Neila Kadhí, Mc Dyou, Ana Luisa Barral e Zuhri73. Esta é uma boa oportunidade para saber o que acontece na cidade em termos de som no cenário independente daqui, em seus diversos gêneros musicais e conferir o trabalho autoral dos envolvidos. Tem muita coisa acontecendo, não vá querer ficar de fora. Para reforçar, segue novamente o serviço do evento!

3ª Edição do Projeto Incubadora Sonora
Shows: Irmão Carlos, Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes e Maus Elementos
Quando: 27/05/2017
Onde: Portela Café (Rua Itabuna, 304 – Rio Vermelho)

Quanto: R$5,00




























Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes. Foto: Denisse Salazar.

Maus Elementos. Foto: Denisse Salazar.













































Irmão Carlos. Foto: Ted Ferreira.
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Série “Mais uma Cara do Rock Baiano”: Augusto Kuarupp, vocalista da Órbita Móbile.


Mais uma nova entrevista da nossa série, que traz desta vez o frontman da banda de Paulo Afonso, Órbita Móbile. Aqui neste papo, o Augusto Kuarupp mostrou a grande quantidade de influências que o grupo traz consigo e que ajudaram a formar o conceito do seu álbum de estreia, Sonho Robô. A formação do conceito do EP e as plataformas onde ele é divulgado, as suas influências, a cena roqueira da região de origem do conjunto, formatos de música, quadrinhos, filmes, séries, livros e tecnologia foram tratados com profundidade nesta ocasião. É se ajeitar onde está e aproveitar a leitura!

SOTEROROCKPOLITANO - Augusto, gostaria de começar a nossa conversa falando um pouco sobre quadrinhos. Mesmo existindo tantas obras interessantes nesse universo e com tantos profissionais de outras áreas utilizando esse meio (o Chuck Palahniuk escreveu a sequência d’O Clube da Luta exclusivamente para HQ e o diretor Christopher Nolan autorizou um spin-off de Interestellar em quadrinhos), as graphic novels  ainda não são tão exploradas de acordo com o seu grande potencial. Como você enxerga esse fato do quadrinho ainda não ser amplamente utilizado e aproveitado?

Augusto Kuarupp - Boas menções as que fizeste, eu citaria ainda outras, como as HQs digitais produzidas para uma das minhas séries prediletas, que é Fringe; e ainda as que são feitas para Star Wars, dentre muitas. Em verdade, existe sim um mercado potencial para quadrinhos e esta é uma linguagem muito explorada para expandir universos ou dar conta de personagens que se destacam em determinados contextos narrativos como os que citamos, não fosse assim, essas franquias não utilizariam deste instrumento. Entretanto o que podemos observar é que essa nossa percepção geral de que as “graphic novels não são tão exploradas” se deve mais do nosso contato com o mercado brasileiro de quadrinhos, que importa mais do que produz localmente, e também tem por hábito distribuir HQs das grandes franquias internacionais. Esse é um problema que se vive no Brasil não só em relação às HQs, mas similarmente com o cinema também, que franqueia mais espaço para produções estrangeiras que nacionais. Por um lado, quando se privilegia produções estrangeiras, o mercado acaba forçando os roteiristas e desenhistas nacionais a uma situação marginal, que basicamente é a produção independente experimental - que vive as agruras da luta contra as grandes distribuidoras e produções milionárias - ou trabalhar sob encomenda para atender a interesses corporativos – e, neste último caso, termina cerceando a qualidade imaginativa e experimental da narrativa que se faz por aqui, quando para sobreviver você precisa fazer cartilha para ensinar pessoas a economizar energia, que é um objetivo nobre, mas limitante. Do outro lado tem o público, que foi formado por décadas pela Marvel e Dc Comics e produção japonesa com honrosas exceções ao Maurício de Souza – empresas que dominam o mercado editorial de quadrinho no Brasil e se articulam com produções em massa de animação para TV – e que, portanto, formaram leitores que costumam receber com estranheza qualquer produção que não tenha aquele grau de qualidade editorial ou lógica narrativa. Por fim, e falo do Brasil, de uma forma geral por aqui, se acha que o quadrinho é uma linguagem menor, mais para o entretenimento e menos para a arte, daí porque poucas ou quase nenhuma das nossas produções mais populares fazem interface com as graphic novels, por exemplo, houve boatos sobre uma versão de “Tropa de Elite” para quadrinhos – que aparentemente poderia ter sucesso – mas me parece que não passaram de boatos, por quê? Não tenho resposta, mas sei que esse foi um dos filmes nacionais de melhor retorno em bilheteria, então podemos supor que falta de recurso para tocar um projeto desses não era exatamente a questão.

SRP - Como surgiu a ideia de fazer uma história em quadrinhos inspirada no próprio disco e, principalmente, dela ser mais uma plataforma de distribuição e divulgação do Sonho Robô?

