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Portais dimensionais e o rock dentro e fora da galáxia.*


Sábado passado foi mais um dia de rock no Pelourinho com as bandas The Honkers e HAO, mais especificamente no Largo Pedro Arcanjo e com entrada gratuita. O Pelô sempre tem rendido bons momentos para o rock local, dando opções na agenda da cidade para quem gosta desse tipo de música. Opção tanto para o lugar e opção para ver boas apresentações dos grupos locais.

O centro histórico estava bem agitado nessa ocasião. Muita gente circulando no Terreiro de Jesus e as demais ruas com uma movimentação típica de final de semana. Muito som acontecendo nas outras praças, mas o que interessava mesmo era a que estávamos nos dirigindo e que estava prestes a acontecer. Mal foi o acesso ao largo e em dez minutos a The Honkers começou a sua apresentação, como sempre, insana.

Já escrevi bastante sobre os caras por aqui, mas o fato importante de ser citado é que parece que, mesmo com dezessete anos de idade, o conjunto parece que está em início de carreira. Com um baterista substituto (Rodrigo Gagliano tocou no lugar do Tripa TP, pois ele teve que viajar), a The Honkers foi explosiva do início ao fim, tocando as músicas já muito conhecidas de público local. Das mais agitadas até as mais leves, o vocalista Rodrigo Sputter não parou um segundo fazendo as suas estripulias mirabolantes, como botar o microfone dentro da cueca, lamber o sapato e a guitarra de um dos guitarristas, fazer a sua performance epiléptica em This is an Old World e realizar um pole dance no corrimão da escada de acesso ao palco (com direito a projeção da própria sombra na parede, que ajudou a quem não pôde vê-lo fazer isso atrás das PAs). Devil Girl, People Love to Hate e Where do I Go? tiveram uma energia diferente naquela noite. Foi um ótimo show, com o baterista dando uma pegada diferente e forte para as canções e com toda a banda, literalmente, suando a camisa e deixando muita gente satisfeita no final da performance.

Depois deles, a HAO subiu ao palco para se apresentar e ela tinha um pequeno desafio na noite, que era o de manter o clima bom que a banda anterior deixou no lugar. Não é fácil fazer um show de rock depois de uma apresentação como a da The Honkers, mas é possível sim e eles fizeram o dever de casa. A HAO é um grupo jovem e tem como influencia forte na sua música o rock noventista norte americano, porém com alguns elementos diferentes. A introdução do show teve um instrumental com saxofone e swing, e se seguiu por Groova Lua, uma das canções do seu mais recente EP, A Imoralidade das Rosas. Teve muito violão duelando bem com a guitarra, música flamenca, efeitos bem utilizados na voz, bateria e baixo bem entrosados e banda bem entrosada. E esta foi a base da apresentação, com quase todas as músicas do seu último trabalho sendo executadas e algumas do seu debut, deixando o Largo Pedro Arcanjo com cara de Seattle-Califórnia-Salvador no início dos anos 1990.

Foi tanta referência musical desse período no show da HAO, que parecia que acharam uma fenda dimensional no meio do Pelô, que transportava todo mundo ali para aquela época, uma época em que a seleção brasileira ainda nem era tetracampeã mundial, onde se pôde ver latinhas de Skol Beats Spirit se transformarem em garrafas de Malt 90 com seus rótulos verdes nas mãos de quem estava bebendo e há quem tenha visto um jovem Chris Cornell vagando pelo lugar em meio às pessoas. Coisas de uma boa música. A épica Maya trouxe a diferença para a apresentação com seus mais de dez minutos de duração e, com a influência flamenca nela, fechou o portal dimensional que foi aberto durante a apresentação quase grungenesca. Foi um ponto alto na noite. Depois dela, mais uma música de influência clara de RATM, provando que o Chris Cornell não voltou ao seu tempo antes do portal ser fechado. Foi uma ótima apresentação de uma banda que, aos poucos, vem galgando uma boa trajetória no cenário daqui e mostrou estar bem à vontade em um palco maior e com uma qualidade de som melhor.


No fim, só restava esticar mais um pouco pelo Pelourinho esquentado. O bar do Nego Fua começando a ficar cheio (é o único lugar a ficar aberto depois das 23:30) e a degustação de abarás, cocadas e espetinhos ajudou a dar forma ao papo sobre teorias da conspiração, alienígenas, criação do mundo, como você pode estar sendo observado neste exato momento sem se dar conta disso e sobre como é bom saber que Plutão existe. O rock também viaja pelas galáxias.


*Matéria originalmente publicada em 30/11/2015.

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