Podcast com Deus Du, Baterista da banda Modus Operandi.(Gravado em 2017)
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    O Endereço: Tv. Basílio de Magalhães, 90 - Rio Vermelho, Salvador - BA

Entrevista com Mopho (AL). Por Leo Cima.

      Foto: Rafael Passos.

Continuando ainda com o Festival Radioca III, trazemos agora uma entrevista com a banda Mopho (AL). O João Paulo e o Dinho Zampier bateram um papo conosco e falaram sobre como foi tocar pela primeira vez em slvador depois de duas décadas de carreira sobre como foi o processe interessantíssimo de criação do seu mais novo trabalho, Brejo e sobre o cenário atual. Foi ótimo! Então, encontre a melhor maneira de ler essa entrevista e confira o som do ótimo Brejo!

Soterorockpolitano - Pessoal, parabéns pelo show, gostei muito dele, mas gostaria de saber o porque que vocês levaram tanto tempo para poder fazer uma apresentação em terras baianas. Porque demorou tanto e como foi essa experiência?

João Paulo: Na real, foi falta pura e simplesmente de um convite, de uma oportunidade, sabe? É por conta também nessa trajetória de vinte anos a gente mudou muito de formação e tal, aí isso tira o foco, né? Então, basicamente foi isso! Até que quando surgiu a oportunidade a gente ficou bem feliz mesmo. E, meu irmão, muito massa aqui! A galera, eu não esperava, não, que a resposta fosse tão bacana, cara! O tratamento à banda pela produção do evento foi maravilhoso, o público bacana da peiga e eu nunca tinha vindo a Salvador e estou feliz que só!

SRP - Eu estava ali em baixo e a receptividade foi excelente!

João Paulo: Fiquei feliz pra caramba! A despeito de ser um setlist curto, da gente passar o som e aí na hora que vai tocar tem coisas que estão diferentes no palco, isso tira um pouco a concentração. A gente tinha feito um repertório, mas tocamos um pouco menos que quarenta e cinco minutos e algumas coisas ficaram de fora subitamente. Mas a gente entende, não temos o que reclamar. Queremos voltar outras vezes!

SRP - Disco novo na área, vamos falar um pouco sobre ele! No Brejo está lá o Mopho em sua essência, está lá o rock psicodélico sessentista, o rock de garagem desse período, o rock brazuca dos anos setenta, porém um Mopho mais maduro, mais conciso, com as canções mais redondas. Eu gostaria de saber como foi o processo de criação do disco, quais as influências que recaíram sobre a banda nesse período de criação de Brejo?

João Paulo: Então, bicho, em 2008 fizemos um show emblemático em Macapá e conseguimos reunir o Bocão (ex-baixo) e o Pisca (ex-bateria), que tínhamos gravado juntos com Leo (atual baixista) no teclado o primeiro álbum. Reunimos essa galera já com o Dinho (Zampier) no teclado e daí houve aquele lance de “vamos voltar a banda pra fazer um disco”! Aí, nos reunimos e em três ensaios a gente pré-produziu e foi para estúdio gravar o Vol. 3. Nesse período, eu já vinha desenvolvendo grande parte das canções que entrariam em um hipotético álbum a ser gravado por essa formação. Visto que quando estávamos gravando o Vol. 3 a minha contribuição era muito pequena, só tenho duas músicas no álbum, Você sabe Muito Bem e Quanto Vale um Pensamento Seu. O resto era o esboço, o esboço dessas canções que apareceram agora no disco Brejo, entendeu? Aí a formação acabou de novo! Aí ficou engavetado e nem sabia se ia fazer com o nome Mopho e tal. Foi quando há uns dois anos eu entrei em contato com Dinho e disse “e aí, Dinho, vamos gravar logo, cara, vamos ver qual é!”. Fui na casa dele, a gente sequenciou uns andamentos e os ritmos, e na véspera da gravação passou para o batera, e passou para o baixista. Vou ser muito sincero, eu queria uma coisa mais orgânica, sabe? Eu estou feliz pra caramba, é um disco honesto pra caramba. Mas acho que aquelas canções poderiam ser um pouco mais maturadas, cara, num processo de pré-produção com banda, sabe? Então, é foda porque estou lançando o álbum, mas já estou meio que falando mal dele! (risos). Porque, na verdade, já estou ansioso por um quinto álbum! Eu acho Brejo um disco bacana, mesmo, só que eu me ressinto do fato de não ter tido tempo, de não ter tido clima de banda. Então, praticamente é um disco com canções minhas. Tanto é que gravamos um quarto do disco com outro baixista, foi quando eu não estava gostando, aí poxa “vou chamar o Leo, né?”. Aí o Leo colocou os baixos e a coisa começou a tomar uma forma diferente, porque até então estava bem esquisito.

