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Uma viagem no tempo, sem perder tempo. Por Leonardo Cima.

Todos os discos que lançamos pelo selo SoteroRec é especial, com cada um possuindo a sua particularidade. Cada um deles carrega uma história interessante por trás de suas faixas, que as vezes não chega ao ouvinte, mas que fortalecem o fator intangível agregado no resultado final de uma obra. Com toda banda é assim e com a Traumatismo não poderia ser diferente.

Foi bem curiosa a maneira como a banda chegou ao nosso acervo. Estava eu conversando com o Adrian Villas Boas, hoje guitarrista da banda Agrestia, sobre a proposta do selo de também promover o resgate da memória da cena local, quando ele me falou que havia essa banda na qual ele fez parte tocando baixo, que chegou a gravar um disco não lançado e que se encaixaria muito bem com o propósito colocado, indicando-a para o catálogo, caso a gente  tivesse interesse nela. Eu, que já fiquei entusiasmado antes mesmo dele citar o nome do grupo, ao saber de qual banda se tratava, fiquei mais empolgado ainda.

A Traumatismo, anteriormente chamada Traumatismo Craniano, foi uma banda surgida bem no início dos anos 1990 e que esteve bem ativa no cenário até o final dessa mesma década. Me recordo muito bem de, nesse período, ver frequentemente o conjunto aparecer em notas ou espaços generosos nas páginas de jornais daqui da cidade. Naquela época, mesmo ainda não frequentando shows, eu já começara a olhar com mais atenção para o que acontecia por aqui em termos de rock e, certamente, o grupo era um dos que mais se encontrava em atividade.

Estar tão em evidência não era à toa. O engajamento da própria banda nas suas ações contribuiu para essa projeção ao longo dos seus quase dez anos de trajetória. A vontade de fazer acontecer norteou o caminho dos rapazes de maneira consciente, pois sabiam que dependiam somente deles mesmos para que a Traumatismo se mantivesse dessa maneira.

Em conversa que tive com o Adrian, ele elucidou bem esse aspecto, citando o quanto ele e o Mauricio Matos (vocal), sendo ambos os integrantes que estavam mais à frente da banda, faziam os corres necessários e vitais que toda e qualquer banda tem que fazer. Segundo ele, "nós dois éramos a força motriz, corríamos atrás das paradas, dávamos sangue, apostávamos nossas fixas". E continua: "Eu trampava certo, mandava fita demo para todas as revistas, zines, agilizando festivais pra tocar, tínhamos contatos em todas as regiões do Brasil, e até na Argentina"... "Tivemos muitos feedbacks positivos que nos encorajava, e realmente tentamos, fizemos o melhor que poderíamos ter feito com o know how que tínhamos na época", completa.

Tal esforço gerou bons frutos para além das gigs. A banda produziu duas demo tapes, a segunda, Juízo Final, expandiu o alcance da sua presença nos jornais da cidade para outras mídias. Esse é um feito difícil de se conseguir até mesmo nos dias de hoje (guardadas as devidas proporções, claro!). A demo ganhou elogios do Marcelo Nova em seu extinto programa na rádio Transamérica, o Let's Rock (transmitido de São Paulo), que teceu palavras positivas sobre o que ouviu, classificando a Traumatismo como um grupo visceral. Antes disso, a primeira demo tape da banda teve uma resenha na revista Rock Brigade, feita pelo seu então editor-chefe, Fernando Souza Filho, que cravou ser esta uma das mais interessantes gravações do underground.

Em um mundo sem redes sociais, sem qualquer presença da internet e com as condições precárias das poucas casas de shows da cena voltadas para o rock, de fato o empenho na própria promoção e a divulgação boca a boca fizeram a completa diferença para a popularidade do conjunto, que corria por fora no circuito rocker soteropolitano formado por bandas mais comumente conhecidas. Esse é um feito que pode ser celebrado até hoje: "Tínhamos o reconhecimento de pessoas como o Marcelo Nova e da mídia especializada, como a revista Rock Brigade, mas não fazíamos parte da 'turma' do rock soteropolitano. Sempre fomos meio à margem. Isso é uma coisa da qual me orgulho muito", pontua Maurício.

