Rádio Soterorock ao Vivo!
  • Soterorock Sessions 2017

    Muitas experiências foram adquiridas nas sessões feitas pelo soterorock em 2016, quando lançamos o Soterorock Sessions. em 2017 prometemos continuar promovendo esse encontro de bandas. Aguardem!

  • Programa Rota Alternativa na Mutante

    Promover debates e entrevistas sempre com um convidado da cena de rock da Bahia. Uma mesa redonda democrática onde se pode falar dos rumos do rock baiano. Agora na Mutante radio aos domingos.

  • Web Rádio ao Vivo!

    Sob o comando de Kall Moraes com mais de 20 anos de experiência em rádios da Bahia. Os programas voltam com força em 2017.

  • 10 anos de Soterorock!

    Foram mais de 50 programas gravados e mais de 300 resenhas realizadas por nossa equipe. Hoje depois de muitos colaboradores que fizeram parte deste projeto, completamos dez anos nesta jornada Rocker. Léo Cima, Kall Moraes e Sérgio Moraes voltam com o programa Rota Alternativa em 2017 trazendo novidades.

  • Programa GOROCK na Mutante Radio

    O que você gosta de ouvir? Léo cima apresenta o GOROCK aos domingos as 13hs na Mutante Radio sempre trazendo um garimpo do rock mundial.

Salvador derrete quando chove! Por Leo Cima.


Neste primeiro sábado de maio, aqui em Salvador, choveu demais, fez um frio daqueles e faltou luz duas vezes no bairro onde moro, uma vez durante a tarde e outra pela noite. Energia elétrica zero em pelo menos metade da cidade baixa por um bom tempo. Isso me ocorreu em mente se era um empecilho para sair de casa, diante da possibilidade disso ocorrer novamente estando na rua, pois todo cuidado é pouco e essas coisas quando acontece quando se está por aí é uma dor de cabeça das boas. Das piores, digo!

Mas mesmo assim, peguei a minha camisa de flanela e saí. O destino foi o Portela Café para conferir a primeira noite de shows do projeto Incubadora Sonora, contendo as apresentações de duas das nove bandas selecionadas pela sua curadoria, e também do anfitrião Irmão Carlos. Havia algum tempo que eu não dava as caras para ver as bandas locais, mais de um mês, quase dois, acho, e essa seria uma boa oportunidade para não deixar passar. Para além de assistir os grupos, rever as pessoas, inclusive algumas que já não via ao menos há um ano e meio juntas no mesmo lugar, e trocar um bom papo com elas fez parte do todo. O público não compareceu em grande número, mesmo com uma forte divulgação do evento e com o valor do ingresso quase que “simbólico” (apenas R$5,00), porém, quem foi se mostrou curioso e atento ao que estava acontecendo no palco.

Eu ainda estava no bar comprando mais uma cerveja quando a Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes abriu os trabalhos. Eles começaram com um mantra antes do seu primeiro acorde e isso sinalizava algo diferente em seu show. Os acompanho há um bom tempo, conheço o seu repertório de trás para frente e é uma das melhores bandas locais, mas, sinceramente, já estava mais do que na hora deles inserirem novas canções em sua apresentação. Tudo foi executado de maneira mais madura pelo duo, desde as duas composições escolhidas para entrar na coletânea do projeto até Mulher Kriptonita, ponto forte do seu EP de estreia, mas as três inéditas chamaram bastante a atenção. Búfalo Soul é um épico fincado na identidade da banda e com influência forte de Black Sabbath, Levante, que foi a mais bem recepcionada, tem um perfil mais psicodélico e Madame Sophie mesclou o seu peso com momentos mais leves. Agradou muito a quem conhecia e a quem não conhecia o seu som.

Depois deles, o cantor e compositor Irmão Carlos subiu ao palco para tocar as canções do seu primeiro disco solo. Pelo fato dele estar desde o início do ano atuando de maneira efetiva com esse seu show, se percebe uma grande segurança nas músicas em ação e no domínio do palco por parte de todos da banda. A própria experiência musical de cada um deles na cena, ajuda a explicar esses fatos! Do início ao fim, o Irmão Carlos não perdeu a empolgação, se entregou totalmente ao feeling das suas composições em uma performance incansável, como se tivesse entrado em um ringue e lutado todos os rounds para os quais ele se preparou para lutar. Seu Lugar ao vivo parece ser bem mais forte do que é em cd, com seu groove na medida certa, e Um Microponto de Luz faz jus à sua mensagem. Encerrando a noite, o grupo de rap Fraternidade Maus Elementos fez o seu som direto e reto, com rimas que abordam o cotidiano da realidade da nossa cidade. Ficou evidente em sua performance que o conjunto estava se divertindo no palco, com os MCs se reversando nas suas rimas e com o DJ se concentrando e aproveitando o momento em cima do tablado. Um ou outro desencontro na sequência das músicas ocorreu, mas isso significou nada diante da sua mensagem e do seu desempenho em músicas como Babylon.


Na volta para casa, descendo para a cidade baixa e com o A-há no som, pensei comigo: “Salvador é Kingston”. Kingston com várias Trenchtowns, que derrete quando chove e ainda muito mal cuidada em vários dos seus cantos. De qualquer maneira, a essa altura já me esquecera da ameaça de falta de energia elétrica e pensar que iniciativas como a da Incubadora Sonora são importantes para o fomento do cenário independente ocupou mais a minha cabeça.
Share:

Série “4 Discos de Rock Baiano”: Roll Up Your Sleeves and Help Us Reach Up This Honker World, Generation Dreams, h… stereo… e Aleluia.


Nesta quinta postagem da nossa série de discos feitos por artistas e bandas da Bahia, bastante obra importante chega para ganhar destaque aqui no Portal Soterorock. Nesse momento, as gerações diferentes dos grupos e a persistência louvável de ambos é a grande interseção entre eles. O rock de garagem, o britpop, o gótico/industrial tocado de maneira peculiar e a diversidade musical, marcam os sons da The Honkers, Teenage Buzz, Modus Operandi e Cascadura.

Roll Up Your Sleeves and Help Us Reach Up This Honker World – The Honkers

Esse terceiro trabalho da banda The Honkers é um verdadeiro registro fonográfico do ápice de um período da cena roqueira daqui da Bahia. Lançado em 2007, o disco traz canções que há tempos vinham sendo tocadas em seus inúmeros shows pela Bahia, restante do Brasil e em alguns países da América Latina de maneira empolgante, veloz e efervescente. E aqui, essa vibração que chega a beirar a pureza do rock’n roll, aproveitou o embalo de todos esses fatos e ganhou a sua gravação. Mantendo a linguagem do seu antecessor autoral, o disco traz temas do melhor do rock garageiro, mas flertando muito bem com o psicodelismo, um pouco mais com o punk rock e com o pop também. A diversão é garantida!  É difícil escolher somente duas, mas aqui vão: Devil Girl e Let me Feel the Sun.