Dinho Zampier: A gente sofreu muito, na primeira demo desse disco, a gente sofreu muito porque a gente não conseguia “O” clima!

João Paulo: O clima, cara. Não tinha um núcleo, não tinha uma pegada, sabe?

SRP - Então, essa questão desse intervalo de seis anos entre o Vol. 3 e o Brejo foi por conta dessa mudança de formação da banda e também pela maturação das canções?

João Paulo: Na verdade, essas canções já estavam prontas há uns seis anos, por aí. Quando não faltava uma estrofe de uma canção, faltava resolver harmonicamente uma passagem, ou ritmicamente outra. E por conta de “não existir banda”, de fato, para ensaiar e para resolver isso, a coisa foi ficando assim! Até que eu tive aquela coisa de “agora vou ter que lançar essas musicas para poder dar um passo à frente”, se é que vou fazer alguma coisa com a Mopho de novo, ou não! E, no final das contas, eu fiquei muito feliz. Depois que o Leo colocou os baixos, que já deu um groove, um molho diferente, aí a gente sentiu que estava a Mopho mais ou menos ali. Mas a primeira gravação, que era com o outro baixista, velho, eu escutava e dizia “não tem como, velho”.

Dinho Zampier: Nos salvou aos quarenta do segundo tempo! (risos)

João Paulo: O Leo chegou e aí gol. Basicamente foi isso! (risos)

SRP - Eu achei o disco muito bonito, Limiar (uma das faixas) é desse período?

João Paulo: Limiar e Não Sou de Ninguém foram as últimas, já foram compostas, assim, em 2012/2013, já foram as últimas no processo. Limiar é uma música que eu acho foda! Por exemplo, Limiar, aquele ritmo de valsa ali, a bateria poderia brincar um pouco mais, entendeu? A sensação ali é quase que um drumbox “tacum ta cutum, tacum ta cutum”. Ficou lindo, mas já pensou se fosse um groove a lá Dig a Pony, dos Beatles, com aquelas frases do Ringo? Era como eu pensava a música. Mas no final das contas rolou, cara! Eu estou feliz com o álbum!

SRP - Vocês estão completando vinte e um anos de estrada. Há duas décadas atrás, com vocês tocando e a gente observando, a gente via que no cenário independente não havia tanta banda de rock genuinamente psicodélica, não tantas quanto hoje, que parece que houve um boom de bandas dessa linha, encabeçadas pelo Boogarins, My Magical Glowing Lens, Bike. Eu quero saber sobre o que vocês acham dessa nova leva de bandas psicodélicas brasileiras e como vocês se enxergam dentro desse meio sendo a Mopho uma banda pioneira nessa vertente aqui no Brasil?

João Paulo: Bicho, antes de mais nada, eu, particularmente, não considero essencialmente o som do Mopho psicodélico. Tem vários elementos e tal. Mas eu diria que a gente flerta muito mais com folk e com jovem guarda, com alguma coisa progressiva. Ecos de Pink Floyd na mesma proporção com ecos de Roberto Carlos. Mas eu fico feliz pra caramba de perceber como a turma até meio que reverencia o Mopho enquanto um pioneiro nesse resgate. Fico feliz para caramba! Com relação às bandas novas, o Dinho que é uma cara que toca bem mais do que eu, viaja por aí, conhece as bandas todas. Eu, particularmente, ouço falar, mas eu não tenho escutado, cara. Estou cada vez mais naquela de resgatar mesmo as eternas velharias, sabe? Mas sempre tem uma coisa massa que eu não sabia que existia nos anos sessenta e setenta, aí estou sempre por lá. Mas o Dinho me comenta sobre várias bandas novas!

