RESENHA: PRIMEIRO DIA DO SOTEROROCK 2017. Por Paula Holanda.


O Buk Porão foi palco para o início do Festival Soterorock 2017, que acontecerá em outras duas cidades além de Salvador — o evento será sediado também no Let’s Go Pub, em Alagoinhas, e no It’s Not Pub, em Catu. O line-up do dia 02/09 incluiu as bandas Kalmia, Aborígines e Modus Operandi. A Pastel de Miolos também estava escalada para a noite de abertura do festival, mas o show infelizmente foi cancelado, pois André PDM (voz, baixo) estava doente (melhoras!).
A Kalmia, banda soteropolitana de crust, abriu o primeiro dia do Soterorock. Glauber Lubarino (bateria) tocou como um animal, com muita compenetração e sangue nos olhos. As performances de Pingo (voz, guitarra) e Doriva (baixo) não ficaram muito para trás. No entanto, inicialmente, o público (de aproximadamente 50 pessoas) estava bem comportado e contemplativo. Às vezes rolava um ou outro mosh entre amigos — daqueles carinhosos, que mais parecem abraços coreografados — ou algum indivíduo solitário fazendo mosh com ele mesmo, mas nada muito movimentado.
O setlist da Kalmia contou com mais de dez músicas autorais — entre elas, “Não Atrapalhe”, “Vivenciando Atrocidades” e “Jovens Negros Em Extinção”. O show terminou com uma versão de “Nazi Não”, da Fecal Feast — finada banda formada por Pingo e Galf Aspecto — com participação de Jamille Marques na guitarra e com um cover de “Desperate Hours”, da banda sueca Anti-Cimex. Ainda teve uma palhinha de Júnior Nascimento no meio disso tudo.
A banda Aborígines, de Alagoinhas, foi a segunda atração da noite. O show do power trio — que faz um som mais puxado para o rock ‘n’ roll, mas que também é fortemente influenciado pelos clássicos do punk — surgiu como um respiro para o soco na cara que foi o primeiro show, com ritmos mais lentos e timbres mais leves. Apesar de a Aborígines ter uma sonoridade menos agitada do que a da Kalmia, o público parecia mais animado, elétrico e dançante (talvez por conta da ebriedade) nesse segundo show.
Formada por Dando (voz, guitarra), André Fiscina (voz, baixo) e Anderson Leba (bateria), a Aborígines tocou seu álbum “Absurdos” praticamente na íntegra, com exceção de “A Espanhola” e “Alagoinhas Garden”, e finalizou seu show com três covers clássicos: “Ace Of Spades”, do Motörhead, “Police Truck”, dos Dead Kennedys e “Brand New Cadillac”, do Clash (com participação especial de Doriva nos vocais). Eles também dividiram uma banquinha comigo e venderam alguns CDs alagoinhenses — além de “Absurdos”, a banda trouxe cópias de “Mercadores da Dizimação”, da Ironbound, e de “Queimando o Asfalto”, da Nute.
A Modus Operandi foi a última atração da noite — como sempre, com um show enérgico do começo ao fim. As apresentações do grupo são impressionantes para quem nunca o viu tocar, talvez por ser muito dinâmico e promover uma esfera de esoterismo. Lembro das expressões de surpresa de Gigito, que não me parece ser muito ligado à onda do pós-punk e industrial, mas que presenciou seu primeiro show da Modus Operandi naquela noite e comentou comigo que achou a banda fantástica.
A estranheza perante a performance do quarteto pode ser compreensível, afinal, não é todo dia que se vê um vocalista frenético à margem de uma convulsão, ou um baixista inquieto perambulando pelo público. Muito menos um percussionista que usa uma furadeira como instrumento. O show da Modus Operandi — formada por David Vertigo (voz, sintetizador) Henrique Letárgico (voz, baixo), Marcos Tripha (percussão, furadeira) e
Eduardo dEUS (bateria, percussão) foi completamente autoral e durou quase uma hora. O público clamou por bis, mas este foi negado por Eduardo, que estava cansado demais para continuar tocando.
A discotecagem do início e dos intervalos do evento ficou por conta de Doriva e Thiago Berteli, que executaram uma digníssima playlist de punk e pós-punk que ia do mainstream (a exemplo de Ramones e Iggy Pop) às bandas mais obscuras, como Hutt, Lupercais e Paranoid — um grupo sueco de raw punk com influências do punk japonês (que tive que perguntar o nome a Doriva pois achei muito foda, depois pesquisem sobre). Acho importante pontuar que a maior parte do público acompanhou o festival do começo ao fim, as bandas assistiram umas às outras e não se via quase ninguém bebendo cerveja do lado de fora — atualmente, isso é tão raro em Salvador que eu até fiquei admirada. Povo educado, muito bem.

A próxima parada do Festival Soterorock 2017 é no Let’s Go Pub, em Alagoinhas, no dia 08/09. 32 Dentes, Universo Variante, Not Names e Gérbera são as bandas que integrarão o line-up do próximo sábado. Ao total, serão 17 bandas baianas — fora a Pastel de Miolos, que vale lembrar, teve o show cancelado — tocando nos cinco dias do festival, que está em sua segunda edição.
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