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Um breve recorte de um diário de bordo. Por Leonardo Cima.




A história da Hardrons começa quando a da Game Over Riverside termina. O ano era 2008 e ainda no primeiro semestre, antes mesmo que a ressaca pós fim de banda chegasse por aqui com mais força na rotina, Sérgio Moraes, então vocal da G.O.R., me propôs dar continuidade àquilo que sempre gostamos de fazer, música rock, e para "aproveitarmos para tirar algumas ideias da cabeça e do papel e coloca-las em prática, fazer algumas coisas diferentes do que a gente estava fazendo", e isso também incluía Leko Miranda (guitarra) na dança. Esse era um dos principais propósitos e desafios desse projeto que ainda não tinha um nome: fazer um som diferente daquele que esses três vinham fazendo em sua antiga banda.


Foi, de fato, um momento de experimentação. Procuramos convocar os demais integrantes da banda também partindo dessa ideia e com o que estava ao nosso alcance. Para o baixo, entrou no grupo o músico Marcelo Blue-9 e convidamos o violinista Alain Lopes para fazer parte da empreitada. Alain foi uma figura presente em vários shows da primeira fase da G.O.R., nos quais pudemos improvisar a nossa música com a sua participação ao violino de maneira natural e sempre empolgante, e acreditamos naquela época que poderia haver bons resultados com nossa nova parceria. Parecia que essa fosse realmente uma boa ideia, mas acabou não sendo assim. A química entre esses dois universos, o erudito e o punk, não deu liga e após o segundo ensaio ele sinalizou que não iria continuar conosco. Com Marcelo aconteceu o mesmo e três ensaios depois disso, ele deixou a banda.

Não demorou muito e quem assumiu as quatro cordas foi o também ex-integrante da G.O.R., Ricardo Cidade, ao mesmo tempo em que se integrou ao projeto o vocalista Gil Dantas, ex frontman da banda de trash metal Mystery. O convite aos dois foi feito simultaneamente, dentro de uma conversa casual, em um encontro casual próximo à residência na qual ensaiávamos. Assim se formou o grupo, com a cozinha da Game Over Riverside, o seu guitarrista solo (Leko), Sérgio assumindo seu inédito posto, agora como guitarrista, trazendo uma nova abordagem para o instrumento, e Gil nos vocais. Logo no primeiro ensaio descartamos com muita naturalidade tudo o que havíamos tentado antes de chegar nessa formação, não havia de fato algo que pudesse ser reaproveitado e partir do zero foi uma decisão sensata para levar a musica adiante.


Sem que nos déssemos conta, com pouco tempo já estávamos ensaiando, enfim, em um estudio, mais à vontade e longe das reclamações da vizinhança sobre o som alto. Chegamos rápido a um repertório de cerca de seis musicas, que iam ganhando mais robustez a cada encontro, fruto de uma boa otimização de tempo e recursos. O que ajudou bastante no desenvolvimento dessas canções, além de conseguir aproveitar ao máximo o período dentro do estúdio, foi a utilização de guias com as baterias programadas baseadas em insights para a sua criação. Ouvir essas guias era o dever de casa que era feito com engajamento pelo quinteto, com cada um exercitando a sua audição à sua maneira, se direcionando para boas execuções no ensaio seguinte. Foi uma ferramenta que ajudou muito no processo criativo do grupo. Mas ainda faltava algo a se resolver.


Nominar a banda não foi tão simples, porém não me recordo de tantos nomes sugeridos antes do que foi decidido. O quinteto foi então batizado como Hardrons, por conta do interesse dos integrantes em teorias e fatos relacionados à ciência. O nome é uma referencia ao Colisor de Hádrons, laboratório localizado no subsolo entre a Suíça e a França, destinado a tentar recriar eventos anteriores ao Big Bang e assim detectar o Bolson de Higgs, ou a "partícula de Deus" (ainda não experimentalmente comprovado na época). Baseado nessa intenção cientifica e no próprio funcionamento do colisor, que se comporta como se fosse um imenso micro ondas de 27 km, chocando núcleos de átomos uns nos outros em alta energia, a palavra veio se encaixar bem na banda, ainda com uma discreta alteração na sua grafia, dando mais peso à seu sentido.


Com um repertório autoral formado, o caminho natural foi fazer a gravação das musicas que havíamos composto e isso só veio a acontecer em nove de outubro de 2009. A ideia inicial era gravar ao menos cinco das composições que existiam no repertório, dentro de um dia inteiro no estúdio. A sessão de gravação duraria das 9:00 até às 17:00 horas, tempo suficiente para fazer o pretendido. Isso em um mundo perfeito! A pouca, ou quase nenhuma, experiência em gravina que tínhamos na época não nos permitiu enxergar que imprevistos nesses processos acontecem e que quantidade não quer dizer qualidade. O registro aconteceu no estúdio O Beco, o mesmo que ensaiávamos aqui na cidade baixa, que começou a ser organizado às 8:30 e finalmente ajustado por volta das 9:50 daquele dia. Dentre as tentativas iniciais, percebemos que, mesmo com a confiança que tínhamos na execução das musicas, mas com a maioria delas chegando a passar mais de quatro minutos de duração, o tempo seria curto demais para o fazer com a atenção e o cuidado que gostaríamos de investir nelas. Então decidimos reduzir o numero de canções para, apenas, duas. Justamente as primeiras compostas por nós: Fractal Venus e Man of Action. 