AK - Mencionamos acima algumas produções para cinema e TV de ficção científica que se utilizaram da linguagem em quadrinhos: Fringe, Interestellar, Star Wars, etc... e podemos citar os X-Men – pra ficar apenas num título de super-heróis que situam suas narrativas em realidades de ficção científica. Ocorre que, para um gênero como o sci-fi, o quadrinho termina sendo um importante aliado para dar materialidade a universos fantásticos imaginativos, porque no desenho, tudo cabe e você não precisa fazer um orçamento para montar um cenário futurista, basta desenhá-lo. Esses insights eu tive durante um curso de roteiro transmídia para quadrinho que eu tomei com o professor Marcelo Lima, embora já tivesse chegado com a inspiração prévia da HQ lançada pelo Gorillaz para o seu primeiro álbum, mas no curso aprendi que diferente do que fez a banda do Damon Albarn, eu poderia criar vínculos narrativos menos literais e lineares, e mais expansivos e orgânicos, que é a tal da transmidialidade. Então já mais à frente, após o curso, pensei em radicalizar o conceito de transmidialidade transformando o quadrinho como plataforma de acesso ao álbum “Sonho Robô”, algo como: se vamos tratar de ficção científica, vamos dar uma experiência tecnológica a quem for ler. Muito embora, eu tenho dito que é uma plataforma, mas eu prefiro pensar que o quadrinho é o próprio álbum, no sentido que não vejo mais muito sentido no CD ou até mesmo no vinil, que só me lembram que estou retendo carbono de origem não renovável na minha estante, peças de plástico que acondicionam a música de forma estática, e tudo isso por uma capa? Ou por algumas frequências a mais? A revolução do compartilhamento da música digital preconizada pelo Napster criou dobras culturais que não podem ser desdobradas, o “streaming” não é mais uma plataforma, é um comportamento. Neste sentido resolvi apostar no quadrinho por ser um mediador de todas essas coisas, feito de matéria prima de origem renovável, é uma obra que complementa narrativamente a obra musical, ao adquirir uma HQ, você leva duas obras com grande potencial de mobilidade e portabilidade, podendo alcançar também públicos mais diversos.

SRP - Se passaram dez anos entre o início das atividades da Órbita Móbile até o lançamento do seu primeiro trabalho. O quanto esse tempo foi importante para a concepção do EP e para a formação do perfil transmídia da obra?

AK - Bastante importante. Há dez anos eu tinha apenas uma ideia de aonde queria chegar, que basicamente era fazer um rock que misturasse música eletrônica e rítmica brasileira de forma original. Comuniquei isso a alguns parceiros músicos, mas o único que sobreviveu comigo a essa epopeia foi Igor, que é baterista da banda, em muito por grandes afinidades musicais, mas também conceituais – ele, como eu, é fã de ficção científica. Viemos então desbravando. Tivemos que aprender a usar softwares de produção eletrônica, e depois aprender como misturar isso com rock. Fomos para Salvador, eu em 2008 e ele em 2009, e enquanto eu me dediquei a pensar e me preparar artística e filosoficamente para construir os universos narrativos que imaginava – o curso de roteiros transmídia entra nesse bojo –, Igor foi cursar “composição e regência” na UFBA, o que nos deu suporte para pensar a música de forma mais sci-fi, a partir do ponto de vista de sua engenharia propriamente. Com o tempo, fui atualizando os conceitos, daí que saímos de “mistura musical” para “radicalização da abordagem híbrida” ou “hibridismo radical”; e unindo nossas áreas de conhecimento de forma conjunta, desenvolvemos uma metodologia composicional própria, que denominei de “método para expansão de linguagens híbridas e diversas”, e isso foi o que deu suporte para o nascimento de “Sonho Robô”. No nosso soundcloud, é possível ouvir uma versão de Rota do Tempo de uma demo nossa de 2010, e a atual para o zip álbum “Sonho Robô” – observar a diferença entre as versões diz muito do nosso processo de aprendizagem, sobretudo porque esta música foi a primeira composição do álbum, já em 2007, quando ainda não sabíamos que álbum estávamos produzindo.Hpaahhhhhhh

SRP - Sonho Robô tem uma atmosfera forte de futurismo sci-fi em sua música e em seu texto também. Nos fale sobre o conceito do EP, e quais as obras que incidiram com mais influência para a concretização do disco?

