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Dentro dos Olhos da Noite.*


          Nesse último final de semana aconteceu o Festival Big Bands, um dos principais festivais de música rock do estado da Bahia e, talvez, muito provavelmente, um dos mais significantes do Brasil. Essa foi a sua sétima edição e contou com três dias seguidos de muito som diferente dentro dessa vertente cada vez mais forte no cenário independente local, começando em uma quinta feira com duas bandas e cessando no sábado com oito grupos.

            O evento teve um longo aquecimento que o precedeu. O Warm Up: Big Bands foi uma série de shows com bandas locais e de outros estados que ocorreram ao longo do ano e serviu para instigar bastante a cena e trazer à tona bons nomes como Declinium, Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes, Van der Vous, Wander Wildner e Wry!, isso só para citar alguns. Somado ao principal que aconteceu, o Big Bands foi um grande evento que tende a se repetir em mais edições, sempre trazendo atrações que valem muito a pena de serem vistas.

            Além dos conjuntos, havia também a já tradicional banquinha com discos de grupos independentes e camisetas do evento, uma boa promoção de cds usados (quem chegou cedo aproveitou muito bem a liquidação), um estande da Dipapel Ateliê, com diversos produtos feitos em papel (como bloco de notas, cadernos e enfeites de natal, sendo todos feitos a mão), além de imãs para geladeira e copinho em formato de caveira, teve comida vegana com a B-Vegan! e vendas de pedais e amplificadores para guitarra com a Voodoo Hand. Na banca, ainda foi distribuído gratuitamente o jornal paraibano Microfonia, com boas entrevistas com bandas gringas e nacionais, além de interessantes resenhas de discos, de filmes menos acessíveis ao grande público, de filmes pornôs (sessão “Atrás da Porta Verde”) e dicas de bons lugares para visitar no exterior (sessão “Alta Fidelidade”).

Na primeira noite, duas bandas deram o início as atividades. A primeira foi a Modus Operandi e em seguida a pernambucana Vamoz. Acima de tudo, acredito que a Modus Operandi é uma banda divertida e ela fica muito mais divertida ainda e prazerosa de se escutar quando você conhece mais afundo o seu som, quando você se familiariza mais com a proposta musical do quarteto. Quebrando sempre essa coisa rígida de que “tem que ter guitarra” em uma banda de rock, o conjunto sempre surpreende a quem não conhece o seu som, criando o caos poético e existencial da sua música e do seu texto, com todos os recursos que eles dispõem no palco. A percussão com furadeira, correntes, placas velhas e botijão vazio junto com as faíscas que todos os itens produzem juntos ao ter atrito, deram uma atmosfera sombria e quente para a noite dentro do Dubliners Irish Pub.

O sintetizador e a voz raivosa de Davi, e a cozinha pós-punk gótica e industrial deram um tom mais forte as músicas já conhecidas por muitas pessoas aqui na cidade. Um dos pontos altos da apresentação foi a nova canção Barbárie, que tem uma letra de cunho social forte e que mostra a realidade nua e crua dessa cidade. Canção de Ninar e Vazios de Palavras e Instintos foram mais dois bons momentos da performance. Entre uma música e outra, os integrantes falavam com os presentes e ao final, ganharam mais um tempinho a pedido do público e tocaram mais duas canções. Ótimo show, ótima presença de palco e um turbilhão musical urbano provocativo que poucos sabem fazer.

      Encerrando a noite, subiu ao palco a Vamoz (PE), que há muita tempo não se apresentava em terras baianas. Acho que tem uns nove ou dez anos que eles não se apresentam por aqui. Batendo um papo com o Marcelo Gomes (vocal/guitarra) soube coisas interessantes sobre o grupo como o fato do primeiro show da história da banda ter sido aqui em Salvador, sobre a origem da capa do seu primeiro disco e sobre a curiosa história dele ter encontrado alguém vendendo o To the Gig... On the Road como um cd importado na internet. Soube por ele também que a banda parou por um tempo e que retornou nesse ano com uma nova formação, como um power trio tradicional (antes eram duas guitarras e uma bateria). Com a conversa boa atualizada, era hora de ver os rapazes e tirar o meu atraso de quase uma década (não pude ver o show anterior deles por aqui há anos atrás). E foi ótimo!