Com as coisas se desenvolvendo bem, era natural que os caminhos levassem os rapazes para a gravação do seu primeiro disco cheio, o que acabou acontecendo em junho do ano de 1998. A gravina também foi um resultado da desenvoltura do grupo em divulgar o seu trabalho, quando, por intermédio de Maurício, a demo Juízo Final chegou às mãos do radialista Cristóvão Rodrigues, que se interessou pelo que ouviu e decidiu trabalhar com a banda, se comprometendo em produzir o disco e em articular o inicio das gravações.

Cristóvão agendou a gravação no estúdio do seu amigo Ademar Furta Cor, o Periferia Estúdio, e ao longo de dez dias, em sessões noturnas que entravam pela madrugada, a Traumatismo registrou as suas canções. Com um ambiente bem descontraído, a banda não teve grandes problemas para executar as suas composições, ela já vinha tocando as musicas que entraram no disco desde 1993, no caso das mais antigas, e desde 1996, as mais novas. Então, eles já sabiam o que queriam, não havia espaço para inventar algo desnecessário dentro do estúdio. "Estávamos muito afiados, ninguém deu trabalho, tudo fluiu naturalmente e com tranquilidade, sem pressão e com todos muito instigados. Não tivemos um produtor mandando a gente fazer isso ou aquilo, tínhamos o estúdio à nossa disposição e gravamos exatamente o que sempre tocamos sem mudar nada", lembrou Adrian.

O clima leve e descontraído dentro do estúdio proporcionou um participação especial interessante e um tanto quanto inusitada em uma das faixas. Como sendo diretor musical do disco, e por ter gravado anos antes no Periferia Estúdio, o guitarrista Marcos Gordo fez o convite a Ademar Furta Cor para gravar os teclados na faixa Não Sabe, composição com uma veia mais sombria. "Pedimos a Ademar pra jogar algo estilo John Lord, e ele se amarrou na ideia e mandou ver nas teclas", lembra Adrian. O interessante aqui é que, considerando universos musicais aparentemente distintos, quando para muitos isso significaria uma barreira, para eles foi congregação.

Com o disco pronto, faltava lançar o cd. Houve a possibilidade dele sair pelo selo Atração, o mesmo que lançou o álbum de estreia do Sine Calmon & Morrão Fumegante, porém as promessas eram muito soltas, pouco consistentes para que isso se concretizasse. Havia a intenção do Cristóvão, enquanto produtor, de fazer isso acontecer, mas, segundo Adrian, "tudo era meio que de boca, possibilidades ou especulações, mesmo assim saia nota no jornal, criaram-se expectativas, sonhos e ilusões, mas nunca assinamos nada". Quando o grupo deu por si, já havia se passado cerca de um ano e meio desde a finalização completa do disco e nada tinha acontecido. Cansados de esperar, meteram a mão na massa e enviaram alguns singles para contatos de zines, revistas e programas de rádio. Conseguiram incluir duas faixas em uma coletânea underground e Mauricio viajou para São Paulo com algumas cópias em CD-R na mala para leva-las a algumas gravadoras, mas nada rolou. 

Com a gravação nas mãos, o grupo deixou passar o timing de todo o processo e não atingiu o seu objetivo de lançar o seu disco cheio. Se pensou em fazer o lançamento de maneira independente, mas a crença de que a banda conseguiria um contrato com uma gravadora para viabiliza-lo era grande. Mesmo com esforço, as coisas não estavam caminhando como se esperava nesse sentido.

Com altas expectativas criadas e não atendidas e, talvez cansado de toda a labuta, Maurício decide deixar a banda. "Da minha parte, houve uma frustração muito grande com o não lançamento do cd", diz ele. Adrian ainda tentou levar a Traumatismo adiante, chamando um amigo próximo para cantar, mas encarando tudo dessa vez mais como um hobby, sem esperar muita coisa por vir. Porém, logo entendeu que a coisa toda não iria dar mais liga: "após alguns ensaios fui percebendo que já era, que não fazia mais sentido seguir com o Traumatismo, e aí montei outra banda, fui explorar outras viagens musicais", diz o ex baixista.

