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“As Dez Caras do Rock Baiano” com Rodrigo Chagas (Sputter ou Bubute)

Chegando ao final da sua primeira fase, a série “As Dez Caras do Rock Baiano” traz em sua quinta entrevista uma das grandes personalidades já presente na cena local há muitos anos: o vocalista da The Honkers, Rodrigo Chagas (Sputter ou Bubute, como preferir). Nessa conversa, que foi uma das mais longas e intrigantes dessa série e realizada na época da volta da banda aos palcos soteropolitanos, Rodrigo falou sobre o que chama a sua atenção no cenário, o cuidado que um artista têm que tomar com a sua própria arte, como a quantidade de informação influencia no jeito raso de ser do novo roqueiro e sobre as intenções para o futuro da The Honkers, além de se mostrar como um autor de livros de auto ajuda em potencial. Você já sabe, se ajeite com firmeza na cadeira e embarque nessa entrevista dessa grande figura do rock da Bahia. 

SRP - Como foi ficar um ano longe da The Honkers? 

Rodrigo Chagas - Zorra... Normal, hehe. Cansei na sétima música. 

SRP – O que achou do retorno da The Honkers aos palcos? 

RC - Não diria que é um retorno, rsrs. 

SRP - Ficar um ano longe dos palcos traz uma percepção mais apurada sobre o cenário, o que tem te chamado a atenção depois dessa pausa? 

RC – Cara, tem coisas que parecem não mudar... Às vezes parecem piorar... Mas gostei de umas bandas feitas por uma galera nova, mas tá surgindo bandas boas, como a Teenage Buzz (gosto MUITO de umas canções dos caras, lançaram um EP superbacana... e a banda tem componentes entre 17 e 21 anos)... Gostei dos The Gins, espero ver como os caras vão soar com gravações melhores, com mais pegada, tem a Dezo e Os Dementes que vem numa evolução legal, fazendo músicas próprias com um punch da zorra, gosto muito das canções dos Jonsóns também... Com exceção d´Os Jonsons, que é feita por uma galera um pouco mais "velha", todas as bandas que citei são feitas por garotos novos... O Irish Pub tá com um som melhor, gostei de fazer som lá, mas a cidade ainda tá carente de lugares pra tocar, tanto é que antes desse show sábado passado, os Honkers só estavam tocando de graça, ou na rua mesmo, ou em praças no pelourinho. 

SRP - De fato, quanto mais o ambiente da cidade se mostra desfavorável, mais bandas de rock surgem por aqui. Será que o surgimento dessas bandas seria um reflexo das condições do lugar, uma vez que o rock também tem esse espírito de contestação, revolta e atitude? 

RC - Aí você teria que perguntar pra eles, rsrs. Creio que as bandas que eu gosto mais estão numa proposta mais estético/existencial do que política partidária... Não que isso não seja uma postura política... Tocar rock numa cidade que não te dá a mínima estrutura é ir de contra a maré, um símbolo de resistência, mesmo que seja inocente mais é... O rock tem perdido mais esse status contestador para o RAP aqui no Brasil, na Bahia... Creio que as bandas punks ainda tem essa postura política, protesto, mas creio que o a galera do gueto abraçou mais o RAP, a cultura HIP HOP. Antes era o rock, o reggae, essa música de resistência, agora tá mais ligada com o RAP, mas temo que a mídia pegue e transforme num modelo a ser vendido, como você vê nos EUA, ficou tão pop que na mídia você verá mais artistas falando de bebidas, sexo, do que igualdade social, racismo, direitos civis... Eu não sei dizer se no Brasil tá assim, porque conheço pouco o RAP nacional e a galera que eu conheço ainda é mais underground, tem essa pegada política, sobre a negritude, falar sobre o racismo implícito e explícito na nossa cidade e no país. Talvez em São Paulo esteja mais na mídia e tenha se tornado um nicho do mercado, mas não sei dizer... Até porque muitas vezes algumas pessoas pegam essa coisa do protesto e faz um modelo e quer só matar uma grana em cima... Transforma numa formula... Fico triste com isso... Porque muita gente finge estar preocupada em falar sobre determinadas coisas, dizer que está comprometida com as causas, mas na verdade só quer matar uma ponta... E que não faz um som com essa mensagem mais política direta, fica tachado de alienado... Como disse, não posso afirmar nada sobre o movimento hip hop na Bahia ou no Brasil, conheço muito pouco e posso está falando algum equívoco... Mas acho legal que aqui a galera mais da antiga do rock e do rap se dá bem e são algumas velhas caras conhecidas, camaradas, não tem essa separação, pelo menos com a galera mais velha, são amigos... 