Dinho Zampier: Outro dia eu mostrei para ele o O Terno. Muito legal, uma cena que acompanho por estar sempre circulando e tal. Já vi o show deles, vi do Boogarins, da Bike e da The Baggios também, do Júlio, que estava conosco agora há pouco aqui. É uma cena nova com muita autenticidade no som!
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Entrevista com Far From Alaska. Por Leo Cima.

      Foto: Rafael Passos.

Durante a terceira edição do Festial Radioca, batemos um papo descontraído com o simpaticíssimo quinteto Far From Alaska (RN). Nele, a banda falou sobre o seu novo disco, Unlikely, sobre como foi trabalhar com a produtora Sylvia Massy, sobre a cena de Natal, sua carreira internacional, sobre quantas vezes teve que responder do porque de cantar em inglês e um pouco mais! Se ajeite onde estiver, dê um play no Unlikely e aproveite a conversa.

Soterorockpolitano - Gostei muito do Unlikely, o achei muito bacana e gostaria começar o papo por ele. Ele é um disco mais descontraído, mais solto, mais harmonioso em relação ao modeHuman. Inclusive, eu vi vocês falando que ficaram um pouco menos presos em relação aquela coisa do riff. Eu gostaria de saber como foi o processo de criação do Unlikely, quais foram as influencias que vocês tiveram para poder criar as canções desse disco?

Rafael Brasil: Eu acho que esse disco ele veio com a missão de mudar um pouquinho como as pessoas viam a gente. Às vezes a gente via nos lugares “ah, a banda de stoner rock de Natal” e as fotos da gente todas sérias, e não é tanto assim. E aí, ele veio com essa missão de exaltar mais o que a gente viveu, sei lá, em cinco anos, cada um viu o que gosta mais de fazer, o que gosta mais de ouvir e aí foi natural esse lance. A gente viu que não era tão sisudo assim quanto o que a galera botou lá para a gente. Aí ele veio mais colorido, ele veio propositalmente assim. A gente quis fazer músicas mais legais de cantar, se preocupou muito com melodia, mudar mais a harmonia, né? Não ser aquele riff encorpado o tempo inteiro. Adoramos o modeHuman, mais aí o Unlikely veio com essa outra característica.

Cris Botarelli: Esse outro humor!

SRP - Achei vocês bem humorados nessa investida, realmente. Inclusive, lá no Kickante eu vi que tinha uma solicitação para quem quisesse contribuir com R$1.000.000 para vocês não gravarem o disco...

Cris Botarelli: Aaah (risos)

Lauro Kirsch: Teve uma hora que kickaram, tá ligado? Pensei: “Caralho, velho, a gente deveria ter pedido mais, um milhão é pouco!” (risos)

SRP - Ainda em relação ao disco, vocês produziram ele com a Sylvia Massy, que tem no currículo trabalhos com o Tool, Jhonny Cash, Prince, Red Hot Chilli Peppers, mas o que achei  mais interessante é que ela tem uma metodologia bem peculiar de gravar disco, de tirar som, de criar sons dentro do estúdio. Eu quero saber como foi a experiência de ter gravado com ela, eu sei que vocês fizeram alguns experimentos, falem um pouco sobre isso!

Cris Botarelli: Foi massa, esse lance todo a gente estava procurando alguém e tal, e a gente quando encontrou ela, que deu macth no Tinder com ela, e aí foi ver os seus vídeos da internet, a gente ficou muito apaixonado. Porque ela curte muito experimentação, mesmo, na hora de gravar e a gente curte muito essas coisas, essas doideiras! Era exatamente o que a gente estava procurando e aí rolou. Era tudo muito diferente, assim: o jeito de gravar, não tinha aquário de gravação, era todo mundo gravando ali no sofá, ela fez uns experimentos com synth, passou o synth passando por uma salsicha, passando por um picles, furadeira, começou a botar um bocado de coisa. E era massa porque era uma vibe assim de tipo, vamos tentar, vamos experimentar, vamos fazer coisas e se não ficar bom, não usa, se ficar bom, usa.

Lauro Kirsch: Ela não tinha tempo ruim, hora nenhuma! O que você pensava em fazer, ou, brincando, você falava uma coisa, ela: “Vamos!”. Ou ela mesma vinha com a ideia doida e a gente aceitava: “Vamos fazer!”.

