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Festas populares como as daqui, igual não há. Por Leo Cima.



No último dia dois de fevereiro saí da cidade baixa e fui conferir a tradicional Festa de Iemanjá, uma das mais tradicionais daqui da Bahia, juntamente à Lavagem do Bonfim e o Carnaval. Na verdade, fui mesmo no dia primeiro, na véspera do festejo, dada a informação de que toda a movimentação já se inicia nesta data e de que, para chegar até o local no dia dois é intensamente complicado. Creio que você já deve ter percebido que esta também foi a minha primeira investida na festa. Nunca antes havia ido conferi-la de perto, muito por conta de compromissos profissionais e por sempre cair em dia de semana (dessa vez, ela aconteceu em um sábado desde 1991).

No início da noite, próximo ao bairro dava para perceber bem a efervescência da expectativa do acontecimento, com um engarrafamento adivinhado ainda no meio do caminho. Dentro da região, essa sensação de efervescência se acentuou bastante. É bem interessante ver como algo esperado pelas pessoas pode mobilizar tanta gente, atrair tanta gente e mexer com moradores locais e de outros lugares. Para mim, por ser morador do Bonfim e ter visto muita lavagem, foi inevitável um paralelo constante com a Lavagem do Bonfim, creio que isso seja algo normal e natural, mas o fato é que as particularidades de cada uma delas as fazem especiais demais.

Na primeira volta já tinha bastante gente circulando no Rio Vermelho, várias delas se preparando para fazer ou agradecer os seus pedidos, outras bebendo e tantas outras vendendo cerveja, ou rosas. Por ser um lugar com um comércio forte e numeroso, foi interessante observar os bares e restaurantes de lá. Ver de fora praticamente todos eles com suas mesas lotadas, com pessoas conversando sobre qualquer coisa e consumindo de tudo, os garçons correndo para darem conta dos consumos e o som dos caixas tilintando de lá de trás do balcão davam a sensação que cada estabelecimento estava tremendo.

A primeira parada da noite foi na Bardos Bardos, que possuiu uma programação para os dois dias. Com três bandas anunciadas para essa data, cheguei a tempo de ver a Jato Invisível e o Gigito. A primeira, retornando a ser um quarteto, fez o seu som fincado no punk rock com a energia de sempre, e se sentiu a vontade para tocar boa parte das canções dos seus dois EPs. Apenas o volume alto da guitarra e do baixo encobriram a voz principal e atrapalharam um pouco a experiência auditiva, porém Remédio e Veiculando Neuroses se mostraram sempre empolgantes, bem acima da média. Já o Gigito, foi a primeira vez que vi uma apresentação dele. O seu som é um bluegrass nervoso, divertido e bem-humorado, bastante competente, por sinal, que pode entreter o ambiente e, ao mesmo tempo, se fazer observar. É uma música diferente para o que acontece normalmente na cena.

O dia seguinte começou bem cedo, com várias pessoas logo pela manhã indo para a praia presentear Iemanjá, ou deixar os seus presentes na embarcação que iria levá-los para o alto mar, formando uma fila imensa para aguardar a sua vez. Várias rodas de capoeira se formaram pelas ruas do Rio Vermelho, uma maior do que a outra. Os sons (me refiro todos eles: dos instrumentos, do mar e das pessoas) vindos de vários lugares ao meu redor deixavam a festa mais vibrante. Tudo bem familiar, mas de maneira bem peculiar, como falei lá no início do texto. Ver a festa em si acontecendo é bem bonito!

Durante a tarde a maratona foi mais puxada. O almoço e mais um abará foram o suficiente para segurar o que veio pela frente. Para além do seu perfil religioso, a Festa de Iemanjá também é, praticamente, um grande festival musical e cultural ao céu aberto. A quantidade de lugares com som ao vivo é imensa e a aglomeração de pessoas também se torna maior. Partindo da praia da Paciência, um som mecânico montado no Chupito tocava um repertório insistentemente hypster, que me fez querer voltar para casa. Mais adiante, no Lalá, foi bem diferente, também com som comandado por djs, não tinha monotonia do som do seu vizinho e o passeio por vários gêneros musicais fez um número grande de pessoas se juntar em frente do lugar.

Seguindo o fluxo, caminhando no meio da multidão com bastante sol, suor e cerveja, por duas vezes pequenos carros com caixas de som, que mais pareciam esses carrinhos que vendem (ou vendiam, nunca mais vi por aí) cafezinhos na estação da Lapa ou na Fonte Nova, só que turbinados com várias caixas de som, quase uns Autobots, cruzaram o meu caminho tocando forró, pagode, funk e algo que parecia tecno brega. Enfim, muita gente seguindo todos eles sem nem mesmo saber de onde vinha a música.

Novamente na Bardos Bardos, um número maior de bandas se apresentaram ali. A Antiporcos começou a tocar exatamente na hora que cheguei e o seu hardcore foi ouvido em alto e bom som para quem estava do lado de fora da casa. Canções velozes, pesadas e bem tocadas deixaram o lugar  esquentado para a sequencia do lineup. Alguns encontros inusitados, bastante papo e com um pouco mais de bebida no juízo, nos dirigimos para a rua Fonte do Boi. Lá, mais som mecânico animava um aglomerado gigantesco de pessoas! Teve de tudo: hino do Bahia em uníssono, hino do Vitória sendo vaiado, teve rock, axé, Atoxxxá, Baiana System. Não dava nem para reclamar de pisão no pé! Por curiosidade, ainda fui até o final da rua, mas como já era final de tarde, o que tinha por lá era apenas a silhueta sinistra do Hotel Pestana. Quase um hotel fantasma!

Já era hora de voltar para casa e, mais uma vez, a Bardos Bardos esteve no roteiro. De longe já tinha reconhecido a música que saía de lá. A Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes estava botando o lugar abaixo com seu som classic-stoner de “apenas” uma guitarra, bateria e vocal. Há muito tempo não via de perto o duo e nem quis saber de ficar do lado de fora da casa nesta oportunidade. Dentro, já estava cheio, mas me apertei como pude para conferir as quatro músicas restantes do seu repertório. Tocando alto e com vontade, os irmãos Jende não titubeou nem um segundo, largando os seus riffs pesados e viradas de baterias precisas nos ouvidos de uma audiência que estava empolgada com o que ouvia. Me senti com sorte por ter chegado a tempo de ver essas canções e de testemunhar como o lugar estava reagindo à dupla. São coisas que acontecem em lugares pequenos, onde banda e público ficam muito próximos um do outro. Foi como uma brasa musical. Logo em seguida, os caras ainda foram tocar no Mercadão C.C., mas o cansaço do dia falou mais alto e só me restou partir.

Foi bem interessante a diversidade encontrada nesta investida. Tentei ver o máximo de ocorridos neste dia, mas é muita movimentação para uma festa só. Acredito que pode existir inúmeras outras, em outros lugares do planeta, festivais, shows fechados, camarotes e tudo o mais, mas estar na rua e ver tudo acontecendo é outra coisa. Quem já viu esses festejos de perto, sabe o valor que eles têm e o quanto são insubstituíveis.

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