Generation Dreams – Teenage buzz

Em seu segundo disco, a Teenage Buzz mostrou um amadurecimento significativo em suas composições. Generation Dreams (2015) é um bom e agradável resultado de influências britpop noventista com o rock pop e de garagem dos anos sessenta. Com uma sonoridade moderna, o grupo não soa como um conjunto de new rock e ganha muito em personalidade, com o seu perfil acessível de suas músicas. Os bons timbres das guitarras, ótimas estruturas vocais, uso de instrumentos como acordeão, gaita e percussão dão mais brilho as faixas do seu disco. Uma boa linguagem britânica para o rock local. Escute Melancholic Drugs e Blinding Light.


h... estereo... – Modus Operandi

Na sua estréia em disco, o quarteto soteropolitano Modus Operandi, deu à luz a sua música singular feita de maneira incomum, desprendida dos formatos convencionais do rock. Todo o caos e o turbilhão musical do grupo, que expressa bem a espiral frenética da nossa capital e das demais metrópoles, foram gravados nesta obra celebrada dentro e fora do Brasil. Utilizando furadeira, pedaços de metais e materiais reciclados no lugar da guitarra, sintetizador, baixo e bateria, a banda processou ao seu jeito o som gótico, o sinth pop e o rock industrial, com um texto existencialista e em alguns momentos surreais. O h... estereo... (2008) é tão interessante e corajoso, que já existe um tributo a ele. Destaques para Vazios de Palavras e Instintos e Canção de ninar.


Aleluia – Cascadura

Em 2012, o Cascadura lançou o seu último trabalho, Aleluia, um épico duplo recheado de ótimas composições e de uma bagagem cheia de experiências musicais acumulada pelos seus integrantes. Em uma homenagem a cidade de Salvador, o disco traz uma grande diversidade de influências, como o passeio pelas linguagens do rock que o grupo experimentou em sua carreira (do clássico ao moderno), o samba reggae, o jazz, ritmos regionais baianos, o som da motown, percussões candomblecistas, sopros e tudo o mais o que um ouvido bem atento pode captar. O cd também tem diversas participações especiais interessantes, que surgem ao longo da obra e que a enriquece mais ainda. Um trabalho cuidadoso, que vai se manter relevante por longos anos! Destaques para Colombo e Cantem Aleluia.



Share:

BVEAODE, Maus Elementos e Irmão Carlos se apresentam no primeiro show da 3ª edição do projeto Incubadora Sonora. Por Leo Cima.


A cena está em movimento! Neste próximo sábado, dia 27/05, os grupos e artistas, Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes, Maus Elementos e Irmão Carlos se apresentam no primeiro de uma série de shows proporcionado pelo projeto Incubadora Sonora e que mostra o seu perfil musicalmente diversificado. Será no Portela Café, Rio Vermelho, às 22:00 horas, com ingressos no valor de R$ 5,00.

Idealizado pelo compositor, cantor, produtor musical e agitador cultural Irmão Carlos e pelo coordenador do projeto, Lindomar Luís, a Incubadora Sonora surgiu do intuído de ambos de capacitar a cena musical independente daqui da capital e região metropolitana em suas investidas, fazendo grupos e artistas circularem de maneira mais notória possível pela cena. Em um estímulo ao empreendedorismo, criatividade e a profissionalização das nove bandas acolhidas pela curadoria do projeto, oficinas de cenografia, produção, gravação, fotografia, vídeo, comunicação e de redes colaborativas e o negócio da música foram realizadas ao longo de um mês e culminam na gravação de duas canções autorais de cada participante no Estúdio Caverna do Som a serem inseridas na coletânea Incubadora Sonora 2017, em um ensaio fotográfico e na apresentação do todos os artistas ao longo deste evento referido.

Para este início, os shows ficam por conta dos grupos selecionados do Território Cultural Cidade Baixa e Ilhas. Presença constante aqui no Portal Soterorock, o duo Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes faz um som com forte influência de rock clássico setentista e de stoner, trazendo riffs poderosos e viradas seguras de bateria, e versando o seu cotidiano cantado pela voz peculiar do seu baterista. A Maus Elementos levará ao palco do Portela Café o seu RAP de personalidade, com elementos do samba ao jazz, trazendo à tona o que acontece no dia a dia em nossa sociedade de maneira clara e direta. Também na festa, o Irmão Carlos apresenta o show cheio de balanço do seu recém lançado trabalho solo, que leva o seu próprio nome e que engloba em uma mesma esfera musical o soul, o punk, a black music e o rock.

Em tempo, estas são as demais bandas/artistas contempladas pelo projeto: Ojá, Coquetel Banda Larga, ExoEsqueleto, Neila Kadhí, Mc Dyou, Ana Luisa Barral e Zuhri73. Esta é uma boa oportunidade para saber o que acontece na cidade em termos de som no cenário independente daqui, em seus diversos gêneros musicais e conferir o trabalho autoral dos envolvidos. Tem muita coisa acontecendo, não vá querer ficar de fora. Para reforçar, segue novamente o serviço do evento!

3ª Edição do Projeto Incubadora Sonora
Shows: Irmão Carlos, Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes e Maus Elementos
Quando: 27/05/2017
Onde: Portela Café (Rua Itabuna, 304 – Rio Vermelho)

Quanto: R$5,00




























Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes. Foto: Denisse Salazar.

Maus Elementos. Foto: Denisse Salazar.













































Irmão Carlos. Foto: Ted Ferreira.
Share:

Série “Mais uma Cara do Rock Baiano”: Augusto Kuarupp, vocalista da Órbita Móbile.


Mais uma nova entrevista da nossa série, que traz desta vez o frontman da banda de Paulo Afonso, Órbita Móbile. Aqui neste papo, o Augusto Kuarupp mostrou a grande quantidade de influências que o grupo traz consigo e que ajudaram a formar o conceito do seu álbum de estreia, Sonho Robô. A formação do conceito do EP e as plataformas onde ele é divulgado, as suas influências, a cena roqueira da região de origem do conjunto, formatos de música, quadrinhos, filmes, séries, livros e tecnologia foram tratados com profundidade nesta ocasião. É se ajeitar onde está e aproveitar a leitura!