SRP - Ela fala que “mesmo que a experiência não dê certo, vai ficar para sempre na memória e o artista nunca vai esquecer”, achei isso muito bacana. Vi até um vídeo que ela fez com a captação da bateria...

Emmily Barreto: O Dick Mic!

SRP - O Dick Mic, que achei super bacana e a achei bem humorada, também acreditei que isso tenha contribuído com a atmosfera do disco...

Rafael Brasil: Ela nunca chegava no estúdio pra baixo, ela nunca falava que o tempo estava ruim. Era sempre “ahh, vamo nessa!”. Aí ela entrou na onda de a gente, de que cada um é um bicho, né? Aí a gente perguntou pra ela qual bicho ela era. Ela pensou, chegou no outro dia e falou que ela era um corvo! E aí ela já chegava “aaaahhhh”, gritando (risos), era massa, era sempre pra cima!

Lauro Kirsch: E às vezes a gente estava maio cansado, assim, de fazer os takes, sabe, “não acordamos ainda”, estávamos naquela assim, ela vinha e “vai, animação, aaaahhhh!!”, ficava gritando e trazia todo mundo para dentro do rolê!

SRP - A vibe era boa, então!?!?

Rafael Brasil: Total!!!

Edu Filgueira: Teve até um dia que ela estava doentaça, e mesmo assim, ela estava “morrendo”, mas estava pra cima, tá ligado? Muito bom!

SRP - Emmily, os microfones que ela tem lá você pôde usar o tanto quanto você quis?

Emmily Barreto: Cara, tinha milhares. Quando a gente chegou lá, o Ivan, o engenheiro assistente dela – na primeira semana ela não estava lá, então a gente ficou um pouquinho sem ela – ele levou a gente pra conhecer tudo e tal, e velho, tinha uma sala só de microfone, como tinha de tudo também, de amp. De tudo! Mas a quantidade de microfone era surreal, se eu fosse escolher era impossível. Então, graças a Deus, ela escolheu por mim e ela escolheu um microfone lá de ouro, que era bizarro. Só ele é, tipo, uns 100 mil dólares.

Cris Botarelli: Era tipo, 30 mil dólares.

Emmily Barreto: Não, era mais, era mais! Era muito caro! Era de ouro! Você escutava, se você estivesse usando um fone, você escutava coisa da rua melhor do que se você estivesse sem o fone, tá ligado? Bizarro, bizarro! Usei esse mic que eu esqueci o nome, mas eu tenho foto dele.

Lauro Kirsch: Soyous!

Emmily Barreto: É esse aí!

SRP - Mudando um pouquinho de assunto, mas ainda com um pé lá fora, quero falar um pouco sobre carreira internacional. Vocês estão dando os seus primeiros passos em relação a isso, vocês sentem alguma pressão desse aspecto sobre os ombros de vocês, como vocês têm lidado com isso por ser considerada uma banda promissora?

Rafael Brasil: Acho que a palavra que a gente sente não é pressão, não, é vontade mesmo!

Cris Botarelli: É vontade de ir logo! (risos)

Lauro Kirsch: A pressão é mais interna, entre a gente de querer fazer a coisa acontecer do que do público, que já conhece a gente, esperar isso da gente. Pô, se a gente for, o público vai achar bacana, mas pra gente é muito mais pressão, de a gente querer fazer a coisa acontecer lá fora. Porque sentir o gostinho indo para o South by Southwest, indo para o Download Festival, tipo, é muito massa! A vibe, a receptividade da galera foi bem tranquila. Antes a gente ficava apreensivo, tipo, “como é que eles vão receber a gente?”, uma banda brasileira fazendo rock e isso ser “esquisito”, mas a galera foi muito amor e até hoje mandam mensagem para a gente.

Emmily Barreto: É, acho que no momento é mais planejamento, a gente tá com a cabeça nisso mesmo. O nosso objetivo no momento é esse, a gente quer botar o pé lá fora mais vezes. No começo do ano que vem a gente quer começar já com turnê lá fora e vamos ver o que rola! A gente tá ansioso!

