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O garage noir da The Futchers. Por Leonardo Cima.

Nesses últimos dois meses, o selo SoteroRec teve a honra e a felicidade de lançar na sua série Retro Rocks, os trabalhos de uma das bandas mais interessantes que a cena local já teve e que, infelizmente, não teve uma projeção devidamente extensa. Capitaneada por Rodrigo "Sputter" Chagas (vocal da The Honkers), a The Futchers foi a sua banda paralela idealizada e montada por ele próprio no final do ano de 2006. A propósito, o nome Futchers vem inspirado da dislexia do compositor britânico Billy Childish, que escreve as palavras da mesma maneira que as fala.

Ele, ao lado de mais quatro integrantes, também de bandas locais da época, começaram os ensaios com uma proposta sonora voltada mais para o mood e o garage rock, se distanciando um pouco dos seus respectivos trabalhos nos grupos anteriores. Relembrando um pouco daquele período e como observador, esse "peso" de não ter que se repetir musicalmente recaía um pouco mais sobre Rodrigo. Não que houvesse isso de fato, mas, por conta da grande visibilidade que a Honkers já possuía na época, era inevitável as comparações entre as duas bandas.

Depois de alguns poucos ensaios e tentativas com diversos músicos, o conjunto chegou rapidamente à formação que gravou o seu primeiro trabalho. Além de Rodrigo (vocais), a Futchers ainda contou com Gaby Smudgy (vocais e guitarra), Leo Marinho (bateria), Gean Santos (guitarra) e Rogerio Gagliano (baixo). É certo de que a química entre os integrantes fluiu muito bem, uma vez que em um curto espaço de tempo a banda compôs uma quantidade de canções suficiente para preencher um disco cheio. Isso sem repetir fórmulas, ao mesmo tempo que trazia uma unidade em seu som.

Gravado no MD Estúdio e produzido por Deja e pelo próprio grupo, o 10 Songs That Will Not Change the World traz um som que gosto de me referir como garage noir. Todo aquele clima indie garageiro, com referencias sessentistas, é evocado nesse registro. A energia punk ao longo das faixas, a estética low-fi e tudo mesclado ao blues, e ao soul, pintam uma paisagem sonora à meia luz, dentro de um inferninho, com eletricidade no ar, nuvens de cigarro e cheiro do melhor álcool apropriado para bebida. Tudo isso sem deixar de ser divertido, dançante e sincero, elementos que conduzem os seus ouvidos do inicio ao fim do disco sem que se perceba o tempo passando.

Para além da musicalidade, as performances vocais de Rodrigo e de Gaby soam de maneira harmoniosa, com ótimo desempenho de ambos quando se apresentam em dueto, ou quando cada um surge em solo. Perfeito para a proposta da banda. As letras descoladas sobre amores conquistados e perdidos, seduções e uma vida livre e sem pesos nas costas dão um brilho especial à sonoridade das faixas que o quinteto gravou. Há bom humor presente em seu texto também, que surge já desde o nome da obra. Segundo Rodrigo, "esse disco têm dez canções que não vão mudar o mundo, mas tem uma que pode fazer isso acontecer". O título indica dez faixas, mas na verdade possui onze (doze, se considerar a mix de My Spell Doesn't Work on You!). Então, é só escolher a sua preferida e espalhar a palavra!!

Pouquíssimo tempo depois da gravação do disco, a banda passou por mudanças em sua formação. Gaby Smudgy e Gean Santos, coincidentemente, tiveram que se mudar para outras cidades fora da Bahia e deixaram o grupo, esse último se manteve ainda que virtualmente como integrante, tocando em shows da Futchers quando se encontrava na capital baiana. No lugar dos dois, foram chamados Celeza e Tripa 77, ao mesmo tempo em que houve mudanças de funções entre alguns dos músicos. Leo Marinho saiu da bateria e assumiu as guitarras, Rogério Gagliano deu o lugar do baixo a Celeza e se tornou guitarrista, enquanto Tripa 77 passou a tocar bateria no conjunto.

Com esse formato, a The Futchers fez o maior número de suas gigs e gravou, então, o seu único registro ao vivo, o Live @ Downtown Klub! A apresentação foi feita em uma casa de shows que existia na cidade baixa e que, literalmente, sumiu na poeira do tempo: o bar foi demolido e deu lugar para um lava-jato. Hoje é até difícil de precisar com exatidão a sua localidade, uma vez que as casas vizinhas também sofreram essa ação e ganharam outros aspectos e empreendimentos. O fato é que a banda no palco mantêm nesse disco o mesmo nível de empolgação que existe no seu trabalho de estreia e mostra uma banda afiada e entrosada. A performance não cansa e, de forma natural às bandas de rock, ganham um punch extra na pegada dos seus acordes. Difícil é ouvir e querer ficar parado.

A The Futchers se manteve ativa por cerca de seis anos e em 2012 fez a sua derradeira apresentação. Por conta de outros projetos musicais e demandas pessoais, o grupo encerrou as suas atividades. Rodrigo ainda está em ação com a The Honkers e Tripa 77 hoje também faz parte da formação da banda. Para além das qualidades sonoras antes citadas, o potencial comercial da Futchers não pode ser ignorado. A linguagem acessível da sua música, mesmo que tenha suas raízes fincadas em sons mais undergrounds, chama a atenção pelo seu desenvolvimento melódico. Em uma cidade-estado-país mais atento aos movimentos da sua cena local, já teriam valorizado a banda de maneira mais justa. Bem, a música ainda continua ao seu alcance!!

Ouça 10 Songs That Will Not Change the World aqui: https://soterorec.bandcamp.com/album/10-songs-that-will-not-change-the-world

Ouça Live @ Downtown Klub aqui: https://soterorec.bandcamp.com/album/live-downtown-klub

Galeria de capas:



Comentários

Rodrigo Sputter disse…
Léo,pode parecer suspeito falar isso...mas talvez esse seja o melhor texto que eu li que vc escreveu...sobre todas bandas que tive...e que li aqui no blog...maturidade e visão musical e literária!

Valeu mestre...estamos viv@s online...valeu Sotero rock!!! Vida longa!!
Anônimo disse…
Valeu, Rodrigo. Tamo junto, simbora!
Davi disse…
Texto sensacional. Grande banda.
Gean disse…
Bem massa, as musicas são todas bem foda. Sdds desse tempo e de todos nossos shows.

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