Há rock em cada canto dessa cidade.*


            Em qualquer canto dessa cidade se pode encontrar o rock acontecendo. Vire uma esquina e você provavelmente irá se surpreender com uma garagem barulhenta, ou com um som na porta de uma casa com alguém dedilhando um violão Tonante, ou até mesmo em uma praça - pode ser varanda também -, com amplificadores a todo volume jorrando rock'n roll gratuitamente para quem quiser chegar, ficar e curtir essa música. Esse talvez seja um quadro do que acontece em inúmeros bairros da capital baiana, mas é uma pintura perfeita de como isso ocorre na cidade baixa.

            Neste último sábado aconteceu no Largo da Madragoa, na Ribeira, um evento que misturou rock e artes visuais. Intitulado Box Galeria, o projeto tem um caráter itinerante que percorre bairros periféricos de Salvador, levando galerias de pinturas e fotografias dentro de contêineres para essas áreas, diante do fato de Salvador possuir poucas galerias de arte. Com a curadoria dos artistas Mario Britto e Dervanier Hembadoom cada exposição terá relação com o local onde ela se encontra e, além da Ribeira, Cajazeiras, Plataforma, Cabula e Liberdade estão na relação de bairros por onde o projeto passará. Portanto, se a exposição ainda não visitou seu bairro neste mês, fique atento.

            O final de tarde na Madragoa estava calmo, com pais brincando com seus filhos e os costumeiros vendedores autônomos montando suas barracas. Nada fora do normal! Brinquedos desmontados de um parque de diversão que estavam espalhados pelo largo e bastante folha seca no chão contribuíram para o cenário, que mais lembrava algo pós apocalíptico psicodélico de cores desbotadas. Meio fora do normal, meio. O fato é que o som já estava sendo passado e tudo caminhava para começar na hora marcada. Antes, houve tempo para organizar um cálculo matemático de custo e de relembrar uma figura carimbada do rock da península itapagipana, que quase ganha status de lenda local se não fossem relatos de avistamentos recentes dessa tal figura. O mundo deveria conhecer Cabelo!

            Começando realmente na hora marcada, a Kalmia foi a primeira a se apresentar. Havia um bom tempo que queria ver uma apresentação dessa banda que, em proposta de formação, é feita por um homem só, mas que atua com formações distintas de acordo com a disponibilidade de seus parceiros musicais. Como frontman, fundador e principal componente do grupo, Diogo Carvalho tem se apresentado há um bom tempo com os músicos dessa ocasião. O show foi de uma banda bem entrosada e bem ensaiada, bastante segura do seu hard core e do seu crust core de guitarra rápida e de uma cozinha que não perde o fôlego. Foi uma performance rápida que não deixou a desejar a ninguém. Em tempo, a canção Jovens Negros em Extinção é um clássico da cena roqueira soteropolitana e traduz bem a tensão que existe na letra.

            Depois deles a veterana Pesadelo tocou o seu punk clássico para quem já se encontrava no local. A apresentação não começou muito bem por conta de ajustes técnicos do som que foram acertados lá para a quarta música do seu repertório. Com velhas canções no seu setlist, o quarteto foi ficando mais a vontade, com o seu vocalista tendo uma boa presença de palco. Algumas rodas de pogo foram formadas, mas sem tanto entusiasmo da platéia. O show dos rapazes se estendeu um pouco alem do que se esperava, porém, foi nesse momento em que as figuras típicas que sempre marcam presença nesses acontecimentos resolveram dar as caras. Moradores de rua atordoados com o barulho, transeuntes curiosos e sarcásticos, tiozinhos que não liberam uma bombinha alcoólica no final do dia e os indispensáveis vezeiros "trouxe os instrumentos pra ver se a minha banda toca também, mas vamos ver se vai rolar" deram o ar de suas respectivas graças.

            E foram esses últimos que surpreenderam. De última hora, a banda Insólitos do baixista Cabelo, também iria se apresentar. Mas e Cabelo? Vai tocar? Não vai tocar? De repente houve uma expectativa de minha parte e de outras pessoas para ver se isso iria acontecer. Fiquei no aguardo, mas não aconteceu. Ele não surgiu e o motivo para isso permaneceu um mistério, alimentando ainda mais a figura do mito do rock soteropolitano e itapagipense. A banda tocou sem ele e se saiu bem. Para minha surpresa, o trash/death de vocais guturais bem cantados e de guitarras pesadíssimas chamou a atenção e elevou os ânimos de quem considerava a festa terminada e prolongou a folia por mais alguns bons minutos.


            As dez horas da noite se aproximava e era o sinal para pegar o caminho de volta para casa. A caminhada era longa e não seria uma boa ideia ficar um pouco mais pelas ruas como em outrora. No caminho, uma briga de trânsito de proporções épicas causou um engarrafamento gigantesco em uma das vias principais da cidade baixa, que me fez esperar de longe pela polícia para acalmar os ânimos dos gladiadores, para, assim, continuar a minha caminhada sem ganhar um soco de brinde. Já as transversais eram o oposto, cada vez mais vazias sombrias e sem empolgação, bem diferente de outros momentos, de outras épocas mais vívidas. É o sinal dos tempos. Ainda se pode encontrar alguém dedilhando um bom rock em um Tonante pelas ruas da cidade baixa, mas quem se arrisca, atualmente, a fazer isso até depois da meia noite? Foi-se o tempo.


*Matéria originalmente publicada em 26/10/2015.
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