Podcast com Deus Du, Baterista da banda Modus Operandi.(Gravado em 2017)

Reaja, porra! Por Leo Cima.


O nosso país vive um momento político notavelmente conturbado e escroto. Mais escroto do que conturbado, diga-se de passagem. E o pior, seguido por uma apatia de uma população que assiste praticamente zumbificada cada gesto de politicagem suspeito, ou escancaradamente malicioso. Uma inércia que chega a ser mais forte do que qualquer esquema de falcatrua televisionada nos noticiários e que é de cair o queixo.

É dentro desse cenário que a banda baiana Pastel de Miolos chega com o seu mais recente trabalho, o quinto de sua carreira, Reação! Para além deste lançamento, este é o primeiro registro da PDM como um duo, “apenas” com baixo e bateria, um formato de certa maneira inédito dentro do som proposto pelo grupo. Produzido pelo Irmão Carlos e contando com participações especiais e colaborações, o disco é um verdadeiro pé na porta ao longo das dezesseis faixas e vinte e oito minutos de som.

O cd abre com Punk Rock é Reação! E já se percebe o quanto o som está bem preenchido. Nela, o baixo faz a chamada para a pegada rápida e explosiva da faixa, com um texto, de parceria entre Bidido e Wilson PDM, que alerta para o fato de que se ficarmos somente nas redes sociais, nada será conquistado. Com uma pegada mais crossover, Convicção, Ideia ou Crença e Nada Desfaz imprimem mais velocidade a obra. Com letra do Sandro Ornellas, A Festa tem um punch mais forte e mais raivoso, com uma letra de crítica social sem firulas. Depois dela, Um Banho Gelado no Mar Egeu surge como uma das composições mais surpreendentes do disco. A sua introdução com os teclados de Durval Oliveira, um andamento mais pop e a letra inteligente do Lima Trindade, que faz referencia à questão da crise dos refugiados, geram uma boa surpresa nos ouvintes e não foge à coerência do som. Sedentário é um convite para as rodas de pogo e é uma boa crítica àqueles parasitas que fazem nada da vida e que vivem se fazendo de vítima de tudo. Em Estragados a PDM mete o dedo na ferida do ser humano que é mal caráter e em Not Dead a dupla desacelera com uma canção de refrão digno de se tornar um grito de guerra.

Com letra de Tony Lopes, Filhos da Puta retoma a alta velocidade sonora e faz uma chamada para irmos à luta contra a quem nos oprime. Sem Nada Mudar e Egoísmo chegam com vigor. Quarteto III é mais um ótimo momento de Reação!, traz consigo rapidez e raiva, com uma mensagem sincera sobre se manter bem e distante de quem ou o que nos causa mal. Vivendo na Culpa traz a questão da busca pelo bem estar através do consumismo que pode levar a um ciclo infinito de euforia instantânea seguida de um vazio e as consequências que isso pode trazer. Palavras é uma verdadeira porrada no pé do ouvido de vinte e três segundos, que versa sobre como as palavras têm poder, uma verdade universal com apoio dos backing vocais guturais do Fauro. A sequencia final, com Página 81 (letra também de Tony Lopes) e Reaja ou Vire Escravo, encerra muito bem o cd com energia de sobra e com mensagem direta e reta para que o indivíduo acorde, levante e faça algo. Reaja!


Em Reação!, a Pastel de Miolos atesta a ótima banda que é e porque figura dentre as melhores do país quando o assunto e punk rock. Creio que tenha sido um desafio grande para a dupla gravar este disco, considerando a mudança na sua formação e a decisão de seguir como se encontra hoje. O ótimo texto da dupla, as influências do metal e os efeitos no baixo extraídos de pedais, vindas do André, e o punk, trazidas pela grande bagagem do Wilson, moldaram bem a musica dessa fase da PDM, criando uma identidade musical de mais personalidade sem perder o perfil punk. É claro que existem outras tantas bandas que se apresentam no esquema baixo/bateria/vocal, em outros gêneros musicais, mas nesse caso há de se atentar para essa condição de se reinventar e não deixar para trás o seu passado importante. Talvez a Pastel de Miolos tenha aberto uma nova porta para o punk rock!
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