Pular para o conteúdo principal

Garimpos virtuais. Por Leonardo Cima.

Para quem gosta de musica, garimpar novos sons e novas áreas é sempre uma tarefa prazerosa na qual pode se passar horas e horas madrugada adentro, conferindo bandas, selos e discos. O processo na descoberta de novidades sonoras varia de pessoa para pessoa, claro, cada um tem seu método, desde achar uma capa interessante e a partir dali deixar a própria curiosidade desbravar todo o universo da banda, conferindo seus demais trabalhos, os outros grupos com os quais se relaciona, selo que faz parte, cena que está inserida e por aí vai. Uma coisa vai levando a outra. O caminho inverso também acontece e os conjuntos mais engajados conseguem atravessar o país, mesmo que virtualmente.


As coletâneas também têm o seu papel de importância na apresentação de bandas e é por uma delas que faço a minha primeira indicação dessa matéria. Nordeste em Chamas vol. 1 talvez seja a ação mais significativa da cena independente brasileira neste ano de 2020, uma compilação épica que reúne 101 bandas de todos os estados do Nordeste, em 101 faixas. São 31 representantes da Bahia, 5 de Alagoas, 11 do Ceará, 7 do Maranhão, 7 da Paraíba, 21 de Pernambuco, 9 do Piauí, 5 do Rio Grande do Norte e 5 de Sergipe. Todas elas mostram a firmeza que a nossa região tem em termos de som e posicionamento político, com a força do punk rock, hard core, crossover e do metal, passando pelas demais variações destes gêneros. A iniciativa foi idealizada e posta em prática por Jone Luis, integrante da Jacau, banda da cidade de Itabuna-BA também inclusa na seleção, e foi lançada pelo selo Tocaia com uma tiragem de 1.250 unidades físicas, que se esgotou rapidamente. Também foi criado o streaming Tocaia (em app ou site) para abrigar a coletânea e toda e qualquer banda independente que desejar subir suas musicas no serviço, é só contactar o Jone nas redes sociais da Jacau para saber como realizar a inclusão no streaming. Não é exagero algum dizer que este já é um marco do underground não só regional, mas também nacional, que impactou muita gente e muita banda de diversos lugares do país. Já no aguardo do segundo volume.

Ouça Nordeste em Chamas vol. 1 e conheça o selo Tocaia aqui: tocaiaselo.com



Do chat inbox do perfil do Soterorock lá no Facebook, chegou ate a mim, direto do Rio Grande do Sul, uma mensagem dos rapazes da banda Carlos Mherelov, a minha segunda indicação. Formado em meados de 2019 e, desde então, lançando singles com frequência periódica, o som do quinteto gaúcho possui uma forte influencia do blues, além de beber da fonte do punk rock. As variações de gêneros em suas canções são interessantes e trazem temas sobre questões sociais e políticas em seus textos de forma contundente e direta, sem rodeios. Ao todo, a banda já disponibilizou cinco singles. São eles: Vagando Pelas Ruas, um southern rock de andamento arrastado e bem inspirado, com letra e incidência poética sobre o descaso social que muito se encontra pelo país, E o Cavalo Deu o Coice, um hard rock competente de refrão grudento e com boa presença do sax, com uma crítica aos esquemas políticos sujos e imundos investidos pela direita, No Clima, que conta a história de um trabalhador brasileiro que se revolta com seu chefe depois que este o julgou injustamente por chegar atrasado no seu trabalho, em decorrência de uma forte chuva, tudo conduzido por um rock e um slide guitar seguros. Completam a lista mais dois temas instrumentais, com Brejeiro, uma versão punk rock para a composição do Ernesto Nazareth e a balada Chuva, que traz a guitarra em uma performance principal.

Ouça Carlos Mherelov aqui: https://open.spotify.com/artist/6UG01djhuFLpfIvnTeC5AW?si=lO4twrXLSGuXJiiDZVVgOg