SRP - Se vacilar a coisa toda vira artigo de vitrine nas mãos de quem pode articular o meio artístico... 

RC - Sim... É o que querem... Principalmente agora que os discos, cds "estão morrendo", você tem que criar roupas, estilos, souveniers pra encher o bolso das grandes gravadoras que estão falidas...por isso geralmente a galera que é comprometida mais com a coisa política, social, tem sua própria gravadora, é seu próprio manager... Ou é algum ligado a banda. Assim como fizeram com o punk... Embora muitos vão dizer que começou como uma moda... Não vejo exatamente assim... Sempre começa como um jeito de você querer ser do seu jeito, se expressar e colocam um invólucro e tentam vender, e ser "diferente" hoje em dia é bastante difícil... Com o advento da internet as informações se espalham muito rápido e o alternativo parece que tem uma cartilha de como se vestir, se comportar, o que ler, o que ouvir, o que assistir... Não porque você goste, tenha vontade, mas para você fazer parte de um grupo, um modelo, um estilo... Pode ver, até as pessoas que querem ser "diferentes", se vestem iguais... 

SRP - E essa disseminação da velocidade das informações pela internet traz outro agravante às novas gerações, que é a superficialidade do conhecimento. Alguém começa a escutar rock hoje em dia e não se preocupa em buscar informações da fonte dos seus artistas preferidos! 

RC - Isso é verdade, apesar de que muitas vezes a gente ouvia uma coisa de um amigo, um conhecido, uma lenda e tomávamos como verdade e depois descobrimos que não foi bem assim... Mas o que é a verdade afinal? Nem sabemos coisas do nosso passado, ou lembramos, quanto mais da vida dos outros... Mas o que mais me incomoda é que a galera fica só no raso mesmo ao invés de se aprofundar... Isso você vê na literatura, você pega um cara como Leminski, muita gente gosta, mas para nele... Pra ele chegar ao que ele fez, carajo... O homem comeu muito livro, bebeu muita cultura até onde não sabemos, mas a galera para no Leminski, o que já é bom se lessem esse com mais "seriedade", profundidade... Só ficam nas pílulas e nas frases de efeito. Hoje em dia é isso, vai no site http://pensador.uol.com.br/ e arrota o que está lá... Pior, nem arrotar sabe mais, é “control c” mais “control v” mesmo e nem sabe se a citação tá correta, hehehe. 

SRP - Voltando a The Honkers, além dos shows gratuitos, o que mais vocês andaram fazendo musicalmente? Alguém tocou algum projeto paralelo? 

