Podcast com Deus Du, Baterista da banda Modus Operandi.(Gravado em 2017)
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Caos sonoro e novas possibilidades. Por Leo cima.




A veterana do cenário rocker baiano, Modus Operandi, tem uma discografia respeitável que provoca e instiga a quem a escuta. Ao longo de mais de duas décadas de atuação, o quarteto vem mostrando o seu turbilhão musical gótico e industrial (eles vão muito além disso) de maneira cada vez mais presente na cena, com letras realistas e cruas, e com uma formação pouco comum dentro do rock, na qual há a ausência do instrumento ícone do gênero, a guitarra, com uma percussão e furadeira em seu lugar, acompanhadas pelo baixo, bateria e sintetizador. Essa não é nem uma questão de substituição de um instrumento pelo outro! O fato é que eles chegam no seu mais recente trabalho consolidando a sua música e abrindo novos caminhos para ela.

Ainda no final do ano de 2017, a banda soteropolitana lançou o ...Vício, ...Virtude, ...Violência..., certamente um dos mais aguardados daquela temporada. Essa expectativa não aconteceu a toa! Por um longo período, isso já em 2016, o grupo entrou em uma frequência significativa de apresentações que dura até hoje. Desde então, os rapazes puderam experimentar novas músicas nos seus shows e assim, dar corpo de forma mais robusta a suas novidades sonoras dentro do estúdio. Ainda na segunda metade deste mesmo ano, o quarteto registrou o seu mais novo trabalho e adentrou no ano seguinte já inserindo no repertório de suas apresentações as faixas do novo EP. Para a banda, pratica-las ao vivo conferiu uma segurança melhor dos seus arranjos e uma proximidade com a sua audiência, além de desenvolver o seu entrosamento no palco. Isso fez com que, quando lançado, o seu novo trabalho chegasse forte às mãos do seu público e demais admiradores agregados ao longo do caminho. Não foi algo feito para ver se as novas composições funcionavam, uma vez que elas já estavam gravadas, foi a simples espontaneidade e honestidade artística que estabeleceram a comunicação entre ambas as partes.

O disco abre com a banda mantendo o seu espírito artístico, de não estar presa a formatos convencionais das bandas de rock, em não ficar também detida ao seu próprio formato instrumental, e não utilizam um determinado instrumento de seu setup, trazendo a presença de outro não antes usado pelos rapazes em um disco. M.A.L. dá bastante espaço para a gaita e deixa a bateria (ambos instrumentos tocados por Eduardo dEUS) em stand by para dar um clima densamente soturno, com o baixo e a furadeira em um som sincronizado em meio a uma atmosfera psicodelicamente nublada criada pelo sintetizador. Além disso, o baixista Henrique Letárgico assume os vocais da faixa. Em U.M.A. o quarteto mantém a densidade, porém ao mesmo tempo mais pesada e empolgante. A linha de baixo para esta canção, o longo dela, chama bastante atenção pelas suas variações sutis, assim como o berimbau aparecendo em momentos específicos, pontuando o dialogo bem feito entre a furadeira e a bateria, que surge aqui firme e marcante. Os vocais raivosos de David Vertigo ganham força no expressivo refrão.

Barbárie, assim como a sua antecessora, é um momento de destaque de ...Vício, ...Virtude, ...Violência..., trazendo à tona a real cidade de Salvador exatamente como ela é, desnudada de toda a sua festividade perfeita, daquela alegria associada durante o ano inteiro a um carnaval interminável, porém violenta de várias maneiras. Sempre com a ótima interpretação vocal indignada, as diversas faces dos crimes e da crueldade humana na capital baiana aparecem no texto de mãos dadas com um bairro daqui. Mas não se engane, Salvador é uma só! Curiosamente, esta é uma música bastante dançante e é presença certa nos shows dos rapazes. Certamente já é um clássico do rock baiano, atemporal e que provavelmente dure por vários verões. Dando continuidade com o EP, Ad Baculum surge com uma batida tribal e não deixa a empolgação da obra cair. Nela, os vocais, assumidos pelo percussionista Marcos Sampaio, acompanha a tensão da música que segue a um climax explosivo e vertiginoso ao final dos seus menos de dois minutos. Psicografia chega com uma batida minimalista, que se mistura com um inusitado e bem vindo baião, botando para fora em sua letra algumas verdades ácidas de maneira urgente e inteligente, sem dar espaço para o ouvinte ter fôlego. Mais uma vez com os vocais de Marcos Sampaio, Holocausto encerra o disco pintando um cenário devastador, atormentado e aterrorizador de descaso e mal trato humano, com o som da banda executando um som industrial em repetição, com se fosse um mantra, repetindo o título da faixa, se estendendo por um pouco mais de dez minutos com o som solitário da furadeira até o seu final.

Com ...Vício, … Virtude, ...Violência... a Modus Operandi entrega, até agora, o seu disco mais maduro e mais livre para fazer música e arte da maneira que bem entender e processar internamente. Se permitir a não ficar tão seguro a sua tradicional proposta musical, se arriscar a sair de uma zona de conforto, para ousar mais e atingir novos níveis artisticamente provocativos, que fazem pensar e instigar o ouvinte, foram passos importantes para a banda. Esse EP abre um leque de possibilidades para a M.O. em suas próximas investidas e vai se manter vigoroso por muito tempo.
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