Finalizamos a sessão de gravação satisfeitos e junto ao período de mixagem e masterização, tivemos um custo total de cerca de R$240,00. Realmente uma verdadeira pechincha para o que era oferecido às bandas naquele tempo e diante do que havia de oferta de produtores e infra estrutura. Era tudo muito caro nesse sentido, como ainda é, mas partir para nomes de produtores que não fossem badalados da época foi muito mais vantajoso, no caso nós mesmos. Assinamos a produção, tendo o Getúlio Nonato como responsável pela captação do áudio e Faustino Menezes pela mix e master orientado por mim e por Sérgio. A arte de capa foi assinada por Ricardo Cidade.


Com o single pronto, cabe falar do som do grupo, que leva o grunge e o stoner para um passeio a um lugar desconhecido, experimentando esses gêneros de maneira mais progressiva, ousando em fazer uma mistura entre o punk e o math rock, ao mesmo tempo em que flerta com várias linguagens do metal. Neste single homônimo, lançado em nove de novembro de 2009, investindo em letras em inglês, traz as duas canções em ponto de explosão. Fractal Vênus é intensa e desenfreadamente impulsiva, tem qualidades dignas de uma faixa de abertura de disco, com características interessantes que remetem a um rock de raiz cheio de vigor, refrão marcante e solo afiado (participação especial aqui do guitarrista Getúlio Nonato), ainda contando com espaço para elemento de percussão de caráter regionalista executado pelo vocalista Gil Dantas, ao mesmo tempo em que se versa sobre um relacionamento intenso. Em Man of Action a Hardrons chega aqui com um som diferente de tudo o que se havia feito na história anterior de cada um dos seus integrantes. Ela se apresenta mais frenética, inquieta, como uma marcha apocalíptica/infernal de veia mais psicodélica e ácida, um pouco maior em sua duração e com a banda alcançando o próprio desejo de atingir uma música diferente, o ponto fora da curva que buscava desde o seu inicio, levando o ouvinte a um espiral vertiginoso de som e fúria, fincados em um texto que trata sobre questões existenciais.

Cartaz do evento Musicaos, onde a Hardrons fez a sua primeira apresentação.


Com as musicas disponibilizadas na web, a Hardrons conseguiu a sua primeira apresentação. Foi em 24 de janeiro de 2010, no Irish Pub da Barra, um domingo, única pauta livre que encontramos disponível dentre as casas atuantes na cidade de Salvador na época. Testar o som em uma gig era importante para saber como elas funcionavam em ação e, tirando o "frio da barriga" da estreia, o quinteto soou bem e percebeu que o caminho a ser trilhado estava claro. Neste mesmo evento ainda teve as bandas Brainstorm (mais conhecida hoje como Neurática) com seu competente som grunge de raiz e as bandas And Mary Dies e City in Flames, ambas da vertente emo. Aliás, essa foi uma época na qual a capital baiana vivia uma onda emo forte, reflexo do sucesso do gênero no país. Frisar isso é importante, pois, em uma mesma noite, perceber reações mescladas de estranheza de uns e empolgação de outros foi um bom sinal para o grupo se certificar de sua proposta sonora através ouvidos alheios. Ainda houve mais três shows além desse e em todos eles os covers de Little Marchioness (G.O.R.) e Wolf Like Me (TV on the Radio) estavam presentes no setlist.

Chocking With My Own Hands:
https://youtu.be/JJGshjxybu8
 
A Hardrons foi uma grande aventura sonora. Ela chegou a ser um quarteto e fez mais algumas boas canções com essa formação, como Choking With My Own Hands (a que está no link do vídeo acima), mas não rolou outra sessão de gravação. Há bastante material de ensaio, guias e demos, que provavelmente ganhem a luz do dia pelo SoteroRec. No inicio desse 2020 o grupo se reuniu dentro de apresentações da G.O.R., o que empolgou para uma tentativa de revival das atividades nesse ano, mas como várias projetos mundo afora foram suspensos por conta da pandemia, não se pôde levar adiante essa ideia, por enquanto.

Escute a Hardrons aqui: https://soterorec.bandcamp.com/album/hardrons

Comentários

Deko disse…
Muito bom. Parabéns pelo texto.
Soterorock disse…
Valeu, André! Obrigado pela leitura.

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