SOTEROROCKPOLITANO - Augusto, gostaria de começar a nossa conversa falando um pouco sobre quadrinhos. Mesmo existindo tantas obras interessantes nesse universo e com tantos profissionais de outras áreas utilizando esse meio (o Chuck Palahniuk escreveu a sequência d’O Clube da Luta exclusivamente para HQ e o diretor Christopher Nolan autorizou um spin-off de Interestellar em quadrinhos), as graphic novels  ainda não são tão exploradas de acordo com o seu grande potencial. Como você enxerga esse fato do quadrinho ainda não ser amplamente utilizado e aproveitado?

Augusto Kuarupp - Boas menções as que fizeste, eu citaria ainda outras, como as HQs digitais produzidas para uma das minhas séries prediletas, que é Fringe; e ainda as que são feitas para Star Wars, dentre muitas. Em verdade, existe sim um mercado potencial para quadrinhos e esta é uma linguagem muito explorada para expandir universos ou dar conta de personagens que se destacam em determinados contextos narrativos como os que citamos, não fosse assim, essas franquias não utilizariam deste instrumento. Entretanto o que podemos observar é que essa nossa percepção geral de que as “graphic novels não são tão exploradas” se deve mais do nosso contato com o mercado brasileiro de quadrinhos, que importa mais do que produz localmente, e também tem por hábito distribuir HQs das grandes franquias internacionais. Esse é um problema que se vive no Brasil não só em relação às HQs, mas similarmente com o cinema também, que franqueia mais espaço para produções estrangeiras que nacionais. Por um lado, quando se privilegia produções estrangeiras, o mercado acaba forçando os roteiristas e desenhistas nacionais a uma situação marginal, que basicamente é a produção independente experimental - que vive as agruras da luta contra as grandes distribuidoras e produções milionárias - ou trabalhar sob encomenda para atender a interesses corporativos – e, neste último caso, termina cerceando a qualidade imaginativa e experimental da narrativa que se faz por aqui, quando para sobreviver você precisa fazer cartilha para ensinar pessoas a economizar energia, que é um objetivo nobre, mas limitante. Do outro lado tem o público, que foi formado por décadas pela Marvel e Dc Comics e produção japonesa com honrosas exceções ao Maurício de Souza – empresas que dominam o mercado editorial de quadrinho no Brasil e se articulam com produções em massa de animação para TV – e que, portanto, formaram leitores que costumam receber com estranheza qualquer produção que não tenha aquele grau de qualidade editorial ou lógica narrativa. Por fim, e falo do Brasil, de uma forma geral por aqui, se acha que o quadrinho é uma linguagem menor, mais para o entretenimento e menos para a arte, daí porque poucas ou quase nenhuma das nossas produções mais populares fazem interface com as graphic novels, por exemplo, houve boatos sobre uma versão de “Tropa de Elite” para quadrinhos – que aparentemente poderia ter sucesso – mas me parece que não passaram de boatos, por quê? Não tenho resposta, mas sei que esse foi um dos filmes nacionais de melhor retorno em bilheteria, então podemos supor que falta de recurso para tocar um projeto desses não era exatamente a questão.

SRP - Como surgiu a ideia de fazer uma história em quadrinhos inspirada no próprio disco e, principalmente, dela ser mais uma plataforma de distribuição e divulgação do Sonho Robô?

AK - Mencionamos acima algumas produções para cinema e TV de ficção científica que se utilizaram da linguagem em quadrinhos: Fringe, Interestellar, Star Wars, etc... e podemos citar os X-Men – pra ficar apenas num título de super-heróis que situam suas narrativas em realidades de ficção científica. Ocorre que, para um gênero como o sci-fi, o quadrinho termina sendo um importante aliado para dar materialidade a universos fantásticos imaginativos, porque no desenho, tudo cabe e você não precisa fazer um orçamento para montar um cenário futurista, basta desenhá-lo. Esses insights eu tive durante um curso de roteiro transmídia para quadrinho que eu tomei com o professor Marcelo Lima, embora já tivesse chegado com a inspiração prévia da HQ lançada pelo Gorillaz para o seu primeiro álbum, mas no curso aprendi que diferente do que fez a banda do Damon Albarn, eu poderia criar vínculos narrativos menos literais e lineares, e mais expansivos e orgânicos, que é a tal da transmidialidade. Então já mais à frente, após o curso, pensei em radicalizar o conceito de transmidialidade transformando o quadrinho como plataforma de acesso ao álbum “Sonho Robô”, algo como: se vamos tratar de ficção científica, vamos dar uma experiência tecnológica a quem for ler. Muito embora, eu tenho dito que é uma plataforma, mas eu prefiro pensar que o quadrinho é o próprio álbum, no sentido que não vejo mais muito sentido no CD ou até mesmo no vinil, que só me lembram que estou retendo carbono de origem não renovável na minha estante, peças de plástico que acondicionam a música de forma estática, e tudo isso por uma capa? Ou por algumas frequências a mais? A revolução do compartilhamento da música digital preconizada pelo Napster criou dobras culturais que não podem ser desdobradas, o “streaming” não é mais uma plataforma, é um comportamento. Neste sentido resolvi apostar no quadrinho por ser um mediador de todas essas coisas, feito de matéria prima de origem renovável, é uma obra que complementa narrativamente a obra musical, ao adquirir uma HQ, você leva duas obras com grande potencial de mobilidade e portabilidade, podendo alcançar também públicos mais diversos.

SRP - Se passaram dez anos entre o início das atividades da Órbita Móbile até o lançamento do seu primeiro trabalho. O quanto esse tempo foi importante para a concepção do EP e para a formação do perfil transmídia da obra?

AK - Bastante importante. Há dez anos eu tinha apenas uma ideia de aonde queria chegar, que basicamente era fazer um rock que misturasse música eletrônica e rítmica brasileira de forma original. Comuniquei isso a alguns parceiros músicos, mas o único que sobreviveu comigo a essa epopeia foi Igor, que é baterista da banda, em muito por grandes afinidades musicais, mas também conceituais – ele, como eu, é fã de ficção científica. Viemos então desbravando. Tivemos que aprender a usar softwares de produção eletrônica, e depois aprender como misturar isso com rock. Fomos para Salvador, eu em 2008 e ele em 2009, e enquanto eu me dediquei a pensar e me preparar artística e filosoficamente para construir os universos narrativos que imaginava – o curso de roteiros transmídia entra nesse bojo –, Igor foi cursar “composição e regência” na UFBA, o que nos deu suporte para pensar a música de forma mais sci-fi, a partir do ponto de vista de sua engenharia propriamente. Com o tempo, fui atualizando os conceitos, daí que saímos de “mistura musical” para “radicalização da abordagem híbrida” ou “hibridismo radical”; e unindo nossas áreas de conhecimento de forma conjunta, desenvolvemos uma metodologia composicional própria, que denominei de “método para expansão de linguagens híbridas e diversas”, e isso foi o que deu suporte para o nascimento de “Sonho Robô”. No nosso soundcloud, é possível ouvir uma versão de Rota do Tempo de uma demo nossa de 2010, e a atual para o zip álbum “Sonho Robô” – observar a diferença entre as versões diz muito do nosso processo de aprendizagem, sobretudo porque esta música foi a primeira composição do álbum, já em 2007, quando ainda não sabíamos que álbum estávamos produzindo.Hpaahhhhhhh

SRP - Sonho Robô tem uma atmosfera forte de futurismo sci-fi em sua música e em seu texto também. Nos fale sobre o conceito do EP, e quais as obras que incidiram com mais influência para a concretização do disco?