SRP - Sobre a cena de Natal, Natal tem uns dez anos que vem se destacando no cenário brasileiro, apresentando boas bandas com projeção nacional significativa, um festival expressivo. Para vocês, o que faz da cena de Natal ser tão destacada e bem sucedida?

Lauro Kirsch: A água!!! (risos)

Rafael Brasil: Esse lance de ter um festival, de ter uma pessoa trampando para isso, ter um bar, ter um lugar para as bandas tocarem, isso tudo acaba movimentando a cena inteira e a gente é fruto disso, inclusive. A gente cresceu lá tocando em outras bandas e isso é muito importante. Todo lugar que a gente vai, todo lugar que tem festival a gente fala o quanto isso é importante para cidade, para movimentar a parada e fazer acontecer. Tanto que eu senti uma vibe dessa também em Goiânia, por exemplo, que tem o Bananada, que tem a galera lá que trampa nisso. Então, acho que esse é o diferencial da cidade, que faz Natal ser especial por ter esse circuito para as bandas tocarem lá no ano todo e ter os festivais MADA e DoSol.

Lauro Kirsch: E o público corresponde também!

Emmily Barreto: É, a galera pira! Tipo, a banda favorita da galera é a banda de lá de Natal e se tem show eles lotam o show, não tem isso de tem que ter banda de fora para ir.

Cris Botarelli: Foi um processo isso lá, né? Porque as coisas do DoSol tem dez anos agora e aí foi um processo da galera se acostumar a consumir as coisas de lá mesmo, não ter vergoinha, né? Que às vezes a galera tem esse velho complexo de vira-lata que a galera fica com vergonha de gostar. Em Natal, não, a galera curte mesmo, sabe cantar, chega no show, se tiver fã compra o merchan , tipo, vai no show e paga o ingresso e tudo o mais, é massa! É acima da média de público também! A galera é bem massa!

SRP - E das demais cenas, o que vocês têm observado de bandas e de artistas, o que tem chamado a atenção de vocês no território nacional?

Rafael Brasil: A gente está vivendo um momento muito, muito, muito foda da música no Brasil. Em toda viagem que a gente vai, para todo canto, a gente encontra uma banda e fala “caralho, isso aqui era para o Brasil inteiro conhecer, muito foda”. E a gente pode citar algumas bandas que a gente está em contato direto lá em São Paulo, que a gente já virou amigo, como Francisco El Hombre, Scalene, Supercombo, Ego Kill Talent, a lista é gigantesca, não dá nem para falar todo mundo. Todas bandas fodas com competência para assumir esse mainstream do Brasil!

Lauro Kirsch: Foi um momento meio que único, porque todo mundo resolveu sair das cidades que se originaram para ir para São Paulo e tipo, todo mundo começou a se encontrar em São Paulo pelo polo de logística, de ser mais fácil para as bandas circularem lá, então muitos artistas como Selvagens a Procura de Lei, lá do Ceará, eles se mudaram para São Paulo também, o Plutão já foi Planeta se mudou para São Paulo e fica nessa de ida e volta. E acaba que todo mundo se encontra nos shows dos amigos por lá, trocando informações, trocando figurinha, o que tem que fazer, o que não deve fazer e como fazer!

Rafael Brasil: A gente está doido para que todo mundo estoure, porque o Brasil precisa conhecer essas bandas, de verdade. Fica meio que só na internet, a gente vive nesse mundo e vê que tem um público gigantesco de uma galera que consome, é só as grandes mídias também chegarem junto! Mais, né? Acho que já estão dando um pequeno espaço, mas tem que ir mais ainda, porque o Brasil merece conhecer essas bandas boas que estão sendo produzidas aqui.

SRP - A pergunta agora é uma pergunta sobre uma pergunta: Vocês já contabilizaram quantas vezes já tiveram que responder do “porque de cânter em inglês”?

Todos: Aaaahhh!!! (risos)

Emmily Barreto: Primeiramente, a gente está muito feliz que você não fez essa pergunta. E foi a melhor pergunta sobre essa pergunta! (risos)

Cris Botarelli: Teve várias fases, já. No começo, a gente não tinha uma resposta e a gente inventava. Aí cada vez inventava um negócio. Depois a gente formulou uma resposta, depois a gente começou a ficar com preguiça de dar a resposta e respondia qualquer coisa tipo, “porque sim!”. E aí agora é um misto, hoje em dia quando perguntam é um misto, assim de “a gente fala, mas não fala”, é que não tem mais o que falar!

