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Como um deus do trovão.*


Na quinta feira do dia 15/09/2016, Salvador recebeu o show de um dos nomes mais importantes do mundo dentro do gênero rock. Lee Ranaldo, ex-guitarrista e também um dos ex-vocalistas da agora extinta e lendária banda norte-americana Sonic Youth, deu o ar de sua graça em terras baianas, findando por aqui a sua mais recente turnê acústica, na qual se apresentou sozinho, sem acompanhamento de um conjunto. Um formato, no mínimo, curioso, que chama a atenção, vindo de um artista que está acostumado a ser associado a guitarras e distorções vibrantes. De qualquer maneira, esta é uma figura que merecia ser recebida pelo público local, sendo ele conhecedor, ou não, de sua história.

O lugar escolhido para a apresentação foi o Cine Teatro Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, local que ainda não conhecia e que me surpreendeu logo de cara pela sua boa acústica e acomodações. Mas antes mesmo de entrar, a atmosfera em torno do teatro estava tomada por uma grande expectativa sobre o show. A grande maioria que chegava conhecia o músico e sabia da sua importância e colaboração para o gênero no qual fez carreira, e que ainda se debruça para realizar o seu trabalho solo. Muito encontro entre amigos, muito papo leve em uma noite sem nuvens e de brisa leve prepararam o público para ação que estava por vir e que iria fazer muita gente tirar o chapéu para o guitarrista.

Quem entrou logo, pegou um bom lugar para assistir ao espetáculo. Enquanto o povo ia se acomodando nos acentos, um vídeo feito pelo próprio musicista estava sendo exibido como forma de abertura de seu som. Nele, imagens dos lugares por onde ele passou com a sua turnê e com uma trilha sonora na melhor linha instrumental sonicyouthiana que amaciava os ouvidos daqueles que se encontravam dentro do recinto. É certo que foi um pouco longo demais, mas serviu para aumentar a expectativa para o início da apresentação. A tela de projeção subiu e em mais alguns segundos Lee Ranaldo entrou no palco caminhando direto para o seu banquinho, acenando para a plateia calorosa. De onde eu estava, dava para ver alguns pedais ao alcance dos seus pés, o que me levava a crer que, mesmo com o formato acústico, algumas coisas não foram deixadas para trás.

Acima de qualquer coisa, o Ranaldo fez um show de muita personalidade. Ele pode ter frustrado os mais desavisados, mas não foi novidade o fato dele não tocar músicas da sua antiga banda nesta turnê. O seu repertório foi composto em sua maioria por composições novas, que provavelmente estarão no seu próximo disco, e teve ainda duas ou três canções de seus trabalhos lançados pós-Sonic Youth, além de um cover do Velvet Underground no bis. Durante a apresentação de uma hora e meia, ele conversou com o público entre algumas canções, contou histórias sobre a origem de boa parte delas como em Thrown Over the Wall, feita com um de seus parceiros recorrentes, na qual foi dito a ele que se “caso o Donald Trump vencesse a eleição nos E.U.A., esta seria a canção da revolução”.

Aliás, “golpista” foi a única palavra em português que ele citou, mostrando saber um pouco da situação política do país, e ainda deu bronca em um grupo de pessoas que insistia em conversar tão alto no lado direito da plateia, mas pediu desculpas logo em seguida por ter sido rude, nas palavras do próprio. Mas estava incomodando mesmo. Um dos pontos altos dessa apresentação foi a gama de possibilidades que ele mostrou ser possível sobre o uso de um instrumento, o violão, no caso. Se enganou quem achava que ia ver uma performance intimista e sem graça. O que Lee Ranaldo fez com os quatro violões que usou durante todo o show foi de deixar cada um que lotou o espaço boquiaberto e hipnotizado pelo incrível som que ele conseguia extrair de cada um deles.

Só ali, naquele espaço de tempo, foi mostrado os longos anos de experiência e intimidade que ele criou com sua ferramenta de trabalho, com o experimento com pedais diversos, achando o ponto de distância e posição exatos que ele apontava o violão em direção ao seu amplificador na medida exata para ter a microfonia desejada, tudo aliado à sua técnica ímpar. A cada pisada em um pedal (eram uns quatro ou cinco que usava) era um estrondo que ecoava pelo silencioso e atencioso teatro. Como um deus do trovão ele tinha o controle total sobre o que fazia, na música que ele executava diante dos nossos olhos e, no mais improvável e incrível som que se poderia tirar de um violão, ele surpreendia cada vez mais, sendo direto e objetivo descendo a mão nas seis cordas, ou sendo um viajante psicodélico usando efeitos na voz ou utilizando vara de violão cello para esticar notas. Era difícil não vibrar ao final de cada música e saudar o desempenho do musico.


Ao terminar o show, muitos se dispersaram para suas casas por conta dos seus compromissos do dia seguinte. Eu havia sido avisado por um amigo de muitos anos, e que viu um show dele em uma outra oportunidade, de que o Lee Ranaldo normalmente circulava entre o público depois de suas apresentações e que é muito receptivo com seus fãs. Sempre fico reticente em chegar até alguém que admiro, por achar ser inconveniente, ou pelo artista poder ser azedo. Mas no momento em que o vi no meio do povo, ficou comprovado tudo o que o meu amigo havia dito sobre Lee Ranaldo. Um artista simpático, sorridente, atencioso, solicito, bem-humorado e carismático. Disposto a falar com qualquer um que chegasse até ele e dar um simples aperto de mão.

Não me arrependo de ter tietado ele! Tietei sim, bati foto ao seu lado, consegui autógrafo na contracapa da contracapa do meu Washing Machine, trocamos uma breve ideia e voltei bem feliz para casa ao lado de dois dos meus grandes amigos conversando e gargalhando como fazemos isso há mais de vinte anos juntos. Esse dia 15/09/2016 foi especial e bem agregador para a cena com essa realização da Lo Fi Produtora. Tão especial assim que, no mesmo dia, a Kim Gordon lançou o seu primeiro single da sua carreira solo pós-Sonic Youth na web (chupa Thurston Moore). E Steve Shelley, dê as caras da próxima vez.


*Matéria originalmente publicada em 23/09/2016.

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