Pular para o conteúdo principal

Baianofornicação.*


Pode até não parecer, mas o título acima se refere muito mais a série de TV Californication (estrelada pelo David Duchovny, o agente Fox Mulder, de Arquivo X), do que com o título do álbum da famosa banda californiana. Tem muito do som dos californianos dentro das canções do quarteto baiano? Estaria mentindo se dissesse que não, mas assim como no estado da Califórnia, a Bahia tem as suas aventuras e desventuras como as mostradas na série norte americana e que ocorrem a todo instante em localidades litorâneas como a nossa e que se sobressaem aqui neste registro com muita evidência.

Essas situações não passaram despercebidas pelo disco Modo Hard, da Circo de Marvin. Lançado no ano passado, o cd levou o grupo a tocar em vários lugares, inclusive em dois festivais baianos, o Palco do Rock e o Rock Concha, mostrando nos dois uma boa presença de palco. Além disso, o som dos rapazes caiu nas graças do produtor Rick Bonadio (sinceramente, não tenho certeza se isso é uma coisa boa), que teceu publicamente comentários positivos sobre a sua música e seu visual. Há muito mais no som dos caras do que foi afirmado pelo produtor no vídeo, que deve ter percebido isso quando o disco chegou em suas mãos.

A obra começa com a faixa título mostrando muito groove, com uma linha de baixo que foi beber na fonte do funk, em Foi Mal há uma velocidade foofighterniana e variações dançantes antes de chegar no refrão, além de contar com a participação especial do Away de Petrópolis no fim. Caroline narra uma boa história sobre sair da monotonia no meio da madrugada com uma garota que lembra a Sasha Grey, sob uma trilha sonora sinuosa e swingada. Essas Garotas é uma das melhores faixas do álbum, radiofônica, com ótimo refrão e bons solos de guitarra. Leve é uma balada que não funciona muito bem no contexto do álbum, mesmo com um refrão esforçado e em Novo Fim há trechos que lembram uma canção da Scambo, mas tem bons efeitos na voz e refrão grudento. Liquidação é um ataque ao capitalismo e como isso atinge o indivíduo, talvez seja a única faixa que lembra bastante o Red Hot Chilli Peppers de fato. O Mundo não Sorri pra Gente como Eu tem introdução de baixo interessante e boa sacada nas vozes dos personagens do texto narrando situações extremamente adversas do cotidiano.

A faixa Só que Não é mais um ponto alto do cd, com levada pop de guitarra influenciada pelo John Frusciante, de cozinha conversando bem entre si e com letra para o cidadão dedicar para aquela pessoa que acha que te faz de otário. Você Me Fudeu é a balada que funciona no disco e fala das vantagens em reatar um relacionamento por motivos especiais, mesmo depois de experimentar uma fossa pesada e com um bom refrão. Tem até violino no final! Vai Lá tem uma pegada inquieta e dá um destaque maior para a bateria e Química é uma ótima trilha com mudanças de andamento no refrão, bom solo de guitarra e uma forma inteligente de falar sobre uma musa. Filme da Vida é uma faixa acústica que encerra o cd contendo uma letra reflexiva sobre a vida.

Modo Hard é um disco bem gravado, porém de alto e baixos, mas com boas soluções para não sair do trilho da sua personalidade musical. O perfil comercial do conjunto é explicito e isso não é demérito algum, muito pelo contrário, ser uma banda pronta para atender as exigências do mercado é muito positivo para quem faz parte dela, para quem quer avançar o seu território e para a cena. Para quem gosta de um som com pegada groovada e pesada nos momentos certos e cantando histórias de um cotidiano agitado, se jogue. O Hank Moody ouviria em seu conversível.

O site da Circo de Marvin: http://www.circodemarvin.com.br/



*Matéria originalmente publicada em 03/02/2016.

Popular Posts

O melhor do que eu não escrevi no Portal Soterorock em 2018. Por Leo Cima.

Neste ano de 2018 o Portal Soterorock resolveu tirar alguns dias de folga. Algo próximo a trezentos e sessenta e cinco dias, quase um ano, é verdade. Porém, é fato que, depois de dez anos cobrindo a cena roqueira local, com textos ou podcasts, sem incentivo financeiro algum, o site decidiu que seria o momento certo para dar um tempinho nas atividades daqui, para priorizar e atender a outras demandas não menos importantes. Mas, mesmo distante das publicações, nos mantivemos atentos ao movimento do cenário, observando quem se manteve atuante, seja em estúdio, ou nos palcos.
Muita coisa aconteceu este ano na cena rocker da Bahia, desde discos lançados até uma boa frequência regular de shows na capital baiana, mesmo com um número cada vez menor de casas que recebe o gênero por aqui. E é esse segundo item que ganhará destaque aqui nesta matéria, em uma outra oportunidade falarei sobres os lançamentos baianos de 2018, vamos com calma. O fato é que, fazendo visitas a eventos, seja como um pag…

Série “As DEZ Caras do Rock Baiano” - Com Caroline Lima, (Voz na Chá de Pensamentos), apresentando "Kansu" o seu mais novo projeto!

A série “As 10 Caras do Rock Baiano” traz desta vez Caroline Lima, integrante do projeto experimental de música e arte Kansu Project , duo que conta também com Sérgio da Mata dividindo as composições. Na última quinta feira (28/03/2013), ás 22:30, foi lançado na página da Kansu Project no facebook o remix de “A Little Bit of Me”, seu primeiro single e, nesse ótimo papo descontraído e espontâneo, Caroline nos falou sobre o interessante processo de produção e gravação das músicas da dupla, suas influências e suas impressões sobre a cena local. Então se ajeite em sua cadeira, aproveite a entrevista, dê um curtir na página do grupo e “FEEL FREE”. 
SRP – O que é a Kansu Project, é um duo? E o que sgnifica? 
Caroline Lima - É um duo sim. Sou eu e Sergio da Mata, meu amigo de adolescência. Sobre o significado... foi a junção dos nomes de personagens de livros que escrevemos em 2002, também é o nome de uma província da China e o nome deriva desse idioma...alguns traduzem como "orquídea&quo…

“As Dez Caras do Rock Baiano” com Rodrigo Chagas (Sputter ou Bubute)

Chegando ao final da sua primeira fase, a série “As Dez Caras do Rock Baiano” traz em sua quinta entrevista uma das grandes personalidades já presente na cena local há muitos anos: o vocalista da The Honkers, Rodrigo Chagas (Sputter ou Bubute, como preferir). Nessa conversa, que foi uma das mais longas e intrigantes dessa série e realizada na época da volta da banda aos palcos soteropolitanos, Rodrigo falou sobre o que chama a sua atenção no cenário, o cuidado que um artista têm que tomar com a sua própria arte, como a quantidade de informação influencia no jeito raso de ser do novo roqueiro e sobre as intenções para o futuro da The Honkers, além de se mostrar como um autor de livros de auto ajuda em potencial. Você já sabe, se ajeite com firmeza na cadeira e embarque nessa entrevista dessa grande figura do rock da Bahia. 
SRP - Como foi ficar um ano longe da The Honkers? 

Rodrigo Chagas - Zorra... Normal, hehe. Cansei na sétima música. 

SRP – O que achou do retorno da The Honkers aos pa…