Acarajé com vatapá, camarão e molho inglês.*


Tudo bem, a mistura não é tão fiel assim como o título dessa resenha sugere e não é também por conta da proibição da salada em nosso quitute mais popular. Há muito mais de molho inglês no disco de estreia da Teenage Buzz, do que qualquer outro elemento da culinária baiana que contenha dendê em sua composição. E o sabor sonoro dos rapazes é bom e faz bem para quem gosta de degustar/escutar sons vindos da terra da rainha.

Com um EP na bagagem e vencedores do concurso Desafio das Bandas, os rapazes aproveitaram a oportunidade e transformaram o que seria o seu compacto sucessor em seu primeiro disco cheio. O Generation Dreams foi gravado em takes ao vivo, dentro do estúdio e levou um pouco da vibe do palco para o registro fonográfico ao longo de suas onze faixas. Tadeu Mascarenhas e Nancy Viegas assinam a produção do cd e deram uma boa sonoridade britânica ao resultado final.

Optando por cantar em inglês, um ótimo aspecto na banda, o disco abre com Feel so Fine trilha ainda não tão britpop assim, com teclados sobressaindo bastante sobre a faixa e uma certa energia que aparece no decorrer do cd. Sleep Time tem uma levada vagarosa e começa a dar forma a esse aspecto “invasão britânica” da banda, trazendo forte influência de Beatles com bom riff de guitarra no final. Airplane aparece mais animada e entrega completamente a identidade da banda e, a partir dela, é um caminho sem volta para o universo do cenário inglês roqueiro dos anos 1990, bom solo de guitarra e final bem definido. Melancholic Drugs surge como o melhor momento do disco com mais um solo de guitarra, só que esse mais pegajoso e radiofônico, e com boas sacadas, como momentos em que alguns instrumentos não aprecem, parte mais empolgada na sequência final e o vocal chapado. A faixa título repete a alegria anteriormente vista, só que com uma pegada mais country, se tornando diferente somente pelo acordeom no final.

Green Eyes é uma balada que lembra o Blur e possui backing vocals bem construídos. Nowadays começa com uma cozinha bem bigband e se transforma em algo como Mutantes quando a guitarra entra, há umas texturas na bateria que são bem perceptíveis se escutada com atenção e a sua velocidade lembra algo bom do Supergrass. Its Up to You segue a linha veloz da faixa anterior, empolgada, com as guitarras e teclados bem colocados e com direito a final psicodélico espacial casando com Blinding Lights, que não entrega algo viajante como o seu início sugere, mas tem um swing diferente das demais músicas dando espaço para a percussão. Follow é mais uma com uma pegada country e traz uma sensação de deja vu desnecessária para o cd. Encerrando a obra, High Above Us surge totalmente acústica, com gaita e palmas, no rastro do Syd Barrett.

            Generation Dreams é um disco que agrada, porém tem altos e baixos que fazem com que se sinta uma falta de liga entre as músicas. Tem momentos em que a obra ganha uma grande personalidade, mas em outros as faixas apontam para caminhos diferentes, só que não tão distantes, e que seriam melhor aproveitadas em outras ocasiões. Acho que seja mais uma questão de maturidade musical, que por sinal vem sendo desenvolvida ao vivo nos seus mais recentes shows. Para quem gosta de britpop é uma boa pedida e para quem não gosta, passe longe. É um álbum alegre e com uma certa fervura que diverte, mas que será maturada em seu próximo passo.

*Matéria originalmente publicada em 22/12/2015.
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