AK - Do ponto de vista conceitual narrativo, de fato estamos falando de Isaac Asimov, que é o ponto de partida para o gênero sci-fi quando falamos de robôs - mesmo que eu citasse obras do audiovisual que influenciaram nossa narrativa, como Battlestar Galactica, Blade Runner ou a animação Big Hero 6, seriam sempre influências subjacentes, visto que é a literatura de Asimov que subsidiou a maior parte de todas essas produções posteriores. Era sem dúvida um gênio, que como escritor – artista – chegou inclusive a criar leis fundamentais de robótica, que balizam ainda hoje pesquisas científicas neste campo. Em 2012, Rafa Dias, que trabalhou conosco alguns meses, me enviou uma base eletrônica que, por conta de umas texturas sonoras, o faziam lembrar-se de sons robóticos, e ele me mandou com uma sugestão de título: vida robô. Eu gostei da base e me pus a pesquisar logo sobre o que iria escrever nessa música, e de cara intuí o Asimov, algo como “robô=Asimov”. Então bati com um de seus livros de contos “Sonhos de Robô” e de pronto achei que falar de sonhos renderia mais subjetividade que falar da vida, porque deslocaria o som para um lugar mais etéreo que é o do sonho, em contraposição ao pragmatismo que é a vida. Mas não bastava copiar o Asimov, então, ao invés de falar de robôs que sonhavam, resolvi optar por uma narrativa que transformasse o próprio sonho em um robô, um algoritmo de inteligência artificial que simulasse sonhos e ativasse as sinapses cerebrais de uma humanidade que, num futuro distópico (futuro?), tendo perdido a capacidade de sonhar, precisou usar do expediente tecnológico para reprogramar o cérebro para esta habilidade esquecida. Esse é o arcabouço narrativo do zip álbum, mas, sonhar com o quê? Seria a pergunta subsequente. Então tentei discutir nas letras diversos aspectos da liberdade para me aproximar mais dos questionamentos filosóficos que embalam a literatura do Asimov, desde o paradoxo da liberdade na primeira faixa do disco: enquanto a liberdade for uma meta, apenas podemos fingir que somos livres; a questões de liberdade nas relações amorosas: liberdade de ir, liberdade de querer ficar. Do ponto de vista musical, de forma bem sucinta, posso dizer que encontramos suporte na obra do Radiohead e da Nação Zumbi, além das trilhas sonoras do cinema sci-fi.

SRP - É possível perceber várias influências no som da Órbita Móbile, mas o que você tem escutado ultimamente? O que tem mais lhe chamado a atenção na música?

AK - Olha... eu tenho uns dois tipos de audição. Um conjunto de bandas e artistas que eu sempre ouço e outra mais randômica. Sempre tenho na playlist Radiohead, Asian Dub Foudation, Nação Zumbi, Björk, UNKLE e sei lá... um monte de coisas. Mas ultimamente estou pesquisando discos que foram influenciados pelo maguebeat e que não foram rotulados como tal, e fui bater num disco da Rebeca Matta chamado “Garotas Boas Vão Pro Céu, Garotas Más Vão Pra Qualquer Lugar”, que me impressionou pela atualidade do som numa produção que é de 2000. Tenho escutado também de forma mais randômica os rappers, tem uns caras de um grupo chamado “Run The Jewels” que são fabulosos, e curti o último disco do Kendrick Lamar e do Drake. Semana passada comecei a ouvir o novo álbum do Kasabian, que é legal, gosto bastante do Kasabian. Viajei esses dias e voltei com um álbum do Fatboy Slim no celular, o “Halfway Between The Gutter And The Stars”, alguém me disse que concorreu nas paradas com um disco do Moby em algum momento, achei uma competição curiosa e baixei, é interessante. Assino uns canais de funk no Youtube e vez por outra escuto o que tá rolando, nem sempre é animador, mas às vezes me ocorrem uns insights. Escuto sempre muita música erudita também, sou fã de Philip Glass e posso passar um dia inteiro só ouvindo música cigana.

SRP - O disco foi seguido pela turnê Alembaía, que passou pelas cidades de Rodelas, Paulo Afonso, Abaré e Chorrochó. Este também é o nome do movimento cultural difundido pela banda e que possui o intuito de mostrar a produção que acontece no interior da Bahia. Qual a realidade da cena vivida pelas bandas e artistas da cidade e regiões próximas?

AK - Resguardas as proporções, não é muito diferente que em Salvador. Bandas de mais apelo de massa encontram mais oportunidades que as bandas alternativas, sejam em festas particulares ou com apoio de recurso público das prefeituras. Não há política consistente voltada para cultura alternativa, e quando há espaço em eventos públicos o cachê é simbólico sob alegação do potencial de atração de público. Mas o que pesa, de fato, é a quase inexistência de equipamentos para suportar produções alternativas independentes, bem como a ausência de instrumentos de mídia de massa que propaguem a produção local, o que torna a atitude empreendedora algo hercúlea. Muitos dos movimentos e iniciativas que tomaram pé nos interiores nos últimos anos foram desestimulados pela falta de amparo nestas questões mencionadas. Paulo Afonso, por exemplo, indiscutivelmente já teve uma das melhores e mais diversas cenas de rock do Estado no início deste século, mas quem ficou sabendo? Que apoios teve? Assomado a isso, as bandas de entretenimento de massa, com mais estrutura financeira, terminam catalisando os melhores músicos da cena alternativa sob pretexto de “profissionalizá-los”, interditando-os e consumindo assim toda a energia criativa dos movimentos alternativos independentes. Neste sentido – de forma sintética – posso dizer que o movimento Nação Cultural de Alembaía propõe criar uma rede de mobilizadores e fazedores de cultura no interior do Estado, para de forma coletiva, fortalecer e visibilizar iniciativas, desenvolver tecnologias sociais e compartilhar conhecimento.