AK - Do ponto de vista conceitual narrativo, de fato estamos falando de Isaac Asimov, que é o ponto de partida para o gênero sci-fi quando falamos de robôs - mesmo que eu citasse obras do audiovisual que influenciaram nossa narrativa, como Battlestar Galactica, Blade Runner ou a animação Big Hero 6, seriam sempre influências subjacentes, visto que é a literatura de Asimov que subsidiou a maior parte de todas essas produções posteriores. Era sem dúvida um gênio, que como escritor – artista – chegou inclusive a criar leis fundamentais de robótica, que balizam ainda hoje pesquisas científicas neste campo. Em 2012, Rafa Dias, que trabalhou conosco alguns meses, me enviou uma base eletrônica que, por conta de umas texturas sonoras, o faziam lembrar-se de sons robóticos, e ele me mandou com uma sugestão de título: vida robô. Eu gostei da base e me pus a pesquisar logo sobre o que iria escrever nessa música, e de cara intuí o Asimov, algo como “robô=Asimov”. Então bati com um de seus livros de contos “Sonhos de Robô” e de pronto achei que falar de sonhos renderia mais subjetividade que falar da vida, porque deslocaria o som para um lugar mais etéreo que é o do sonho, em contraposição ao pragmatismo que é a vida. Mas não bastava copiar o Asimov, então, ao invés de falar de robôs que sonhavam, resolvi optar por uma narrativa que transformasse o próprio sonho em um robô, um algoritmo de inteligência artificial que simulasse sonhos e ativasse as sinapses cerebrais de uma humanidade que, num futuro distópico (futuro?), tendo perdido a capacidade de sonhar, precisou usar do expediente tecnológico para reprogramar o cérebro para esta habilidade esquecida. Esse é o arcabouço narrativo do zip álbum, mas, sonhar com o quê? Seria a pergunta subsequente. Então tentei discutir nas letras diversos aspectos da liberdade para me aproximar mais dos questionamentos filosóficos que embalam a literatura do Asimov, desde o paradoxo da liberdade na primeira faixa do disco: enquanto a liberdade for uma meta, apenas podemos fingir que somos livres; a questões de liberdade nas relações amorosas: liberdade de ir, liberdade de querer ficar. Do ponto de vista musical, de forma bem sucinta, posso dizer que encontramos suporte na obra do Radiohead e da Nação Zumbi, além das trilhas sonoras do cinema sci-fi.

SRP - É possível perceber várias influências no som da Órbita Móbile, mas o que você tem escutado ultimamente? O que tem mais lhe chamado a atenção na música?

AK - Olha... eu tenho uns dois tipos de audição. Um conjunto de bandas e artistas que eu sempre ouço e outra mais randômica. Sempre tenho na playlist Radiohead, Asian Dub Foudation, Nação Zumbi, Björk, UNKLE e sei lá... um monte de coisas. Mas ultimamente estou pesquisando discos que foram influenciados pelo maguebeat e que não foram rotulados como tal, e fui bater num disco da Rebeca Matta chamado “Garotas Boas Vão Pro Céu, Garotas Más Vão Pra Qualquer Lugar”, que me impressionou pela atualidade do som numa produção que é de 2000. Tenho escutado também de forma mais randômica os rappers, tem uns caras de um grupo chamado “Run The Jewels” que são fabulosos, e curti o último disco do Kendrick Lamar e do Drake. Semana passada comecei a ouvir o novo álbum do Kasabian, que é legal, gosto bastante do Kasabian. Viajei esses dias e voltei com um álbum do Fatboy Slim no celular, o “Halfway Between The Gutter And The Stars”, alguém me disse que concorreu nas paradas com um disco do Moby em algum momento, achei uma competição curiosa e baixei, é interessante. Assino uns canais de funk no Youtube e vez por outra escuto o que tá rolando, nem sempre é animador, mas às vezes me ocorrem uns insights. Escuto sempre muita música erudita também, sou fã de Philip Glass e posso passar um dia inteiro só ouvindo música cigana.

SRP - O disco foi seguido pela turnê Alembaía, que passou pelas cidades de Rodelas, Paulo Afonso, Abaré e Chorrochó. Este também é o nome do movimento cultural difundido pela banda e que possui o intuito de mostrar a produção que acontece no interior da Bahia. Qual a realidade da cena vivida pelas bandas e artistas da cidade e regiões próximas?

AK - Resguardas as proporções, não é muito diferente que em Salvador. Bandas de mais apelo de massa encontram mais oportunidades que as bandas alternativas, sejam em festas particulares ou com apoio de recurso público das prefeituras. Não há política consistente voltada para cultura alternativa, e quando há espaço em eventos públicos o cachê é simbólico sob alegação do potencial de atração de público. Mas o que pesa, de fato, é a quase inexistência de equipamentos para suportar produções alternativas independentes, bem como a ausência de instrumentos de mídia de massa que propaguem a produção local, o que torna a atitude empreendedora algo hercúlea. Muitos dos movimentos e iniciativas que tomaram pé nos interiores nos últimos anos foram desestimulados pela falta de amparo nestas questões mencionadas. Paulo Afonso, por exemplo, indiscutivelmente já teve uma das melhores e mais diversas cenas de rock do Estado no início deste século, mas quem ficou sabendo? Que apoios teve? Assomado a isso, as bandas de entretenimento de massa, com mais estrutura financeira, terminam catalisando os melhores músicos da cena alternativa sob pretexto de “profissionalizá-los”, interditando-os e consumindo assim toda a energia criativa dos movimentos alternativos independentes. Neste sentido – de forma sintética – posso dizer que o movimento Nação Cultural de Alembaía propõe criar uma rede de mobilizadores e fazedores de cultura no interior do Estado, para de forma coletiva, fortalecer e visibilizar iniciativas, desenvolver tecnologias sociais e compartilhar conhecimento.

SRP - Para encerrar a entrevista, sempre deixo esse espaço para o entrevistado mandar mais um recado. Pode deixar o seu!


AK - FORA TEMER!


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