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Um tributo para a Snooze à altura de sua obra. Por Leonardo Cima.



Tive a oportunidade de assistir a dois shows dos sergipanos da Snooze. A primeira vez foi no início dos já distantes anos 2000, quando dividiram palco com brincando de deus, Retrofoguetes e The Honkers, já a segunda foi mais recentemente, lá para os idos de 2012 em uma edição do Festival Big Bands, com várias outras bandas no line up. Nas duas ocasiões, a banda deixou em mim uma impressão daquelas marcantes quando se refere a um som indie, de essência guitar band, na melhor linha anos noventa que se pode imaginar.

Uma banda nordestina, de fora da Bahia e fazendo um som foda daquele só podia mesmo ser detentora e um respeito digno daquelas que realmente fazem sua musica com paixão e que se dedica a ela há longos anos nessa empreitada, muitas vezes louca, que é o rock'n roll. Recentemente, o grupo anunciou o final da sua carreira depois de 25 anos de atividade, porém, algo especial surgiu deste fim: um mais que merecido tributo à sua obra.

Idealizado e capitaneado pelo musico Gus Machado, Snoozing All This Time traz quinze artistas/bandas de todo canto do Brasil em quinze faixas homenageando o conjunto, cada um à sua maneira, descontruindo de forma respeitosa as versões originais escolhidas a dedo pelos próprios participantes!

O tributo abre com Snoozing All the Time sendo interpretada pelo trio El Presidente, conterrâneos dos homenageados. Guitarras distorcidas com toda a beleza que uma banda de influencia noise possa deixa-la, pegada intimista, bateria contida e um clima indie na medida certa, com uma linguagem mais recente desse gênero, referenciando bandas como Beach House e dando, também, à faixa uma ambientação sombria e porque não onírica. Seguindo, a canção I Feel You ganhou uma versão mais acelerada nas mãos da também reverenciada banda Wry, se aproximando bastante da original, mas com muita personalidade. Como se eles tirassem o elemento teenagefanclubiano dela e colocado um sonicyouthiano no lugar. Do Rio Grande do Norte, a Thee Automatics pula para fora da caixa e traz uma Camp mais arrastadona, com teclado que remete ao pos punk gótico e uma pitada de space guitar. Já o Bruno Del Rey e Rafael Costello apontam mais ainda para o passado e surgem com uma balada para A Song to Prepare em um formato requintado, bebendo na fonte dos rocks dos anos 1950, diante de uma roupagem Lennon para canções desse período, na sua (excelente!) fase "fim de semana perdido". De Teresina, a Növa levanta a poeira, traz velocidade com Bubblegum Voice e não perde o gás com suas guitarras que brilham nas alturas do ouvido.

Em Loser's Kiss, o cantor e compositor Arthur Matos recria a faixa utilizando programações de bateria de bom gosto e guitarras que se afastam de toda a distorção da original, sem perder a essência do seu sentido, levando a composição para lugares mais melancólicos. Do Rio Grande do Sul, a Ornitorrincos trazem uma Someday com uma cara mais experimental e minimalista, e com um certo bom humor sonoro que lembra Zappa. Em Love and Death (No Conclusions), Gus Machado toca em todos os instrumentos e traz uma roupagem mais visceral para ela, com sonoridade lo-fi e com várias camadas sonoras em cada detalhe de nota tocada por ele, sem deixar de lado a vertente psicodélica investida originalmente pela Snooze. Os backing vocais da Déborah Costa e do Autran se encaixaram muito bem aqui. O cantor e compositor potiguar Dimetrius Ferreira surge com uma versão mais radiofônica de Fado, em um caminho totalmente diferente e interessante da referenciada. Optando por canta-la em português, essa versão possui sons de teclados que acertam bem com a guitarra e a voz sussurrada/suave do cantor. Em Stay With Me, o cantor e compositor Pedro Yuri "sintetiza" a canção e não deixa que a magia das microfonias e distorções se percam em sua roupagem igualmente experimental e com uma veia mais psicodélica.

Os cearenses da Lowelldive traz bastante energia nostálgica para uma The Song of Our Lives mais rock e bastante fiel à sua primeira leitura, enquanto a sergipana The Renegades of Punk aparece evocando o espírito Goo, do Sonic Youth, para sua roupagem de Bottle, um punk rock garageiro, beirando o noise de guitarra brilhosa. De maneira singela, o cantor e compositor Werden faz de Mariana's Butterfly uma canção mais intimista, destacando o violão, colocando guitarras mais contidas e teclados de maneira pontual. A Pastel de Miolos, representante baiana no tributo, em sua formação duo, fez de Emptiness um punk rock veloz e enérgico, objetivo e direto, e o musico carioca Panço, mais uma vez atmosférico e inteligente, fez da versão de I Fell You (Alternate Version) talvez aquela mais diferente de todo o disco, criando texturas sonoras em lógicas psicodélicas, fechando a obra com a chave cintilante e dourada do experimentalismo.

Snoozing All This Time é um belo tributo à Snooze, faz justiça a obra e ao percurso da banda ao longo de todos esses anos. O projeto também abre espaço para cada participante dizer em que ocasião conheceu o grupo e o porque que escolheu tal musica, o que ajuda a entender melhor o que cada um deles quis dizer em suas versões e o quanto afetivas e carinhosas são as suas relações com os rapazes de Sergipe. Como não poderia deixar de ser diferente, essa também é uma oportunidade de conhecer novos artistas/grupos, todos muito competentes e interessantes, que fazem o ouvinte querer buscar seus respectivos trabalhos. Só não corri logo para isso porque me diverti revisitando as versões originais nos discos da Snooze. Havia bastante tempo que não rodava os caras por aqui e fazer isso me trouxe boas lembranças do final dos anos 1990 e inicio dos anos 2000, em uma onda indie nostálgica que me fez passar um tempo no repeat, misturando a musica deles ao silêncio da madrugada.


Ouça aqui: https://snoozingallthistime.bandcamp.com/album/snoozing-all-this-time

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