Edu Filgueira: Tem a versão curta, a versão média e a versão longa, depende do bom humor do dia.

Emmily Barreto: Mas, é chato!

Rafael Brasil: Acho que essa pergunta se mistura um pouco com o lance lá de Natal, tipo, a gente tá lá em cima, na esquina, ali, saca? As bandas lá, elas tocam o que gosta! Claro que lá dentro pode ter o lance de “pô, eu queria que as pessoas todas conhecessem a minha banda”, mas não, eles fazem do jeito que gosta. A galera de lá de Natal consome independente de ser em inglês ou ser em português, então é uma parada real mesmo! E se der certo, se chega em outros lugares, que irado! Mas o pensamento inicial não é de tipo “vamos cantar em português para fazer sucesso” ou “vamos cantar em inglês para dominar o mundo e conquistar noventa e quatro territórios!”.

Lauro Kirsch: Por ser o que a gente gosta e ser muito o que a gente escuta, também. Tipo, influencia de rock! O rock não é brasileiro, o rock é americano, o rock é britânico e a gente escuta isso. É tudo em inglês e é natural fazer aquilo o que você escuta. Soa natural!

SRP - Questionei também porque normalmente essas perguntas “do porque cantar em inglês” vêm sempre com uma crítica nas entrelinhas sobre isso. Tipo, “Vocês são brasileiros, nordestinos, de Natal e cantam em inglês? Como assim?”.

Edu Filgueira: Uma coisa não invalida a outra, né? A gente não está querendo que todas as bandas passem a cantar em inglês, sempre vai ter espaço para todo mundo! Aí tipo, muita gente que critica isso nem para pra pensar e consome, sei lá, o Scorpions, que é uma banda gigantesca, mas é da Alemanha, só que canta em inglês.

Lauro Kirsch: Nossa, você foi longe, heim?

Edu Filgueira: Não, saca, tipo, a galera não para pra pensar nisso, né?

Rafael Brasil: E a gente é geração da internet, é da geração que escolhe o que quer ouvir e que escutou banda em inglês mesmo. Acho que antes era mais difícil, alguém tinha que vir de fora com o disco para te apresentar e você conhecer aquela banda, né? Hoje em dia não, cara. Hoje em dia todo mundo vai, sei lá, no Spotify ou no Youtube e escuta o que quer e tal. E a maioria das pessoas consomem coisas em inglês, é um preconceito besta e que seria legal se mudassem!

Cris Botarelli: Eu fiquei sabendo que rolou uma época, nos anos sessenta para os setenta, uma passeata contra a guitarra elétrica. Uma lance, tipo, “não vamos americanizar a nossa música”. Naquele momento poderia fazer algum sentido, se havia algum movimento rolando, só que eu acho que ficou esse ranço. Assim, porque quando a pessoa pergunta “porque vocês cantam em inglês se vocês são do Brasil?”, aí você fala “mas porque não, diga aí?”, a pessoa também não tem resposta, uma coisa que a pessoa reproduz às vezes sem nem pensar sobre, tá ligado? Vai ver que é uma herança aí, ó!

SRP - Para encerrar, vocês fizeram uma pequena maratona pelas cidades baianas, passaram por Vitória da Conquista e pela segunda vez em Feira de Santana e agora, finalmente, vocês estão em Salvador, depois de um bom tempo, já estávamos esperando por vocês há uma cara. O que vocês esperam de Salvador e o que Salvador pode esperar da Far From Alaska daqui a pouco?

Cris Botarelli: Rapaz, o que a gente escuta da galera daqui de Salvador é que a galera é roqueira doidona. Então, a gente está esperando o apocalipse, está esperando a galera quebrar tudo, porque a gente vai tentar quebrar tudo no palco também. Então, a gente está com a expectativa bem alta e o que a gente só escuta é bons comentários da galera daqui.

