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Que assim seja.*


O Reverendo T está de volta com seus discípulos descrentes em mais uma investida na pregação da sua palavra sagrada e profana com um novo trabalho recém lançado e intitulado de Puta B.O.C.A. Santa. Um disco bem esperado, de um dos artistas mais produtivos do cenário, que sabe misturar bem poesia e música, e que anda sempre muito bem acompanhado nas suas investidas artísticas. É bom escutar sempre um novo disco do Reverendo T & os Discípulos Descrentes (a.k.a. Tony Lopes), pois ouvi-lo de um lançamento para o outro traz uma experiência auditiva interessante, onde se vê um amadurecimento natural na sua sonoridade e textos.

A sua poesia bem ácida e influenciada pelo Charles Bukowski, e os seus vocais sussurrados, continuam bem presentes e muito fortes nesse seu recém EP e, como sempre, ele está bem acompanhado por músicos inventivos catequizados. Estes, deram corpo às almas de suas palavras, conquistando assim novos adeptos através de arranjos interessantes, com um pouco mais de distância do rock convencional, ou da normalidade cômoda das coisas. Isso inclusive no fato de Puta B.O.C.A. Santa ser bem orgânico, mesmo que ainda haja alguma programação aqui e ali.

Nesta ocasião, o disco teve produção, gravação e mixagem feitas pelo músico Heitor Dantas (Baby Lixo), que tocou a maioria dos instrumentos nele, além da participação do Antenor Cardoso na percussão e do Caio de Azevedo no violão cello. Com essas presenças, a primeira faixa, Boca Fechada, surge com uma linha reta de guitarra até explodir em um riff mesclado a batidas ancestrais, finalizando com um gongo e vozes ao fundo, para depois crescer com mais um pouco de percussão e solo de guitarra raivoso e terminar com uma gargalhada insana. No Abandono é uma das faixas mais interessantes, lembra bastante Porno For Pyros, com sua batida de percussão e bateria ecoada em alguns trechos e riffs de guitarras ligeiras em outros momentos, com interlúdio diferenciado constando programação e violão cello, ganhando com isso um certo ar mais psicodélico sessentista, para depois voltar a lisergia noventista do início da trilha.

Em seguida, Pai & Mãe traz a influência do blues na carreira do Reverendo T, trazendo, dessa vez, além da gaita e do violão de aço, elementos de programação e berimbau, que se destacam bem na sua interpretação desse gênero. Pirulitos Lisérgicos tem uma pegada mais industrial, sem ser industrial. Timbal, baixo, solo alucinado de guitarra, alguns samples, coral bradando “pirulito de ácido lisérgico” se misturam em um espiral musical que pode te fazer andar por um corredor se segurando pelas paredes. E ainda traz versos como “pirulitos de ácidos lisérgicos/rodopiando no céu da sua santa boca”. É mais uma que se destaca entre as canções. Encerrando a sequência do EP, Amém tem um perfil mais jazzístico, com canto gregoriano e contrabaixo acústico, que introduz bateria e guitarra sorrateiras caminhando no ritmo da missa, sem pressa, acompanhando o sussurro do reverendo dizendo “eu sou a fé injetada na sua veia/sou a doutrina e a disciplina que impõe/...amém”.

Puta B.O.C.A. Santa chega superando o seu antecessor, algo difícil de se fazer, mantendo a qualidade de sua gravação e de suas letras, continuando a ser mais orgânico e muito interessante aos ouvidos. Há certos momentos em que o ouvinte é pego de surpresa, com soluções musicais imprevisíveis que diverte e chama a atenção pela simplicidade, mesmo havendo certa complexidade nos seus arranjos. Mérito para o artista e seus discípulos musicistas escalados para essa investida. A poesia nas letras sempre ácidas e diretas dão mais vigor a obra, que provoca e também faz bem. E que assim seja!

Escute Puta B.O.C.A. Santa aqui: http://reverendot.bandcamp.com/releases



*Matéria originalmente publicada em 01/09/2016.

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