SRP - Para encerrar a entrevista, sempre deixo esse espaço para o entrevistado mandar mais um recado. Pode deixar o seu!


AK - FORA TEMER!


Share:

Série “4 Discos de Rock Baiano” – Game Over Riverside, Marte, ExoSessions e Ronco.


Mais uma sexta e com ela a quarta postagem da nossa série que destaca obras importantes do rock feito no estado da Bahia. Indo até um passado não muito distante, nesta ocasião trazemos a tona discos com bom impacto no cenário local, cada um com uma marca distinta além da sua música. Entre estes quatro há celebração de retorno às atividades, um amadurecimento de maneira genial, uma obra percussora e uma estreia impactante. Conheça os trabalhos da Game Over Riverside, Declinium, ExoEsqueleto e Ronco.

Game Over Riverside – Game Over Riverside

Depois de um hiato de oito anos parados, a Game Over Riverside marcou o seu retorno com o lançamento do seu primeiro EP no ano de 2016, com seis faixas do seu repertório original. Nesse seu debut, o agora quinteto se manteve fiel à sonoridade das suas composições, ao mesmo tempo em que ambas soam bastante atuais. Do indie ao grunge, passando pelo psicodelismo, o grupo fez da sua estreia um registro de canções explosivas em diversos momentos e velozes em outros. Isso se aplica também ao conteúdo das suas letras, que continuam bastante pertinentes nos dias atuais. Música atemporal não envelhece! Destaques para Little Marchioness e Sadness Online.


Marte – Declinium

Esta talvez seja a obra prima dos camaçarienses da Declinium. Uma verdadeira entrega sincera de sentimentos nas suas musicas ao longo deste EP, atesta esse fato no mais recente trabalho dos veteranos do rock da Bahia. Marte (2014) representa o amadurecimento do som da banda, que traz consigo fortes influências de sons britânicos e com uma veia melancólica muito bem inserida na estrutura das suas composições, entregando uma face belíssima desse sentimento para quem as escuta! Com textos escritos com maestria sobre a perda, a falta e o vazio, as canções se tornaram hinos cantados em uníssono ao longo desses anos em seus shows. Dizer o que se sente faz bem! Se você não conseguir, pode apertar o play em A Espera e em Marte.


ExoSessions – ExoEsqueleto

Há quatro anos, a ExoEsqueleto, mesmo que discretamente,  já apontava uma direção e mistura musical muito utilizada por bastante grupos hoje em dia. Em ExoSessions (2013), a banda, antes de muita gente, se antecipou a tendência de mesclar sons regionais baianos com o rock, de maneira original e sem que soasse datada e pretenciosa. A espontaneidade encontrada neste disco marca o início da formação da forte identidade do conjunto, isso em meio a presença do histórico musical de cada um de seus integrantes. Os temas abordados tratam sobre o cotidiano, mas há bastante da Bahia nos versos cantados no cd. Ser visionário é importante e é uma virtude. Destaques para Visceral e Desconforto.


Ronco – Ronco

Em seu trabalho homônimo de 2015, a Ronco trouxe o seu blues rock, e stoner em um EP de sonoridade volumosa e recheado por um paraíso de fuzz. Com muito peso, ótimas texturas, efeitos, solos e soluções inteligentes para os arranjos de suas composições, a Ronco faz um som acessível e sem restrições, mostrando um bom entrosamento entre os componentes. Além da música, a obra possui temática, com as letras girando em torno do ponto de vista de um personagem sobre uma persona feminina em suas faces diferentes. As referências de rock clássico setentista do trio reforça todo o conceito dessa estreia. Groove pesado para os ouvidos! Escute Cidade dos Sonhos e A Suicida.


Share:

O apocalipse já aconteceu! Por Leo Cima.


Caos, imersão obsessiva no mundo virtual, catástrofes naturais, fatos que questionam a religiosidade e cultura de massa para manter o povo inerte. Esses são alguns dos pontos principais abordados neste novo trabalho da Desrroche, Conecte 1969, o primeiro desde 2014, quando lançou o single Nova Canção. Temas pertinentes envoltos em um ambiente musical com muita guitarra, baixo e bateria volumosos, sintetizadores e performances vocais marcantes.

O quinteto dá continuidade a sua carreira se mantendo fiel a sua estética visual, a mesclando bem com a sua música em um EP com cinco faixas, lançado há um pouco mais de um mês. Algumas delas já bem conhecidas do seu público fiel, mas muito bem registradas e dentro de um ótimo som. Há aqui uma proposta musical de muito peso oferecida aos seus ouvintes mais antigos e aos recém iniciados na sua discografia.

O EP abre da maneira como se deve abrir um disco, com uma música que não se encaixaria em outra parte dele. Conecte tem o peso ideal que empolga o ouvinte, algo que também se percebe nos shows da banda. Sons de internet discada ao fundo das guitarras pesadas e uma cozinha impactante dão o norte do que vem pela frente, e ainda traz na sua letra versos pertinentes da esfera virtual: “Alguém me lê?/Alguém me ouve?”. Teocêntrica surge mais arrastada, porém não menos pesada. Com um teclado ganhando mais destaque na faixa, aqui o grupo questiona a crença religiosa diante de tantas catástrofes e atrocidades ocorridas pelo mundo. A boa interpretação do Lex Pedra juntamente com backing vocals orientais e um ótimo solo de guitarra, dão mais dramaticidade a composição. 9 Polegadas segue com a mesma pegada, só que mais sombria, em música e texto, onde é narrada sensações claustrofóbicas de dentro de uma caixa a “sete palmos da encruzilhada”. Ela explode em alguns momentos e de maneira mais empolgante na sua sequência final.

Em Mãe Terra, o peso vibrante da banda retorna com uma boa mescla de vozes noticiando o desastre ecológico em Mariana e sirenes. A velocidade impressa nessa canção cai bem com seus riffs, mais um ótimo solo de guitarra e um refrão grudento. Nela a letra da canção versa sobre o quanto o homem tem acabado com o ecossistema do planeta e o quanto a natureza tem cobrado de volta esses maus tratos. O fade out nela encerrou bem esse registro. Fechando o EP, Nova Canção, originalmente lançada como um single em 2014, se mostra bastante atual em termos de sonoridade em relação as demais. O tema encontrado no seu texto ainda é bastante relevante, onde se coloca em questão as novas tendências musicais, religiosas e de diversões, onde se levam a mais uma alienação, que são empurradas a qualquer maneira para as pessoas, sufocando qualquer possibilidade delas de questionar se querem, ou não, consumir isto. O seu som pesado, com interlúdio com um pé no psicodelismo, para chegar em uma parte mais veloz, empolga bastante nos seus segundo finais.