           Som bem equalizado e as músicas da banda mais bem encorpadas, a introdução do baixo no conjunto preencheu bem as canções. Isso ficou bem claro em Beside, do seu primeiro disco, e na novíssima Worried Man. Show empolgado com sonoridade impactante, forte, volumosa e pegajosa, com direito a versões de Neil Young e Joe Spencer Blues Explosion. Para quem gosta de bandas como Dinosaur Jr. e Hüsker Dü foi um prato cheio, até porque o som foi executado com muita personalidade e isso fez o diferencial na apresentação do trio. Na medida do possível, o vocalista falava com o público local, agradecia aos presentes e a equipe de palco pelo suporte. Foi uma excelente apresentação de fechamento da primeira noite do Big Bands. Tirei o meu atraso e o peso do meu débito com a banda das minhas costas. Momentos nostálgicos passaram pela minha cabeça quando os rapazes tocaram os temas do seu primeiro cd, mas foi muito melhor curtir o som deles agora!

Infelizmente não pude comparecer a segunda noite do evento, portanto, ficam aqui as minhas considerações às bandas Ivan Motosserra, O Lendário Chucrobillyman e Les Royales. Tenho certeza que a música instrumental, a criatividade, a surf music e o rockabilly comeram no centro do Irish Pub na sexta feira. A terceira noite foi a mais longa da festa e também a mais pesada, com a predominância significativa do metal no lineup. Houve espaço para estilos diferentes, mas não tão distantes do peso. Começando as atividades, se apresentou a feirense Erasy. Com um doom metal pesado, a banda se saiu bem em sonoridade, tocando para um lugar ainda vazio. O clima foi de rock arrastado e soturno, de riffs pesados e de referências que vão de Eyehategod à Black Sabbath, sem deixar de fora os sons de outras bandas da cena de New Orleans, como Down e Crowbar. Para quem gosta da mistura desses elementos, foi um prato cheio. E cheio foi o copo gigantesco de cerveja do seu baterista, que vez ou outra se levantava, segurava o copo com a mão aberta (de tão grande que o copo era), fazia uma saudação e dava um bom gole demorado, para depois voltar ao instrumento. Abriu bem a noite.

Depois, eles deram lugar para a Aphorism, banda local que vem se destacando pela qualidade dos seus shows e pelo seu recém lançado segundo disco. Execução impecável do conjunto, com os músicos mais empolgados do que na primeira ocasião que os vi. Vocalista passando a agressividade da música de forma ideal na voz, os guitarristas tirando os sons das músicas do seu cd de forma fiel e cozinha afiadíssima, ou seja, baixista nervoso e baterista animal. Foi como ver uma pintura viva, sonora e hipnotizadora de um sludge-grind-death bem pintado. Muita gente não sabia se bangueava, ou se via os caras tocando. Não decepcionou e foi uma das melhores apresentações da noite. Em seguida subiu ao palco o duo de death-black-grind metal Test. Uma das mais esperadas atrações do evento, mandou muito bem mesmo tocando sem a sua famosa Kombi. Para quem não sabe, a dupla monta shows na rua, ao lado do seu veículo e vem chamando a atenção pela sua música e sua atitude. 

Som brutal de primeira, com uma guitarra pesada e seca, vocal gutural e sujo, baterista desafiando a velocidade da luz só com dois pratos (um ataque e o symbal, ambos visualmente castigados) fazendo um som que empolgava quem assistia. Nesse show teve a roda de pogo mais doida que já vi, com gente procurando o par da sandália que perdeu no meio do salão, gente com mão sangrando, um dançando polca, outro sendo carregado e isso até chegar as vias de fato e a coisa não parar mais. A banda atendeu bem as expectativas de quem a esperava e segue nordeste acima para continuar a sua terceira turnê no ano. A primeira foi na Europa no início do ano e a segunda foi nos E.U.A., em setembro.