A terceira indicação é de uma banda de lá de Curitiba, o quarteto de punk rock Cigarras. Formada só por mulheres, a Cigarras também transita bastante pela surf music e um pouco pelo rockabilly, porém sempre dentro de uma linguagem garageira suja e veloz, daquelas que empolga a cada audição investida. O seu primeiro EP e os dois primeiros singles já indicavam essa direção em sua sonoridade e este mais recente trabalho homônimo traz contornos mais viscerais em sua musica, com faixas mais rápidas e diretas. Das cinco musicas nele, três são inéditas. Bicho Morto e Fritando na Trajano ganharam aqui roupagens mais nervosas e cortantes, assim como as demais composições. Horizontal abre a sequencia com guitarras de ska e distorções, anunciando a atmosfera que o disco proporciona para o ouvinte, Sexy Cola é uma canção grudenta e sem refrão, com riff igualmente pegajoso e ainda consegue ser dançante. Fechando o disco, Xurumen é uma porrada punk veloz e de fôlego único. A Cigarras não se restringe a linguagem underground e consegue chegar a ouvidos diversos com facilidade e traz um texto sobre relacionamentos de maneira inteligente e com ótimas sacadas bem humoradas. Certamente, aqui consta um dos dez minutos mais divertidos que você pode aproveitar ouvindo uma obra musical. Este também é o primeiro trabalho do conjunto a ter uma mídia física. O EP Cigarras foi disponibilizado em um vinil de 7", em tiragem limitada, pelo selo curitibano Zoom Discos, que por sua vez possui um catálogo com várias outras bandas independentes da cena paranaense. Todas com material físico disponível. Tem muita banda interessante por lá, que vale a pena o tempo no garimpo! Se você ainda não foi até o site deles, está perdendo tempo.

Ouça Cigarras aqui: https://open.spotify.com/album/7yOKeu5i9uRMnBBvgDpIjO?si=_UaUX9TcTkSmEK6R3b3sVg

Conheça a Zoom Discos aqui: https://zoomdiscos.minestore.com.br/


Comentários

Popular Posts

Resenha: Revista Ozadia, número zero.

Sou um apreciador recente de quadrinhos, e já há algum tempo venho acompanhando o que vem sendo feito de bom neste ramo e fico salivando por novidades dos meus autores preferidos. Ao mesmo tempo que, assim como no rock, é muito bom saber que há uma movimentação local na produção de HQ’s e que essas produções saem de mãos talentosas e possuidoras de uma liberdade criativa que se iguala à música que aprecio. A mais recente novidade é a edição de número zero da revista Ozadia, que é uma compilação de cinco histórias eróticas escritas pelas mãos de sete quadrinistas e roteiristas daqui da Bahia. Lançada com o apoio do selo Quadro a Quadro e ganhando popularidade a cada dia que passa, a revista tem dois aspectos importantes para ser lida mais de uma vez: uma ótima fluência no seu texto e traços inspiradíssimos de seus desenhos. De Ricardo Cidade e Alex Lins, “Especimen” abre a Ozadia com uma ótima ficção cientifica pornográfica, onde a heroína sai em busca de coleta de amostras de um

As 10 Caras do Rock Baiano - Com a Banda Vômitos, "Punk Rock pra mendigo!"

O Portal Soterorockpolitano foi buscar na cidade de Barreiras os entrevistados da oitava entrevista da série “As 10 Caras do Rock Baiano”, são eles o guitarrista Rick Rodriguez e o vocalista Tito Blasphemer, da banda Vômitos. Nessa entrevista eles falam sobre as condições da cena da sua cidade e do esforço para mante-la ativa, suas influências e a inspiração para as suas letras, além da repercussão do clipe da música “Facada”, que já chegou a mais de 3.000 visualizações no Youtube. Então, ajeite-se na sua cadeira e fique ligado para não tomar uma facada no bucho. Soterorockpolitano - Como e quando surgiu a banda? Rick Rodriguez - A banda surgiu em 2007, tínhamos um interesse em comum, que era o punk rock, e isso nos motivou a formar a banda na época, começamos tocando músicas dos Ramones, que era nossa banda preferida e logo em seguida começamos a compor, e ter nossas próprias músicas. Tito Blasphemer - Estávamos cansados da cena de nossa cidade, bandas que

4 Discos de Rock Baiano, a compilação das cinco publicações. Por Leonardo Cima.

Movidos pelo resgate da memória da cena independente da Bahia, no qual o selo SoteroRec tem feito com o Retro Rocks desde o inicio deste ano  e por todas as ações que o cenário também tem feito nesse sentido, decidimos trazer uma compilação especial do nosso site para você que nos acompanha.  Em 2017, o Portal Soterorock fez uma série de matérias que destacava alguns dos principais discos de rock lançados na Bahia ao longo dos anos. Essa série se chamava "4 Discos de Rock Baiano" e como o nome sugere, quatro discos eram referenciados nas matérias.  Foram ao todo cinco publicações com bandas/artistas de gerações distintas reunidas nesta coletânea.  Você vai encontrar aqui pontuações sobre as obras e o mais importante: o registro público sobre elas, para que possam ser revisitadas e referenciadas ao longo dos anos. Passar em branco é que não pode! O aspecto positivo de se visitar essas postagens é a de ver que a maioria das bandas e artistas citados nelas ainda estão em ativida