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Como uma força da natureza.*


Salvador, meio de semana. Uma quinta feira com cara de quase final de semana, um início de noite levemente chuvosa na capital baiana e jogo da seleção brasileira contra a seleção da Bolívia pelas eliminatórias. Então o negócio era ficar em casa, certo? Negativo! A resposta é um não bem redondo, pois na cidade estava por acontecer o evento Noites de Radioca, no qual a aguardada grade da segunda edição do Festival Radioca, que acontece em dezembro, seria anunciada e, que traria como atração musical os sergipanos do The Baggios para esta ocasião. E se engana aquele que pensa que o nome da dupla tem relação com copa do mundo.

Na chegada no Portela Café dava para ver que o lugar estava cheio e fervilhando por uma boa noite de rock. Muita gente curiosa para saber das atrações do evento e arrisco em dizer que a mesma quantidade de pessoas ansiosas para ver a banda de perto novamente por aqui. Na casa, o dj El Cabong mandava temas da nova MPB e do rock baiano e nacional, enquanto algumas pessoas dançavam, bebericavam e conversavam sobre bateria. O papo é bom quando se juntam despretensiosamente quatro a cinco bateristas de uma vez só e eles conversam sobre o melhor instrumento do mundo (os outros também são ótimos, mas nesse momento não tenho como dizer o contrário, ok?!)

Anunciadas as atrações do festival com um vídeo bem criativo, que foram Josyara (BA), Retrofoguetes (BA), Jards Macalé (RJ), Karina Buhr (PE), Giovani Cidreira (BA), Carne Doce (GO), Aláfia (SP) e Dona Onete (PA), a The Baggios subiu ao palco para fazer o show de estreia da turnê do seu excelente e novíssimo álbum, Brutown. Na estrada há bastante tempo e bem calejada de apresentações, o duo sergipano, formado por Júlio Andrade e Gabriel Perninha, começou a sua apresentação acompanhado do tecladista Rafael Ramo com três canções conhecidas do bom público presente (uma delas foi O Azar Me Consome) arrebatando mentes de quem colava próximo ao tablado para vê-los. De cara foi mostrado que os rapazes estavam com vontade de fazer rock, bem à vontade na casa e isso foi percebido por uma audiência atenta e receptiva, que assistiu muito empolgada a sua performance do início ao fim.

Não demorou muito e eles começaram a mostrar as suas novas canções e como elas funcionam ao vivo. Brutown foi uma das primeiras a ser apresentada, assim como Medo, que teve direito a um bom duelo entre a guitarra e o teclado nela. Sangue e Lama com sua letra relacionada as tragédias ocorridas no distrito de Bento Rodrigues, na cidade de Mariana (MG), e na boate Bataclan (Paris) ganhou uma ótima roupagem ao vivo, com timbre de guitarra bastante fiel ao disco, assim como o som volumoso da bateria. Sem Condição empolgou e Esturra Leão empolgou mais ainda, ganhando uma versão mais esticada com a ajuda da plateia.

O final ficou por conta da versão deles para uma música do Alceu Valença, Vou Danado Pra Catende, com um clima mais psicodélico, porém ainda com energia e mais fôlego. Sendo essa a minha primeira jornada de perto com a banda, foi bom escutar um som encorpado e pesado ganhando mais volume na sua execução, com boa sonoridade e entrosamento. Uma música extremamente bem tocada, empolgante e visceral, tendo no desempenho do grupo alguns momentos de bom diálogo musical improvisado e de um certo mistério quando o chapéu do seu frontman caia sobre os seus olhos. Foi como uma força da natureza!

Terminado o show, o evento retomou o som que saía das pick-ups como acontecia no início da festa. Muita gente foi conferir os rapazes e muita gente continuou na casa para aproveitar como podia o resto da noite, bebendo um pouco mais e conversando um pouco mais, ainda na vibração do momento. Voltei para casa torcendo para que a seleção tivesse perdido o jogo, seria melhor. Mas não, ganhou de goleada. De madrugada teve até relâmpago e trovoada, mas nada mais sonoro do que a The Baggios.


*Matéria originalmente publicada em 09/10/2016.

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