Em Conecte 1969, a Desrroche se saiu bem na escolha da sonoridade utilizada para a sua música nesta obra. O seu som gótico e industrial possui grandes trunfos em seus arranjos e suas letras fazem refletir sobre o que é abordado nelas. É bem provável que o apocalipse já tenha acontecido e você não se deu conta isso! As músicas pesadas têm uma boa proximidade com as suas versões ao vivo, da mesma maneira em que você vê o quinteto e todo o seu aparato visual no palco, não fica difícil pensar em todo o seu conceito artístico enquanto se escuta esse disco. É um bom trabalho que dialoga bem consigo mesmo e com o mundo ao seu redor.
Share:

Série “4 discos de Rock Baiano”: Quintais Abertos, Aquele que Superou o Fim dos Tempos, Azul Profundo e O Pensamento é um Imã.


Mais uma sexta feira e mais uma postagem da nossa série especial, sempre trazendo quatro discos históricos do cenário roqueiro baiano. Neste momento, os sons dessas obras passam do stoner ao indie, sem deixar de lado o blues e o new rock. Cada um a sua maneira, os trabalhos da Novelta, Weise, Reverendo T e os Discípulos Descrentes e Vivendo do Ócio são os destaques desta edição.

Quintais Abertos – Novelta

Lançado em 2015, o trabalho de estréia dos feirenses da Novelta foi antecedido por um bom trabalho de divulgação e a expectativa pelo som do quarteto foi crescendo até o dia do seu lançamento. E não houve desapontamento! Com seis faixas, Quintais Abertos é uma boa investida dentro de um stoner rock feito com personalidade, possuindo bons arranjos, se arriscando bem em temas longos e uma sonoridade de qualidade. Ter bebido na fonte do deserto de Joshua Tree fez bem ao quarteto, que colheu bons frutos com a sua música. A paisagem da região de origem do grupo é bem pintada musicalmente aqui.  É ouvir para ver. Escute Santa Poeira e Ancorado.


Aquele que Superou ao Fim dos Tempos – Weise

Esse disco é uma das pérolas mais preciosas já feitas no rock da Bahia e não pode ser esquecido de maneira alguma. Lançado no final de 2013, o segundo cd do grupo é recheado de ótimas composições tortas e descompromissadas, com ecos de Pavement em seu DNA e influenciadas por um indie que vale a pena ser escutado. Mas tem muito mais nele! Conseguir misturar punk, valsa e psicodelismo em uma mesma faixa não é uma das tarefas mais fáceis, e amarrar uma abordagem mais conceitual com as quatro ultimas canções, dentro da mesma obra, mais ainda. Há ótimos brilhos de guitarra e bateria registrados nesse último trabalho da Weise. Destaques para Morpheu Menino e Desde o Cordão.


Azul Profundo – Reverendo T e os Discípulos Descrentes

Um dos ótimos trabalhos do incansável Reverendo T e os Discípulos Descrentes, também conhecido como Tony Lopes. Desta vez, soando mais orgânico e com o blues ganhando destaque nas composições. Em Azul Profundo (2014), a voz sussurrada, característica do compositor, ficou mais do que interessante acompanhada apenas por uma guitarra distorcida em vários momentos do EP e pela bateria em passagens pontuais. Cantando os versos existenciais e provocativos de suas letras, o Reverendo T ainda trouxe a tona a face diversa dos seus convidados especiais, o baterista Wilson Santana (PDM) e o guitarrista Felipe Britto. Mergulhar no azul é crer! Ouça mais de uma vez Peça Por Mim e Contra Moinhos de Vento.


O Pensamento é um Imã – Vivendo do Ócio

Nesse seu terceiro trabalho, a Vivendo do Ócio conseguiu levar definitivamente o clima quente e vibrante das suas apresentações ao vivo para dentro do estúdio. Em O Pensamento é um Imã (2012), as composições do quarteto estão mais amadurecidas e o cotidiano dos rapazes surgem com naturalidade nas suas letras, assim como a Bahia, que é lembrada em vários trechos do disco. Direto e objetivo, com uma velocidade características das bandas britânicas de new rock da primeira década dos anos 2000, o grupo se firma no cenário nacional e aponta o caminho do seu sucessor sem receio algum. Destaque para Radioatividade e Preciso me Recuperar.

Share:

Rock, sci-fi, quadrinho e futurismo. Por Leo Cima.


Quando você acha que não vai ver mais alguma maneira diferente de expandir o alcance de um disco, eis que uma banda da cidade de Paulo Afonso surge com uma proposta diferente de plataforma de divulgação da sua música: uma história em quadrinhos. Nesta sexta feira (12/05), o grupo Órbita Móbile lança, em seu site www.orbitamobile.rocks, a graphic novel Jan & Jim Sonho Robô – Crônicas de Forquilha Town, sendo essa inspirada no disco de estreia do quarteto.

Possuindo formato digital e impresso (que será distribuído gratuitamente nas escolas, bibliotecas e ONGs do território de Itaparica, na região Norte da Bahia), com o argumento de Augusto Kuarupp (vocalista) e ilustrações do artista Mauro Caparroz, a HQ traz as aventuras de Jan e Jin em um futuro distópico na cidade de Forquilha Town. Na história, ambos encontram um algoritmo de inteligência artificial que estimula as sinapses para simular sonhos, isso dentro de um mundo em que as pessoas não conseguem mais sonhar. Um bom clima de ficção científica para um disco de atmosfera sci-fi.

O Sonho Robô tem essa vibração em suas composições e isso fica bem claro logo em sua primeira música, Embalado à Vácuo, possuindo sintetizadores em bastante evidência, um discreto órgão panorâmico passeando de um ouvido ao outro, texturas sintéticas de guitarra e uma influência forte de mangue beat. Em O que Mais uma guitarra mais groovada chama o conjunto de metais que tem uma presença significativa nessa canção com bons arranjos, assim como na boa colocação das backing vocais femininas no refrão da letra, onde o autor procura saber o que mais o outro alguém vai querer dele. A faixa título se inicia com um momento mais psicodélico dentro da obra, se aprofundando ainda mais no seu conceito com arranjos vocais interessantes, com e sem efeitos, para depois crescer em uma velocidade futurista e frenética até o seu final.

O Sorriso da Lua Minguante é bela e misteriosa, levada por guitarra e flauta calmas e com uma programação ao seu fundo, que mantém a sua paisagem flutuante intacta, preparando o caminho para A Balada do Abalado. Esta possui um pouco do clima da sua antecessora e traz de volta o lado mais aceso da obra, como uma mescla de tudo o que Sonho Robô possui. Encerrando o disco, Rota do Tempo surge com uma levada mais empolgante cheia de velocidade e momentos de ápices explosivos, como se estivesse dentro de uma sequencia final de uma história prestes a se resolver.