RC - Bom, fora os Honkers eu tenho os Futchers, que tem o Léo Marinho que toca bateria nos Honkers também... Mas só fazemos um show por ano quando Gean (que tocou nos Honkers e é o guitarrista original dos Futchers) vem pra Salvador. Eu montei uma banda/projeto com a galera da Dezo e Os Dementes, apesar de dois membros já terem tocado comigo nos Futchers, que é o Léo (sempre ele coitado, hehehe) e Tripa 77, é a The Wild Shames, que é bem mais na praia do garage 60´s. Vamos gravar umas faixas em breve... Fizemos cinco faixas bem fodas, que não devem nada aos clássicos dos Honkers e da Futchers... Léo tá na Dezo e os Dementes... Os outros caras num sei, Pj tem tanta banda que nem ele mesmo deve saber quais que ele tem, rsrs. Falando em Pedro Jorge, estou esperando ele e Brust finalizarem as últimas faixas das doze que gravamos com os Honkers, no MD Estudio (de Léo Marinho), que vai ser um cd-demo todo produzido pelos Honkers, gravado e mixado pela gente... Espero que saia esse ano ainda... Esses guitarristas estão atrasando meu baba, até parecem que são da família Guimarães e estão atrasando meu futebolzinho de fim de semana, hehehe. Esse cd não sei exatamente se vai ser somente virtual ou se vai ser prensado, mas estamos estudando umas parcerias. Aí, você que tem um selo e quer fazer um lançamento, estamos aí... São faixas que abrangem composições entre 1999 e 2008 que nunca lançamos em cd... 

SRP - Já são 15 anos de estrada e 10 anos do lançamento do clássico baiano e mundial "Between the Devil and the Deep Blue Sea". Além do disco que está quase pronto, vocês tem planos para mais alguma investida? Como fazer algum show em comemoração ao primeiro disco da banda? 

RC- Você tem razão, apesar do primeiro disco ter sido gravado em 2001, somente foi lançado em 2003, em abril, portanto tem dez anos... Poderíamos ter feito isso no último show, né? Mas somos esquecidos... Seria legal fazer um show de graça na rua, ou na praia, como foi o de doze anos, com todo mundo podendo ir sem medo de não ter grana pra entrar... Tem que ser em outubro, sempre fazemos algo em outubro pra comemorar... SRP - Ficamos esperando o anúncio desse show comemorativo. Quer deixar alguma consideração final? RC - Não sou bom em finalizações... Mas se alguém quiser comprar algum material da banda entra em contato comigo, ainda temos cds do “Roll Up Your Sleeves And Help Us To Rock Up This Honker World”, cd original, prensado, não é cd-r, por apenas 10 pilas, 15 pelo correio para todo Brasil...aproveitem que no mercado livre tá de 70 reais, sério, procurem... Se você mora longe e não tem $$ pra comprar o que tem dos Honkers pra baixar: 
Compartilhe, divulgue, apoie sua cena local, não tenha medo em pagar o ingresso de uma banda, ela tá ali se virando pra fazer um show, em 99% dos casos sem patrocínios de cervejarias ou grandes corporações, a grana que você vai pagar, vai ajudar a banda não ter que arcar do próprio bolso os custos do show e quem sabe ter uma "graninha" pra pagar o ensaio, uma gravação e quem sabe uma cervejinha ou uma água no fim da noite... Porque todo mundo merece se refrescar... Odeiem menos, leia mais livros, veja mais filmes, ouça mais músicas, visite uma exposição bacana, não seja influenciado pela mídia, procure ouvir o que você está afim, pesquise, não vá porque alguém disse que é bacana, procure ter um pouco de gosto próprio, ideias suas, não seja apenas um papagaio de ideias, respeite a pessoa ao seu lado e as escolhas delas e você tem o direito também de ser respeitado... Vá as ruas e perceba suas esquinas, praças, pessoas, tente não ter tanto medo, apesar de toda violência que existe, há lugares bacanas para serem visitados e conhecidos, ajude a fazer um mundo mais humano e menos desigual por mais que isso pareça impossível... Faça sua parte, creio que seja isso... Fique ligado nos seus atos e não se cale quando se sentir ofendido, descriminado... Não aceite que os outros imponha sua vontade em cima da tua, reveja seus conceitos, tente ampliá-los, antes de emitir uma opinião certifique-se que você sabe do que está falando, mesmo que a verdade seja uma coisa bastante relativa... Dialogue antes de se irritar, porque como diz meu velho amigo Felipe Brust: NADA VALE O STRESS... E vamos parar por aqui, tá parecendo livro de autoajuda, hehehe.
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