Rafael Brasil: E como é a nossa primeira vez aqui a gente vai tocar muita música do disco novo, mas vamos tocar umas três ou quatro do disco velho. É a primeira vez, então tem gente que gostaria de ver, né? Que a gente não teve a oportunidade, a gente não veio aqui antes. Vamos tocar umas velhas, tocar umas novas. Vamos quebrar tudo! A Bahia tem um lance que o Tiago, que é o primeiro cara que acho que acreditou na gente na internet, né?

Emmily Barreto: Ah, sim, sim! Do fã-clube da gente! Ele está aí!

Rafael Brasil: Ele é daqui da Bahia, o presidente do nosso fã-clube, ele vai vir hoje, vai ser massa!

Lauro Kirsch: O fã-clube oficial baiano!
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Festival Radioca III: duas noites de pluralidade musical. Por Leo Cima.

     Foto: Rafael Passos.

Aconteceu neste último final de semana a terceira edição do Festival Radioca. Festival esse que traz em seu lineup novos e veteranos nomes da mpb, artistas consagrados e outros mais significativamente promissores da nossa cena musical. Sejam daqui da Bahia, ou de outros estados, as atrações refletem bastante a proposta do evento, que se origina de um programa de rádio local de mesmo nome.

A diversidade das atrações, algo a se levar muito em consideração quando se fala em Radioca, foi um aspecto que chamou a atenção na grade de 2017. A curadoria feita para o festival foi mais além nisso em relação aos anos anteriores, o que acabou por oferecer um prato cheio para aqueles que gostam de apreciar uma boa música, ou descobrir novos sons. A infraestrutura do festival se expandiu bastante em relação à primeira edição (em 2016 não pude comparecer ao evento) tomando todo o espaço do Trapiche Barnabé, proporcionando uma melhor circulação das pessoas na área dos shows e reservando o trecho lateral do lugar para as feiras de artesanato, vinil, moda, uma praça com a instalação de um restaurante (desta vez não havia food trucks) e vários pontos de caixa para compra de bebidas, eliminando longas filas para adquirir fichas. A altura do palco é algo a se frisar também, ele não estava muito alto, ao mesmo tempo em que a visão da plateia para ele era confortável e não estando em momento algum comprometida, aproximando mais os artistas do público junto a uma sonoridade impecável.

Sobre os shows, abrindo o primeiro dia, a baiana Lívia Nery apresentou a sua música fincada no cool jazz, com influência de ambient rock e uma ótima performance. Com boa presença de palco, ela utilizou muito bem recursos de efeitos de voz em momentos pontuais, assim como a banda que a acompanhava a seguiu de maneira impecável. Vale ressaltar a presença do Emanuel Venâncio, na bateria, ótimo músico que estava em “não-sei-por-onde” e que reapareceu aqui. Foi um ótimo começo e deixou a audiência, que ia se acomodando aos poucos, aquecida para a sequência que estava por vir. Do Pará, Pio Lobato, tendo o Lucas Estrela como músico convidado, apresentou um repertório instrumental com bastante guitarrada. O ritmo alegre e leve do seu som acabou por esfriar um pouco os ânimos do ambiente e foi um momento no qual as pessoas se dispersaram pelo lugar e não se prenderam a sua apresentação. Já o Raimundo Sodré, de cima do palco, injetou mais empolgação na plateia com uma banda competente e com uma presença de placo cheia de carisma, trazendo consigo um repertório mais dançante e completo de história musical.

Como penúltima atração da noite, e talvez a mais esperada da grade do sábado, a Far From Alaska, de Natal, fez a sua primeira apresentação na capital baiana e não decepcionou. A performance explosiva e impactante do quinteto literalmente engoliu as demais apresentações de tão boa que foi. A entrega dos integrantes no palco foi absurda, com um expressivo desempenho que atesta o ótimo momento vivido pelo FFA. Os sons encorpados e bem preenchidos das suas composições ganharam vida com fidelidade em cima do palco, com uma cozinha extremamente segura, ótimas distorções, efeitos e texturas da guitarra, presença certeira dos synths e o vocal poderoso da Emmily Barreto. Empolgou muito a quem os assistia, e ainda foi aberta uma “roda de rock”, puxada por uma moça empolgadíssima que estava no meio do povo, na qual a Cris Botarelli desceu do palco para participar. Foi um show avassalador! Merecia durar um pouco mais! Encerrando a primeira maratona, Rincon Sapiência (SP) apresentou seu rap com muita vontade e sem deixar dar fôlego para quem o esperava. Muita gente o acompanhou letra por letra e a própria música que ele apresentava atendia bem as expectativas de quem acompanhava os seus versos. Fugindo bastante do lugar comum de quem mistura mpb e rap, o bom uso da guitarra, com percussão e pick-ups foi o grande diferencial do seu show.