Esse trabalho de estreia da Órbita Móbile tem um ótimo resultado em sua sonoridade, onde as texturas encontradas aqui foram bem escolhidas pela banda, que soube dosar essas investidas de maneira que não ficassem demasiadas. De fato, o clima futurista permeia o Sonho Robô na sua música e em seu texto, com ótimos instantes de sopros e vozes, com guitarras, sintetizadores e as programações fazendo a liga por entre as faixas. O seu conceito foi bem amarrado e prepara bem o ouvinte para o que ele vai ler na graphic novel que vai chegar.
Share:

Série “Mais uma Cara do Rock Baiano”: André Dias, vocalista e guitarrista da ExoEsqueleto.


A nossa série de entrevistas surge mais uma vez trazendo o frontman de uma das bandas mais interessantes do cenário roqueiro baiano. Aqui, o André Dias fala como a ExoEsqueleto se formou, sobre a mistura musical da banda, que transita entre o som regional baiano e o rock, e sobre como ele é recebido por aqui. Além disso, colocou as suas impressões sobre a cena e falou sobre os planos do grupo. Tudo em um papo lúcido e sincero. Então, se ajeite onde estiver e é só nos seguir.

SoteroRockPolitano - Vamos começar falando um pouco sobre a formação da ExoEsqueleto. Ela começou com ex integrantes de bandas da primeira década dos anos 2000, como a Sine Qua Non e a Headfones, como ocorreu esse encontro?

André Dias - Rapaz, esse encontro ocorreu como a grande maioria dos que ocorrem na cena baiana. A Headfones e a Sine Qua Non perambulavam pelo famigerado Nhô Caldos, inclusive, conheci Renato numa dessas noites insanas de lá. Coincidiu de as duas bandas ensaiarem no mesmo estúdio, o saudoso Doron Studio, e aí eu conheci o resto da galera. Sempre ficamos de fazer um som com as duas bandas, mas nunca rolou. Daí, a Sine acabou e não rolou mesmo. No início de 2012, percebendo que a Headfones tava em processo de encerramento, comecei a compor umas coisas diferentes do som que fazia naquela época e decidi montar outro projeto. Meu primeiro contato foi com Ricardo Bittencourt e logo nas primeiras ideias a gente quis que Renato fosse o baterista. Depois de conseguir convencer ele a tocar com a gente começamos as trabalhar as músicas no estúdio que Ricardo tinha em casa, que carinhosamente chamávamos de Cafofo. Daí pra frente, foi aquele corre de querer tocar, gravar aparecer...

SRP - Mais tarde o grupo passou por algumas mudanças, como a saída do baixista original e inserção de um percussionista. De que maneira esse fato influenciou nas canções antigas e nas novas composições?

AD - Sendo bem realista na resposta, eu acredito que tudo o que aconteceu com a banda nesses quase cinco anos, aconteceu pra melhorar nosso som. Claro que a gente lamentou a saída de Ricardo, por motivos pessoais, e de Arilson pelos mesmos motivos, mas em contrapartida, Didoné chegou com a percussão dando muito mais coerência à nossa proposta de agregar outras texturas musicais com o nosso amado rock. Por fim, de outubro pra cá, com a entrada de Cadinho, que tem uma linguagem muito mais rock do que eu, digo no sentido das cordas, conseguimos equilibrar a sonoridade da banda. Compor coisas novas sob essa perspectiva tornou o processo ainda mais prazeroso.

SRP - Já faz algum tempo que o primeiro trabalho da ExoEsqueleto, o ExoSessions, foi lançado. Porém, mais recentemente, vocês gravaram para a coletânea Outro Jeito – Da Bahia pro Mundo a faixa Reza e, mais recentemente ainda, disponibilizaram o vídeo da música Ifé. Qual a previsão para a chegada de um novo disco do grupo e o que aguardar dele?

AD - Dia 1º de outubro ele faz 4 anos! Mas é isso... Sempre ouvi falar que o disco é o registro do momento da banda, mas só hoje consigo sentir isso de verdade, sabe? Acredito que chegamos à formação ideal da banda e criamos a atmosfera perfeita pra esse segundo disco. A gente nunca sabe o que vai acontecer, ainda mais nesse mundo da música independente, mas eu amo esses caras e mais ainda, amo tocar com eles. Fomos contemplados no Incubadora Sonora, mais um incrível projeto de Irmão Carlos e vamos gravar duas músicas novas no final de junho que farão parte da coletânea do projeto. Isso será o pontapé inicial pra gravar o resto do disco. Acredito que 80% das músicas já estão prontas e estamos nesse processo de começar exaustivamente até deixar tudo como queremos.

SRP - O conjunto tem incorporado cada vez mais elementos da música regional baiana em suas melodias e as letras também passam por esse viés. Como tem sido trabalhar essas influências dentro da ExoEsqueleto e mistura-las ao rock?

AD - Cara... É meio natural, sabe? A gente nasceu e cresceu numa terra que tem uma diversidade musical tão incrível que a gente acaba assimilando algumas coisas por osmose. E a Exo é meio uma versão miniatura dessa pluralidade toda. Temos Didoné que é um percussionista candomblecista que ouve Ramones, Metallica e pesquisa ritmos latinos e uma pilha de coisas; Cadinho que também é um pesquisador atento à tudo que se diz respeito a misturar ritmos com o rock; Renato é um cara que ouve muita música brasileira das décadas passadas, além de estar atento à tudo que rola no cenário alternativo local e tem eu, que gosto de Queens of the Stone Age à Rihanna, de Coldplay à Macaco Bong... Dá pra perceber que tem muita DR, mas a gente se entende bem na hora de fazer música e essa mistura acaba rolando de boas porque a gente se preocupa muito em respeitar os pontos de convergência entre os ritmos na hora de apresentar a nossa verdade como banda.

SRP - Algumas outras bandas também têm mesclado a cultura da Bahia em seus sons. Como tem sido a receptividade na cena em relação a esse fato? Você acredita que essa linguagem será mais difundida por aqui?