Em seguida, foi a vez da Ironbound (Alagoinhas), fazendo um trash metal mais tradicional e veloz, com os integrantes se divertindo em tocar ali. Eles começaram tocando para pouca gente dentro do lugar, mas a apresentação foi crescendo de tal forma que até quem estava parado foi para o meio da roda. Quem estava lá fora e se tocou que havia uma banda mandando ver do lado de dentro, entrou rápido para ver o que estava acontecendo. Só que entrou tarde, já quase no final da apresentação. Quem viu, viu e quem perdeu, perdeu. Destaque para os bons solos de guitarra do grupo! A quinta banda a se a presentar foi a Antiporcos, e foi nessa hora que a festa começou a se diversificar em termos de som. Fazendo um punk rock e hard core mais seco e direto, o conjunto usou elementos interessantes como percussão para abrir a sua apresentação e chuva de papel, fazendo referência a torcida nos estádios. Foi a performance mais rápida da grade e usou novamente os tambores para tocar algumas de suas músicas e encerrar com um samba reggae ao fechar das cortinas.

Também de Feira de Santana e uma das mais ativas da cena baiana, a Novelta trouxe o seu stoner rock mais uma vez para o Big Bands. Uma banda bem calejada da estrada que tanto percorreu este ano não poderia fazer um show ruim, e não fez. Mais pesados e entrosados, o som ficou mais encorpado, com as guitarras em bom volume e com o baixista descendo a mão no seu instrumento com vontade. A voz um pouco rouca do seu vocalista não atrapalhou em nada a performance do conjunto e deu um ar mais descontraído ao momento. Boas passagens como em Êxodo, Ancorado, Santa Poeira e Um Espelho chamaram a atenção. Encerraram a apresentação com o baixista Cadinho (Du Txai e os Indizíveis, Cascadura) fazendo uma participação especialíssima, isso sem antes o vocalista Wendell Fernandes ajeitar o seu penteado que estava bagunçado. E é bom deixar registrado aqui a compenetração do baterista do grupo. Concentrado, não errou uma virada sequer! Os rapazes mandaram bem.

Mais uma de Alagoinhas, a Limbo trouxe um som original para o festival. Estava curioso para conhecer o som da banda ao vivo e estava com uma expectativa boa para ela, pois muito foi falado sobre o grupo e o seu trabalho de estreia foi bem gravado. Banda de muita referência indie noventista, com um pouco de introspecção e interpretação musical dramática, com peso na medida certa (que nem as bandas inglesas do final dos anos 1990 e início dos anos 2000) e psicodelia nas passagens necessárias. Eles tocaram temas longos bem interessantes, porém, cansativos naquele instante, depois de muitas horas vendo um show atrás do outro. A última mesmo foi uma bela canção, mas parecia interminável. A versão de Sou Neguinha?, do Caetano Veloso, ficou muito boa. Composições bem feitas, um backing vocal totalmente imerso na música da banda e o entrosamento dos músicos foram aspectos positivos nesse contato imediato do terceiro grau com os alagoinhenses.


Encerrando o festival ainda tinha a HAO, com o seu grunge flamenco capaz de abrir portais dimensionais para viagens no tempo. Só o que eu não tinha mais era gás, o cansaço chegou forte. Assim que a penúltima atração acabou de se apresentar, o dj da casa tocou Comfortably Numb e esse foi o sinal para bater em retirada. Portanto fica aqui mais uma sincera consideração ao grupo e espero que tenham feito uma boa apresentação.

Foi uma jornada pesada, mas bem interessante, com boas bandas e uma boa organização. Muito pude ver além das atrações, como bons papos, boas risadas, belos sorrisos, coisas hilárias e outras nem tanto, e uma significativa quantidade de gente prestigiando a festa. Até o John Travolta “perdido” e “indiferente” foi visto no meio das várias rodas de pogo durante o evento. Uma joia! Dentro dos olhos da noite você pode ver acontecendo é coisa! Mais uma vez o rock baiano foi celebrado e recebeu de braços abertos os visitantes, com o Big Bands se firmando mais no cenário independente nacional e caminhando para a sua oitava edição. Se ligue que o rock na Bahia está acontecendo, e sem parar.


*Matéria originalmente publicada em 07/12/2015.

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