O segundo dia, igualmente pontual como anterior, reservava uma sequência aguardada de shows. Quem iniciou os trabalhos foi a Jadsa Castro (BA). Com uma bela voz firme e de personalidade forte, ela apresentou canções que remetem bastante a musica popular brasileira contemporânea, destacando o trabalho de percussão de seu grupo, dando ênfase a cada instrumento no momento certo. Depois dela, a banda alagoana Mopho, que completou agora em 2017 vinte e um anos de carreira, tocou pela primeira vez em terras baianas com o repertório do seu mais recente disco, Brejo. Muito aguardado, o quarteto não decepcionou e fez uma apresentação segura e atmosférica, dentro da proposta do seu som, que vai do psicodelismo à jovem guarda. O tempo de estrada do conjunto garantiu que as canções surgissem mais encorpadas em cima do palco, e com o brilho idêntico ao dos seus registros em disco, com arranjos que remetem às coisas boas que o George Harrisson produziu nos seus primeiros trabalhos solo. Além das novas composições, a Mopho passeou pela sua discografia tocando canções de trabalhos mais antigos. Na sequência, o também quarteto Quartabê, de São Paulo, criou um clima mais jazzístico no festival executado um setlist completamente instrumental em homenagem ao músico Moacir Santos. Instrumentos de sopro, piano e bateria conduziram a performance do conjunto de maneira suave e interessante, abrindo espaço para bons improvisos e contemplação da plateia.

A penúltima atração da noite foi o paulistano Curumin. Confesso que estava curioso para assistir ao seu show, pois havia quase nove anos que não o via em ação e na primeira ocasião a sua apresentação não me agradou. Tanto tempo depois e o som dele continua não chegando a mim. Seus discos são ótimos, porém ao vivo sempre se tem aquela sensação de que falta algo, mesmo acompanhado por ótimos músicos como ele, possuindo viradas sutis de bateria nas passagens de uma canção para outra e com a participação especial do Russo Passapusso em um trecho significativo de seu show. Mesmo assim, agradou muita gente que dançou e cantou junto! Encerrando o Radioca, a banda Metá Metá fez justiça a sua fama de ser excelente em cima do palco. O som do quinteto pode ser definido como uma linguagem que segue um caminho entre o rock e o jazz moderno, feito com uma liberdade experimental que beira o pop sem que estes dois lados não se desgrudem um do outro em momento algum. Tudo isso feito com uma musicalidade forte, com a voz mais forte ainda e super presente da Juçara Marçal, timbragens sonicyouthianas da guitarra, cozinha desconcertante de viradas certeiras na bateria do Sérgio Machado e a suavidade do saxofone. Foi de encher os olhos e os ouvidos de uma maneira, que o grupo teve que voltar para mais uma música no bis.


A terceira edição do Festival Radioca manteve, de fato, o ótimo nível de shows em decorrência da boa curadoria realizada e, com isso, a diversidade musical se fortalece como uma marca consolidada do evento. Como nos anos anteriores, o público compareceu em uma quantidade considerável nos dois dias e ganhou tudo isso e um pouco mais, dentro do Trapiche Barnabé, que foi a morada temporária dos bons sons. E a cobertura do Radioca não para por aqui, em breve, entrevistas inéditas com a Far From Alaska e com a Mopho.

Fotos:

     Lívia Nery/Foto: Rafael Passos.
      Pio Lobato/Foto: Rafael Passos.
      Raimundo Sodré/Foto: Rafael Passos.
      Far From Alaska/Foto: Rafael Passos.
      Rincon Sapiência/Foto: Rafael Passos.
      Jadsa Castro/Foto: Rafael Passos.
      Mopho/Foto: Rafael Passos.
      Quartabê/Foto: Rafael Passos.
      Curumin/Foto: Rafael Passos.
      Metá Metá/Foto: Rafael Passos.
      Foto: Rafael Passos.
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