AD - Eu acredito que isso torna a cena local cada vez mais heterogênea e acaba resultando numa receptividade bacana pra quem se propõe a fazer essas mesclas. Tem bastante banda fazendo isso já: Swinga, Tabuleiro Musiquim, nós da ExoEsqueleto, a Levante! traz essa mescla em algumas músicas e tem uma galera mais nova que a gente fazendo isso com muita propriedade que é o exemplo dos meninos da Ofá. Todas são bandas completamente diferentes e eu acho que isso vai ser difundido ainda mais porque o Baiana System tá provando para um público maior que imprimir nossa baianidade em qualquer outro som, com coerência, é um caminho interessante a se percorrer, então mais e mais pessoas vão se interessar em consumir músicas que abarquem essas ideias.

SRP - Atuando já a bastante tempo no cenário local, o que mais você tem observado de positivo e de negativo na cena? Sinto uma efervescência boa por aqui, sempre há aqueles mais pessimistas, claro, mas como você enxerga o momento atual?

AD - Eu acho que estamos no momento mais fértil da história do rock local, respeitando o rico passado da cena, obviamente. Tem muita coisa boa sendo feita aqui. Bandas novas com umas sonoridades distintas: Ronco, Dutxai e os Indizíveis, Calafrio, Rivermann; Velhos dinossauros à todo vapor como Declinium (na qual já fiz parte em 2011), Game Over Riverside e Pastel de Miolos. Cara, dividimos palco com a Pastel dias atrás e é uma injeção de ânimo ver os caras com mais de 20 anos de estrada com energia pra se reinventar. É simplesmente maravilhoso! De negativo tem aquele velho assunto delicadíssimo: A louca relação entre bandas/artistas versus bares/ casas de show que é algo que vai persistir por muito tempo porque os dois lados tem suas razões e é muito complicado apontar uma solução imediata pra que as partes saiam satisfeitas. O artista quer tocar, mostrar seu trabalho, formar público e o dono da casa quer vender bebida, lucro, pagar as contas. É bem louco isso, mas é um entrave que a gente precisa resolver para as coisas fluírem melhor.

SRP - Mesmo tendo se referido a algumas influências, entre bandas locais e gringas, o que você tem escutado ultimamente? O que tem te chamado mais a atenção na música?

AD - Velho, meu player é variado demais. O que eu ouço depende muito da vibe do dia. Mas tem umas coisas que nunca saem dele: Queens of the Stone Age, Foo Fighters, Incubus (que acabou de lançar disco). Nacional, escuto muito Metá Metá, Aláfia, Gil, Macaco Bong. Local, sempre dou um saque na beleza do EP Marte, da Declinium. Tenho, também o Quintais abertos da Novelta e, de uns dias pra cá tenho escutado o Novas Ideias, Velhos Ideais da PDM e uma banda nova daqui chamada Coquetel Banda Larga que tem um som muito bom e que dialoga com vários ritmos. O que mais tem me chamado a atenção ultimamente é uma banda mexicana San Pascualito Rey, que Cadinho me apresentou. Os caras são espetaculares. Melodias tronchas, cheias de distorção e noise com letras incríveis e toda a malícia percussiva latina misturada com tudo isso.

SRP - Para encerrar, sempre deixo esse momento para o entrevistado deixar um recado para os nossos leitores, qual o seu?


AD - Queria, primeiramente, parabenizar o Soterorock pelo brilhante trabalho em divulgar o conteúdo produzido por nós da cena independente baiana e agradecer pela oportunidade de falar um pouco sobre o trampo da Exo. No mais, tem muito mistério não: Fiquem ligados porque esse segundo semestre vai ser bem movimentado pra ExoEsqueleto. Vai ter disco novo, bastante shows, vídeos novos e uma quantidade bacana de conteúdo a ser produzido. É só ficar ligado na Fanpage do Facebook pra ter acesso a tudo isso. E mais, se liguem aos derivados da Exo. Cadinho vai lançar disco solo no segundo semestre, Didoné é o homem dos projetos paralelos e sempre pinta uma novidade com ele envolvido. E eu vou começar a gravar um EP solo, mas ainda não sei lançarei esse ano. Vai ser um som bem diferente da Exo e eu estou bem empolgado com mais esse projeto.
Share:

Online

Bandas

32 Dentes 4 Discos de Rock Baiano 4ª Ligação A Flauta Vértebra Aborígines Acanon Ádamas Almas Mortas Amor Cianeto André dias André L. R. Mendes Anelis Assumpção Antiporcos Apanhador Só Aphorism Aqui tem Rock Baiano Aurata Awaking Baiana System Bauhaus Bilic Black Sabbath Blessed in Fire Blue in the Face Boogarins Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes Buster Calafrio Callangazoo Carburados Rock Motor Cardoso Filho Carne Doce Cartel Strip Club Cascadura Casillero Céu Charles Bukowski Charlie Chaplin Chuva Negra Cidadão Instigado Circo de Marvin Circo Litoral Cólera Dão David Bowie Declinium Derrube o Muro Desafio Urbano Desrroche Destaques dez caras do rock Documentário Downloads Du Txai e Os Indizíveis Duda Spínola Enio Entrevistas Erasy Eric Assmar Espúria Eva Karize Exoesqueleto Festival Filipe Catto Free?Gobar Fresno Fridha Funcionaface Game Over Riverside Giovani Cidreira HAO Heavy Lero Hellbenders Ifá Incubadora Sonora Ingrena Invena Inventura Irmão Carlos Ironbound Jack Doido Jackeds Jardim do Silêncio Jato Invisível Kalmia Kazagastão KZG Lançamentos Latromodem Lee Ranaldo Limbo Lírio Lo Han Locomotiva Mad Monkees Madame Rivera Mais uma Cara do Rock Baiano MAPA Marcia Castro Maria Bacana Maus Elementos Messias Modus Operandi Motherfucker Mulheres Q Dizem Sim Murilo Sá Nalini Vasconcelos Neurática Not Names Novelta O Quadro O Terno Old Stove Olhos Para o Infinito Órbita Móbile Organoclorados Os Canalhas Os Elefantes Elegantes Os Jonsóns Os Tios Overfuzz Ozzmond palco do rock Pancreas Pastel de Miolos Pesadelo Pirombeira Pitty Portal Pós-punk Prime Squad Programas Quadrinhos Rattle Resenha de discos Resenha do cd Reverendo T Reverento T Rivermann Rock Rock Baiano Rock Baiano em Alta Rock de camaçari Ronco Scambo Show Shows Shows. Cascadura Siba Singles Soft Porn Sons que Ecoam Squadro Subaquático Super Amarelo Tangente Teenage Buzz Tentrio Test The Baggios The Cross The Honkers The Pivos Theatro de Seraphin Thrunda Titãs Tony Lopes Tsunami Universo Variante Úteros em Fúria Vamoz! Van der Vous Vende-$e Vivendo do Ócio Wander Wildner Weise Wry

Matérias

Antigas

Mais Populares