Assim, então, o disco acabou indo para a gaveta, até que vinte e dois anos depois, em meio a esse ano louco de pandemia no qual estamos passando, ele foi, enfim, lançado dentro da série Retro Rocks, do selo SoteroRec. Sabendo dessa história agora, que existiu uma banda como essa na cena local e o quão despretensioso foi desse trabalho chegar no nosso acervo, fica a sensação boa da gente ter contribuído de alguma maneira para trazer à luz o legado da banda e para a sua memória, assim como para a memória do cenário.

Com o fim das atividades, os rapazes continuaram na música. Maurício Matos e Marcos Gordo montaram a Sequela, nessa época Gordo já era guitarrista do Olodum e até hoje faz parte da banda. Adrian Villas Boas e Henrique Tacanose montaram a Mobydick. Tempos depois, Adrian fez parte por um breve período da Maria Bacana e logo em seguida ingressou na Terra de Ninguém, onde ficou até o ano de 2006, quando fez uma pausa nos sons. Retornou em 2015 com a Brahma Groove, onde dá roupagem folk rock para mantras e cantos hindus, e em 2016 fundou a Agrestia, que já lançou dois singles e um EP ao vivo, além de mais um que está sendo finalizado. Decão continua tocando bateria, na banda formada por discípulos da UDV (União do Vegetal).


Traumatismo, o disco.

Aqui nesse registro, se percebe que Maurício Matos (vocal), Adrian Villas Boas (baixo), Marcos Gordo (guitarra), Henrique Tacanose (guitarra) e Decão (bateria), transpiram empolgação e confiança no que acreditavam em termos de sonoridade. O som do quinteto tem forte influencia de Camisa de Vênus e Raul Seixas, porém transita de maneira imersiva em meio ao punk e ao metal, passando pelo crossover, sem abrir mão da velocidade e do peso em momento algum. As letras ácidas, com criticas sociais são fortemente presentes em suas composições e dão um tom provocativo à atmosfera da obra. 

O álbum abre com Juízo Final, que tem clima apocalíptico e já mostra as cartas do seu jogo sonoro, com um punk rock rápido e solo de guitarra cortante. Em seguida, Preciso Morrer, rápida e rasteira, não deixa o clima cair e instiga uma boa roda de pogo. MaconBrás, um hard rock pesado de pegada noventista, tem letra de crítica politica bastante atual e em IML a critica política continua nesse crossover volumoso, expondo a podridão do caráter de um politico brasileiro sujo. Em Não Sabe, faixa mais profunda e que versa sobre questões existenciais, há a já citada participação do Ademar Furta Cor nos teclados em uma performance notória. Atirando no Espelho lembra o ouvinte que no rock não há sossego e abre uma sequência de faixas que possuem um punch certeiro e sem tempo para descansar, com Madrugada na Esquina e Misericórdia.

Negue, de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos, famosamente interpretada pela Maria Bethânia, ganha aqui uma roupagem na pesada linguagem da Traumatismo. Surf in the Shit vem na sequência em uma velocidade insana, assim como Disfarçada, composição que daria bastante campo (hoje em dia) para muita discursão por conta do seu conteúdo politicamente incorreto. Encerrando o disco, O Muro traz em sua introdução os riffs de Crazy Train, do Ozzy Osbourne, em homenagem ao cantor, para então cair em um hard core vigoroso e sem freio.

A Traumatismo não baixou a guarda e nem pegou leve nesse seu registro. Foi bem fiel à sua proposta e não teve medo experimentar todas as possibilidades que estavam disponíveis para a banda na época, seja nas citações, nas participações especiais ou na releitura de clássico. Os rapazes fizeram justiça ao que eles construíram até aquele momento e tiveram personalidade para dar forma a esse seu disco. Não há tempo perdido aqui e a sua audição dele esta apenas a alguns cliques.


Ouça ao disco homônimo da Traumatismo aqui: https://soterorec.bandcamp.com/album/traumatismo


Galeria de fotos.















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