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Visitando o passado, enxergando o futuro. Por Leonardo Cima.


O mais recente lançamento dos selos SoteroRec e OCADISCOS marcou a estreia da nossa nova série, a Retro Rocks. Série essa que tem como proposta trazer para o ouvinte de hoje, trabalhos de bandas da primeira década do início deste século e além, e que sumiram na poeira da internet após o término das suas respectivas atividades. Um trabalho de resgate da memória da nossa cena local, em mais um sinal de sua riqueza e diversidade.

Este artista, ou banda, como preferir, é também um dos grandes motivos para a criação destes selos. Em outubro do ano passado me encontrei remexendo no baú da G.O.R., à procura de um material nosso que pudesse ser lançado em um futuro não muito distante, e, em meio a fitas k-7 com registros de canções sendo mostradas pela primeira vez, cd-r's com ensaios perdidos e antigas demos, eis que estavam dois cds que me chamaram a atenção, ambos possuindo um conteúdo que confesso não estar recordado, naquele momento, de possuí-los em mãos.

Estavam, literalmente, perdidos mesmo, dentro de uma caixa, em meio a papéis velhos com notas das gravações encontradas nas demais mídias, à poeira acumulada, à traças e à inevitáveis oxidações que naturalmente incidem sobre esses cds de gravação caseira comprados em papelarias de bairro. Apurando a vista para conseguir ler as pequenas e quase que ilegíveis palavras escritas no disco, estava lá: "Atakama Project". Não acreditei que ali poderia conter uma historia boa a ser contada. Me apressei, empolgado para me certificar de que tudo o que eu imaginava estava ali, liguei o computador e coloquei o cd no drive. A apreensão se misturou aos sentimentos de euforia, pois conferindo a mídia, dava para ver a quantidade significativa de furos nela, furos pequenos e de todas as formas, furos suficientes para fazer com que ela não rodasse em leitor de cd algum.

No salto de fé, vi a bandeja entrar no pc e esperei por quase cinco minutos de um barulho equivalente a várias britas sendo processadas pelo drive do computador, até que parou e depois de breves segundos se abriu uma janela no monitor com uma pasta contendo todo o material gravado pelo Atakama Project. Tudo estava lá, faixas e capas, todas organizadas da maneira como foram pensadas, prontas para serem escutadas. Depois de uma boa sequencia de degustação sonora e de uma boa viagem ao passado, me convenci de que outras pessoas podiam ter acesso a esse material, para ser justo com a obra e para torna-la disponível a quem quisesse escuta-la, e entre insights e o amadurecimento das ideias, enfim chega aos seus ouvidos este som.

A mídia com a discografia do Atakama Project e seus furos causados pela ação do tempo.

O Atakama Project, aka Sérgio Moraes (frontman da Game Over Riverside, ex Hardrons), é a banda de um homem só. Esta é uma investida musical do Sérgio Moraes antes mesmo dele ter formado o seu atual grupo e traz à tona, com mais clareza, a mente inquieta e corajosa do músico. Com canções curtas, dentro de um caráter experimental, lo-fi, psicodélico, indie com nuances garageiras e banhado pelo ideal do faça você mesmo, o então jovem músico investiu tempo em beber nas possibilidades sonoras de recursos disponíveis na época, munido apenas com guitarra, violão e um desktop com um gravador k7 conectado a ele. Tudo isso envolto à vontade de desenvolver métodos próprios de composição, de aprender processos de gravação e de externar toda a sua criatividade. Ao todo, foram seis trabalhos produzidos ao longo de dez anos e os dois primeiros deles você confere agora, o K7 Mono - 1999 (1999) e o The Official Miami Vice (2005), os demais serão disponibilizados em breve.

Em sua gênese, K7 Mono - 1999 leva o ouvinte ao já intocável e nebuloso final dos anos noventa, em uma sonoridade mais intimista e sombria, com vocais sussurrados vindos de um ambiente onírico com interessantes composições. Na faixa inicial, Better Songs Devour Youngs, samples com cantos gregorianos se misturam à voz do músico, evocando uma atmosfera de mistério. Em I Don't Believe in Your Love, o clima surreal, e de certa maneira apocalíptico, ecoa dos vocais e do violão de Sérgio Moraes, começando e terminando como um sonho turvo, que pode se dissipar com rapidez de sua mente após o seu despertar. The City fecha o disco levando quem a escuta de volta ao âmbito surreal, bastante propício para o período rapid eye movement do sono. O Neil Gaiman escreveria facilmente uma nova história de Sandman baseada nessas três faixas!

Nesse ano de 1999, a investida sonora ainda não tinha um nome e só foi batizada tempos seguintes, depois de um caso que ganhou notoriedade na mídia, de um baiano que foi encontrado vagando pelo deserto do Atacama, no Chile, pelo motivo dele querer chegar à Nova York à pé, partindo de Itabuna (interior daqui da Bahia), segundo relatos.


Seis anos depois, no The Official Miami Vice, há mais espaço para as canções instrumentais e um contato maior com programações, criando atmosferas mais instigantes, como em trilhas sonoras de um filme imaginário para o cotidiano! O disco abre com Anarquismo, uma espécie de grande intro destacando a bateria programada e sinalizando a sonoridade do que vem pela frente. The Killer traz guitarras distorcidas para o meio campo e pinta uma paisagem sci-fi, com certo peso e com vozes em rotação alterada que parecem querer dizer algo enigmático. Atomic Bomb surge mais frenética, com pegada new wave/surf music, e com direito a clap hands, dando um pouco mais de cores vibrantes à sequencia. A faixa título fecha o cd em uma cadencia mais lenta, retomando a predominância de sons programados, sem deixar de lado seu elemento analógico. Compararia esse disco à trilha sonora do filme Ascensor para o Cadafalso, feita pelo Miles Davis, no sentido de como ambos encararam estas suas obras do mesmo jeito, livres de preocupações com estruturas e abordagens pré estabelecidas existentes em seus respectivos universos musicais, livres para simplesmente criar e expressar em som o que sentiram musicalmente.

Certamente, o Atakama Project influenciou, direta e indiretamente, as pessoas ao seu redor e ao andamento do amadurecimento da musica que acontecia dentro de si e à sua volta, e talvez, o mais importante: entendeu a sua época e enxergou além do seu tempo! Ter essa consciência não é fácil! E o que você acha desses artistas atuais que fazem um som atmosférico somente com guitarra e um laptop??? Com certeza, alguém pensou nisso e executou a ideia antes!

Agora, um breve recado: se você teve uma banda, ou conhece alguém que fez um trabalho que se encaixe na proposta da nossa série Retro Rocks, e gostaria de fazer parte do nosso catálogo, faça contato com a gente pelo e-mail soterorec@gmail.com para conversarmos. Vai ser bom poder levar a sua musica para novos ouvidos.





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